24.11.06












Pois visitando a feira do livro de Porto Alegre eu sempre preciso me policiar... Estipulo uma cota a ser gasta e digo Daqui no passarán. Geralmente consigo comprar uns 3 ou 4 livros.
Este ano foi diferente, queimei toda minha munição num livro só. Mas também, que livro... A Vida Como Ela É... do Nelson Rodrigues.
Não vou fazer propaganda da editora porque foi bem carinho... Mas aqui vai um dos contos:



Delicado

Primeiro, o casal teve sete filhas!
O pai, que se chamava Macário, coçava a cabeça, numa exclamação única e consternada:
— Papagaio!
Era um santo e obstinado homem.
Sua utopia de namorado fora um simples e exíguo casal de filhos, um de cada sexo. Veio a primeira menina, mais outra, uma terceira, uma quarta, e outro qualquer teria desistido, considerado que a vida encareceu muito.
Mas seu Macário incluía entre seus defeitos o de ser teimoso. Na quinta filha, pessoas sensatas aconselharam:
"Entrega os pontos, que é mais negócio!".
Seu Macário respirou fundo:
— Não, nunca! Nunca! Eu não sossego enquanto não tiver um filho homem!
Por sorte, casara-se com uma mulher; d. Flávia, que era, acima de tudo, mãe. Sua gravidez transcorria docemente, sem enjôos, desejos, tranqüila, quase eufórica. Quanto ao parto propriamente, era outro fenômeno estranhíssimo. Punha os filhos no mundo sem um gemido, sem uma careta. O marido sofria mais.
Digo "sofria mais" porque o acometia, nessas ocasiões, uma dor de dente apocalíptica, de origem emocional. O caso dava o que pensar, pois Macário tinha na boca uma chapa dupla.
Quando nasceu a sétima filha, o marido arrancou de si um suspiro em profundidade; e anunciou:
— Minha mulher, agora nós vamos fazer a última tentativa!
NOVO PARTO
No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada às pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu:
"Não é pra já!".
Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário:
— Meus dentes estão doendo!
E, de fato, o grande termômetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura. A parteira duvidou, mas, daí a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora. É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha. Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão:
— Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!
Assim nasceu o Eusebiozinho, no parto mais indolor que se possa imaginar.
Uma prima solteirona veio perguntar, sôfrega:
"Levou algum ponto?".
Ralharam:
— Sossega o periquito!
O fato é que seu Macário atingira, em cheio, o seu ideal de pai. Nascido o filho e passada a dor da chapa dupla, o homem gemeu:
"Tenho um filho homem. Agora posso morrer!".
E, de fato, quarenta e oito horas depois, estava almoçando, quando desaba com a cabeça no prato. Um derrame fulminante antes da sobremesa. Para d. Flávia foi um desgosto pavoroso. Chorou, bateu com a cabeça nas paredes, teve que ser subjugada. E, na realidade, só sossegava na hora de dar o peito. Então, assoava-se e dizia à pessoa mais próxima:
— Traz o Eusebiozinho que é hora de mamar!

FLOR DE RAPAZ
Eusebiozinho criou-se agarrado às saias da mãe, das irmãs, das tias, das vizinhas. Desde criança, só gostava de companhias femininas. Qualquer homem infundia-lhe terror. De resto, a mãe e as irmãs o segregavam dos outros meninos. Recomendavam:
"Brinca só com meninas, ouviu? Menino diz nomes feios!".
O fato é que, num lar que era uma bastilha de mulheres, ele atingiu os dezesseis anos sem ter jamais proferido um nome feio, ou tentado um cigarro. Não se podia desejar maior doçura de modos, idéias, sentimentos. Era adorado em casa, inclusive pelas criadas. As irmãs não se casavam, porque deveres matrimoniais viriam afastá-las do rapaz. E tudo continuaria assim, no melhor dos mundos se, de repente, não acontecesse um imprevisto. Um tio do rapaz vem visitar a família e pergunta:
— Você tem namorada?
— Não.
— Nem teve?
— Nem tive.
Foi o bastante. O velho quase pôs a casa abaixo. Assombrou aquelas mulheres transidas com os vaticínios mais funestos:
"Vocês estão querendo ver a caveira do rapaz?".
Virou-se para d. Flávia:
— Isso é um crime, ouviu?, é um crime o que vocês estão fazendo com esse rapaz! Vem cá, Eusébio, vem cá!
Implacável, submeteu o sobrinho a uma exibição. Apontava:
— Isso é jeito de homem, é? Esse rapaz tem que casar, rápido!

PROBLEMA MATRIMONIAL

Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam:
"É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!".
Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou:
— Está muito bem assim!
A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce. Mas a mãe chorou, replicou:
"Não, meu filho. Seu tio tem razão. Você precisa casar, sim".
Atônito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, ele pergunta:
— Casar pra quê? Por quê? E vocês?
Interpela as irmãs:
— Por que vocês não se casaram?
A resposta foi vaga, insatisfatória:
— Mulher é outra coisa. Diferente.

A NAMORADA

Houve, então, uma conspiração quase internacional de mulheres. Mãe, irmãs, tias, vizinhas desandaram a procurar uma namorada para o Eusebiozinho. Entre várias pequenas possíveis, acabaram descobrindo uma. E o patético é que o principal interessado não foi ouvido, nem cheirado. Um belo dia, é apresentado a Iracema. Uma menina de dezessete anos, mas que tinha umas cadeiras de mulher casada. Cheia de corpo, um olhar rutilante, lábios grossos, ela produziu, inicialmente, uma sensação de terror no rapaz. Tinha uns modos desenvoltos que o esmagavam.E começou o idílio mais estranho de que há memória. Numa sala ampla da Tijuca, os dois namoravam. Mas jamais os dois ficaram sozinhos. De dez a quinze mulheres formavam a seleta e ávida assistência do romance. Eusebiozinho, estatelado numa inibição mortal e materialmente incapaz de segurar na mão de Iracema. Esta, por sua vez, era outra constrangida. Quem deu remédio à situação, ainda uma vez, foi o inconveniente e destemperado tio. Viu o pessoal feminino controlando o namoro. Explodiu:
"Vocês acham que alguém pode namorar com uma assistência de Fla-Flu? Vamos deixar os dois sozinhos, ora bolas!".
Ocorreu, então, o seguinte:
sozinha com o namorado, Iracema atirou-lhe um beijo no pescoço.
O desgraçado crispou-se, eletrizado:
— Não faz assim que eu sinto cócegas!

O VESTIDO DE NOIVA

Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espetacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho:
"Não é bacana esse modelo?".
A reação do rapaz foi surpreendente.Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura:
— Que beleza, meu Deus! Que maravilha!
Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho. Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento:
"Mas como é bonito! Como é lindo!".
E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimônia, brincou:
— Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!

0 LADRÃO
Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava:
"A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!".
Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme:
"Desapareceu o vestido da noiva!".
Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema:
"O golpe é casar sem vestido de noiva!".
Para quê? Ela se insultou:— Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim!Chamaram até a polícia. O mistério era a verdade, alucinante:
Quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda — enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete:
"Quero ser enterrado assim".


Nelson Rodrigues

17.11.06


























Vou Voltar

Você quer
Me ver pelas costas
Fazendo apostas
Que não vou voltar

E afirma
em alto e bom tom
No meio do bar
Expulsei-o do lar

Concluiu:
Essa vida é dura
Troquei a fechadura
Eu só quero é paz.
Eu cansei
de viver este drama
Procura-lo na cama
E ele não estar mais...

Reconheço
essa sua tristeza
Voltarei com certeza
Em um dia qualquer

Vou chutar
esta porta trancada
E dizer na entrada
Vim te fazer mulher!

13.11.06

Azar... Eu gosto da banda GRAM.
Pode ser meio emo, meio brega, mas o fato é que a música é boa.
Depois do hit Você Pode Ir Na Janela, o novo sucesso chama-se Antes do Fim- e pode ser conferida AQUI, no link play.


Antes Do Fim- Gram

Quanto medo de não ter
a herança de um rei

Quanto pranto em razão
de um prestigio que não vem
pra ser nome de uma rua
ou ter a cara em bronze numa praça
antes do fim

Quando a vida fez sinal
estava olhando para os pés

Quanto tempo de atenção
aos que falam sem saber
nunca foi melhor amigo
nem se emocionou nas despedidas

Mesmo no fim
preso em solidão
longe do fim

E então um dia parou
mas não soube onde ir

Veja o beijo que ganhou
da mais bela do lugar
quanta sorte vive bem
mas seu jogo nunca deu

Tal modelo forma chuva
em seus dias de verão

Perto do fim
preso em solidão
longe do fim

Não foi capaz de sentir a dor de um não
Quanto medo de não ter
a herança de um rei

Quanto tempo de atenção
aos que falam sem saber

4.11.06






















Talvez, você deva ter ouvido esse post no programa Cafézinho, da rádio 107.1-Pop Rock.
Mas como ele era muito extenso, acabou sendo bastante cortado.
Segue aqui, a versão integral do texto:



Venho percebendo um fenômeno interessante...

Ultimamente, quase não vejo mais adesivos de carro com aquelas frases engraçadinhas que servem para entreter, educar ou ofender o motorista de trás no trânsito caótico.
Mas os adesivos não servem só para isso.
Eles revelam também muito da personalidade do proprietário do veículo.
Pois decidi preservar esta cultura em declínio, postando aqui no blog, os melhores adesivos de carro por mim já vistos.
É claro, que o primeiro a figurar na lista tinha que ser :

A inveja é uma merda -geralmente colado no vidro de uma Brasilia caindo aos pedaços...

E lá vai o resto:



Só se é jovem uma vez... Mas você pode ser imaturo para sempre.

Cerveja é a resposta. Eu só não lembro a pergunta.

Trabalho duro nunca matou ninguém. Mas afinal, porque arriscar?

Vencer não é tudo. Perder é que é uma droga.

Ninguém diz `` é só um jogo´´ quando o seu time está ganhando.

Se você quer café na cama, durma na cozinha.

Tanto para fazer, e tão poucas pessoas para fazer por mim.

Minha esposa diz que eu não ouço ela. Ao menos acho que foi isso que ela disse...

Esta sendo um dia tão bom. Por favor, não foda com ele.

O silêncio vale ouro. E a fita tape vale prata.

Rir é o melhor remédio. E a sua cara anda curando o mundo.

10 Razões para se Procrastinar... 1-

Se não esta gostando do jeito que eu dirijo, caí fora da calçada!

Todos trabalhos são um saco ou é só o meu?

Nunca confie num cozinheiro magro.

665- O Vizinho da Besta.

Estranhos tem os melhores doces.

Jesus te ama. Mas eu acho que você é um idiota.

5 em cada 4 pessoas tem problemas com frações .

Não estou perdendo cabelo. Estou ganhando testa.

Homens envelhecem como o vinho. Mulheres como o leite.

Quando a vida lhe oferecer limões, pegue cachaça, açucar e faça uma caipira

Meu bartender vence o seu terapeuta.

Eu posso estar devagar. Mas estou na sua frente.

Você é uma hemorróida? Então saia da minha bunda!

Se voçê não é capaz de operar um sinal, o que te faz pensar que pode guiar um carro?

Este carro é um simbolo de status. Simboliza que eu sou pobre.

Eu só dirijo dessa maneira pra te encher o saco.

Cretinice não é deficiencia física. Estacione em outro lugar.

Pare de buzinar! Vai acordar o cara no meu porta-malas.

Deus me deu serenidade para ignorar este trafego maldito.

Perdeu seu gato? Procure embaixo dos meus pneus.

É você que está me seguindo ou eu que sou paranóico?

É Deus no céu e nóis no corcel.

Nóis capota mais num breca.

Com licensa. Existe uma explicação médica para o jeito que você dirige?

Só buzine se você for Elvis.

Perguntas retóricas te irritam?

As mulheres me querem, os peixes me temem.

Eu atropelo duendes.

Pratique sexo seguro: Foda-se!

Não acredite em tudo que pensa.

Eu vivo no meu mundinho. Mas tudo bem... Todos me conhecem por aqui.

As vozes na minha cabeça não gostam de você.

Veículo monitorado por Chuck Norris.

Claro que estou fora do meu juizo. La é tão escuro e amedrontador...

Não importa para onde você vá. VOCÊ ainda estará lá.

Nunca subestime o poder da minha mente doentia.

De todas coisas que perdi, o que mais sinto falta é do juizo.

Se nós realmente aprendessemos com os erros, eu já seria um gênio.

Só porque ninguém te entende não significa que você é um artista.

Eu amo meu país! O que temo é o governo...

Não me faça violar a condicional.

Eu gosto de poesia, longas caminhadas na praia e de cutucar coisas mortas com um galho.

Próximo ataque de fúria irracional será em: 2 minutos.

Eu posso escutar as suas bobagens por metade do que o seu terapeuta cobra.

Não sou eu que sou malvado. Você que é um maricas.

Sexo não é a resposta. Sexo é a pergunta. Sim é a resposta.

Doador de orgasmos multiplos.

Se o seu corpo é um templo, o meu é um parque de diversôes.

Deus criou o sexo. Eu apenas o aperfeiçoei.

Odeio esta cidade.

3.11.06






















Destinos em Pequenos Desatinos

Eis que a paternidade reserva ao homem uma boa dose de preocupações, exasperações e tormentos. Do palavrão proferido em frente às visitas, à ingestão dos mais diversos e nocivos objetos possíveis de se passar pela boca...
Entre tantos outros motivos para abalar o tranqüilo sono de Ferreirinha, torcedor fanático do Esporte Clube Novo Hamburgo, estava à escolha futebolística que seu pequeno fruto em breve faria.
Ferreirinha conhecia histórias de vários outros amigos, que tiveram decepções terríveis com seus filhos. Um deles, inclusive, entrou em profunda depressão, tentou o suicídio, e isolou-se num retiro espiritual de Três Coroas, quando flagrou seu garoto, ostentando garboso, a camiseta de um time Búlgaro de badminton.
Mas para Ferreirinha, nada seria pior do que o menino optar por torcer, pelo arqui-rival do Novo Hamburgo; o Esporte Clube 15 de Novembro...
Alemão Jonas, um sujeito adiposo, bem humorado, dono do empório da cidade, era amigo de Ferreirinha e apesar do contra-senso, torcedor do 15 de Novembro. Os dois viviam se provocando naquela sadia, e porque não, sádica prática de torcedor adversário se empulhar.
O alemão bradava divertido com seu sotaque carregado da colônia:

- Ferreirrinha, o teu filha vai serrrrr 15!
- Deus me livre!
- Vai serrr! Escrrreve o que eu tô dizenda, vai serrrr. Ya, ya!

Certo dia, pensando numa maneira de azucrinar com a paz do amigo, o alemão Jonas propôs:

- Ferreirrinha, porque tu não párra de influenciarr essa currri, e dexa ela escolherr?
- Como assim alemão? Mas tu é bem burro mesmo... A criança só tem um ano. O vocabulário dele se resume apenas em: papai, mamãe, xixi e cocô. Não tem discernimento algum...
- E tesde cuando um torcedorrr ferrenho possui discernimento Ferreirrinha?

Pois contra a lógica, não há argumentos.
Ficou, portanto, acordado em contrato firmado no cartório da cidade, que o garoto assim que começasse a engatinhar, seria posicionado em frente a duas camisetas distintas fornecidas pelo empório do alemão Jonas.
Se o menino escolhesse a camiseta do 15 de Novembro, Ferreirinha teria de passar a humilhação suprema de comprá-la, e jamais, JAMAIS tentar influenciar o garoto a demover sua escolha. Se ele engatinhasse para a camiseta do Novo Hamburgo, o alemão teria que dá-la de graça, além de apadrinhar o garoto na escolhinha de futebol.
Finalmente chega o dia da aposta. Ferreirinha desponta na esquina, com o garoto debaixo do braço suando frio e tentando parecer calmo. Coloca o bebê de gatinhas em cima do balcão enquanto o alemão vai buscar as duas camisetas.
Quando ele volta, Ferreirinha se da conta do embuste pretendido pelo alemão Jonas. A camiseta do 15 era oficial. Amarelinha, lustrosa e radiante, um verdadeiro chamariz aos olhos da criança. A outra camiseta, era totalmente branca, com exceção de um pequeno brasão azul do time do Novo Hamburgo costurado no lado esquerdo. Ferreirinha protestou:

- Ma alemão filadaputa! Que palhaçada é essa?

E o alemão se fingindo inocente:

- Ué, é a camiseta do teu time.
- Essa não é a camiseta do meu time. É uma camiseta branca com um brasão muito do mixuruco!
- É que eu não terrr a camisa do Novo Hamburrrgo. Aqui achente só compra material de primeira linha.

E assim foi... Um bate boca que se estendeu por duas horas consecutivas. Quando a criança não agüentava mais, finalmente, os dois concordaram em tentar a aposta assim mesmo.
A três passos do garoto, foram colocadas as duas camisetas estendidas com o cuidado de não ter ninguém atrás para influenciar. Soltaram o garoto que já saiu engatinhando... Surpreendentemente foi direto para a camiseta do Novo Hamburgo.

- SHEIZ!- Praguejou o alemão.

Ferreirinha mal podia acreditar. Pegou o garoto no colo triunfante pela vitória, gritava aos pulos:

- É Novo Hamburgo, é Novo Hamburgo olê, olê, olêêêê!

Nem o Alemão conseguiu ficar brabo com aquela divertida derrota. Sorriu inebriado pela alegria do amigo, e protestou:

- Não faleu, non faleu. Fosse treinou o carota... Non faleu!

O menino saiu do empório carregado no colo, vestindo a insossa e insípida camiseta branca e o majestoso orgulho paterno. Não conseguia compreender toda aquela agitação mas carregava consigo, a mística verdade de uma predestinação clubística. Ele agora fazia parte de uma torcida de futebol...
Daquelas que buscam esperanças no âmago da insensatez, forças nas adversidades atrozes, e adoração exageradamente incondicional. De hoje em diante, para aquele pequeno torcedor a glória jamais será efêmera. Estará sempre ali presente na bicanca do time; cujo maior objetivo não é o gol como se pretende, e sim, o gol como se imagina.

1.11.06

Letra de Música

Pode ser conferida no site da Trama Virtual, faça o cadastro e na busca digite Nômades. Recomendo...

Gente Que Mente- Nômades

Voa o meu pensamento
Não sei onde ele vai
A percepção está atrasada
Com imagens chuviscadas

Gente que mente
Manipulados contentes

Finos que tentam chapar
Mulheres correndo do frio
Mas ao mesmo tempo que agonizo
Ainda sinto prazer
Sinto falta de sexo
Deixo tudo acontecer

Eternamente bom
Tão bom que não gostou

Guerras cheirando a festim
Armas matando dinheiro
Quando abro a porta
Olho a rua, mas não vejo a luz
A ansiedade me mata
Mas o temporal me seduz

Dois feriados a mais
Vindos de qualquer maneira
Mas com tanta falta de dinheiro
Eu até fico dormente

Gente que mente
Manipulados contentes.