24.9.06






















Fracasso


Relembro sem saudade o nosso amor
O nosso último beijo e último abraço
Porque só me ficou da história desse amor
A história dolorosa de um fracasso
Fracasso, por te querer assim como quis
Fracasso, por não saber fazer-te feliz
Fracasso, por te amar como a nenhuma outra amei
Chorar o que já chorei, fracasso eu sei
Fracasso, por compreender que devo esquecer
Fracasso, porque já sei que não esquecerei
Fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal
Por querer tanto bem e me fazer tanto mal

Mário Lago

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Atire a primeira pedra

Covarde sei que me podem chamar
Porque não calo no peito essa dor
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor
Eu sei que vão censurar meu proceder
Eu sei, mulher
Que você mesma vai dizer
Que eu voltei pra me humilhar
É, mas não faz mal
Você pode até sorrir
Perdão foi feito pra gente pedir

Ataulfo Alves e Mário Lago

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Devolve

Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi
Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci
Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci
Devolve, que eu te devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti

Mário Lago

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Ai, que saudades da Amélia


Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz
Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
Quando me via contrariado
Dizia: "Meu filho, o que se há de fazer!"
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Ataulfo Alves e Mário Lago

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Enquanto houver saudade

Não posso acreditar
Que algumas vezes
Não lembres com vontade de chorar
Daqueles deliciosos quatro meses
Vividos sem sentir e sem pensar

Não posso acreditar
Que hoje não sintas
Saudade dessa história singular
Escrita com as mais suaves tintas
Que existem pra escrever o verbo amar

Enquanto houver saudade
Pensarás em mim
Pois a felicidade
Não se esquece assim
O amor passa mas deixa
Sempre a recordação
De um beijo ou de uma queixa
No coração

Custódio Mesquita e Mário Lago

14.9.06






















Perdição


Roxane, you don´t have to wear that dress tonight. Walk the streets for money. You don´t care if it´s wrong or if it´s right- Police


Nada naquela mulher me inspirava confiança...
Quando a conheci, ela trabalhava fazendo serviços bancários para uma fábrica de peças automotivas. Aproveitava sua singular protuberância abdominal, fruto de noitadas regadas à cerveja e barbitúricos, para se fazer passar por grávida e ludibriar as imensas filas do banco. Depois, desperdiçava o resto da tarde, jogando sinuca ou pinball por dinheiro, num boteco pouco movimentado da Praça 12 de Outubro.
Foi lá, que eu inconsequentemente a desafiei para uma partida de sinuca.

Enquanto me prostrava apoiado no taco, observava Jovânia, deitando seus imensos peitos no feltro verde da mesa. Numa só tacada, ela espalhava o jogo produzindo uma barulheira dos diabos. Colocava uma bola na caçapa, e outra já prontinha na boca. Às 17h20min pontualmente, tomava um martelinho, encerrava qualquer aposta pendente, e ia embora terminar o expediente.

Senti que começava a me afeiçoar por Jovânia, mesmo tendo plena consciência que estava me metendo em mais uma encrenca.
Transávamos no banheiro masculino, escorregando no mijo acre, tentando não fazer barulhos exaltados que atraíssem os curiosos. Depois, dividíamos uma porção de fritas e algumas experiências existenciais.

Jovânia me contava sobre seus inúmeros empregos enfadonhos e mal remunerados; sobre suas aventuras em viagens sem destino ou sobre seus vários amantes brutos e ciumentos. Eu, que já vi, ouvi, e passei por tanta barbaridade, comecei a me espantar com a naturalidade com que aquela mulher desfiava seu rosário de bizarras vivências.

Aos nove anos, Jovânia morava com a mãe. Um dia, a velha morreu sentada na sala. Estava assistindo a novela das oito e parece que inexplicavelmente entrou em combustão espontânea. Pelo menos conseguiram salvar a televisão...
Depois, Jovânia morou com o pai por um tempo, e fugiu de casa aos 14 anos pegando carona numa estrada rumo ao sudeste. Sonhava em se tornar apresentadora de programa infantil. Ironicamente, realizou seu desejo fazendo programa para pedófilos nojentos. Cresceu acreditando que a sociedade é um mundo hostil, e que para sobreviver, ela teria que abrir mão de qualquer reserva de escrúpulo.

Freqüentou cabarés de quinta categoria, instigando os freqüentadores a sempre lhe pagar uma dose extra. Secava uma garrafa de Martini Bianco, antes de conseguir chupar qualquer caralho murcho e mal lavado que lhe botassem na frente da cara.

Não demorou muito para pegar barriga e amargar uma temporada sem “clientes”. Decidiu não abortar... Teve o menino, a quem chamou pelo estranho nome de Poeta, e deu ele pra uma amiga criar em troca de um Chevette marrom com frente de tubarão. Visitava a criança esporadicamente apresentando-se como sua madrinha, até perder contato com o garoto quando ele tinha três anos de idade. Ela concluiu o assunto me dizendo que ele era a coisa mais importante da vida dela.

Jovânia me listou uma dezena de cidades e cabarés por onde passou, até que finalmente conheceu um caminhoneiro chamado Flávio Sérgio. Ele agradou-se da companhia daquela espirituosa prostituta, e sugeriu que ela viesse morar com ele numa cidadezinha do interior mato-grossense. Lá, ninguém saberia do passado de Jovânia e ela poderia viver cuidando da casa. Com sorte, arranjaria um emprego, teria filhos, cultivaria um jardim e morreria absolvida dos pecados pregressos. Relutante por desconfiar desta oportunidade que a vida lhe oferecia, Jovânia aceitou o convite e embarcou na boléia do caminhão.

Casou, e foi morar na casa de Flávio Sérgio, vizinha a da mãe do caminhoneiro. Quando o marido saía para trabalhar, Jovânia ia para a casa da sogra, jogar canastra e beber licor. Infelizmente seu espírito arredio não conseguiu aquietar-se. Embriagada de licor e alegria, certo dia, não pode se conter, e beijou a sogra na boca. Despiram-se e transaram sobre as cartas esquecidas na mesa. No outro dia pela manhã, Jovânia foi expulsa de casa a vassouradas pela mulher que enlouquecida de remorso gritava:

- Vagabunda! Você anda traindo meu filho, sua cadela!

Pegou carona pro sul, num caminhão tão negro como a promessa de seu futuro. Estava decidida em aposentar-se da putaria. Passou então, a cambiar de emprego, cada um, não durando mais de dois meses. Foi nesse período que a conheci.

O que mais me fascinava, é a mecanicidade com que Jovânia me contava tudo aquilo. Não havia nenhuma lágrima, riso ou um pedido superlativo de pena. Eram apenas fatos.
Fatos vomitados com a tranqüilidade de quem bebeu muito da vida; e que agora precisava eliminar o excedente.

Eu sabia que o passo a seguir era perigoso... Tão perigoso quanto beijar uma cobra venenosa. Tomei suas mãos nas minhas, e convidei-a vir morar comigo. Jovânia me respondeu que adoraria, com um sorriso meio cínico, meio agradecido.
Dividir miséria para se somar tristeza e desgosto... Talvez, essa seja a coisa que pobre saiba fazer melhor na vida.

Naquela mesma noite, Jovânia me apareceu em casa, carregando uma única mala. Tinha ali dentro tudo que ela havia conquistado de material até então. Largou tudo no chão e me abraçou dizendo:

- Prometo não te decepcionar.

Tive um calafrio e fechei a porta.

7.9.06





















Dois bombons e uma Rosa

Faço votos de feliz casamento
parabéns pra você
prevaleceu seu bom-senso.

Reconheço que era chato
ser a outra eternamente
com encontros marcados
por coisas do tipo ``eu subo na frente``.

Finalmente teu garoto
vai ter um pai de primeira,
você mais segurança
e um pinguim na geladeira.

Na cabeceira um relógio,
a hora mais luminosa,
churrascaria aos domingos:
dois bombons e uma rosa.

Apenas quero fazer
a necessária ressalva:
jamais comente o passado,
lembre o conselho de Dalva.

Não há xampu, não há creme
que apague ou que desmarque
da tua pele o meu beijo
fedendo a conhaque.



Aldir Blanc