15.7.06

Mário de Sá Carneiro- Até o fundo do poço

























Mário de Sá Carneiro - poeta lusitano, contemporâneo de Fernando Pessoa.

Tachar, o escritor de atormentado, é fácil, já que ele suicidou-se na solidão de um quarto de hotel em 1916 com apenas 26 anos.
O difícil mesmo é ler sua poesia, sem levemente compreender esta angustia que se lhe assolava em axiomas refulgidos a dor de viver com a compreensão do, epa..... Melhor parar por aqui.

Em seus textos, podemos notar com certo constrangimento, a insistência de falar sobre si, a insistência de demonstrar seu constante aborrecimento e de tentar expressar o que sente para um mundo que não o compreende.
Esta última, sempre foi uma tarefa ingrata. A maioria acaba por desistir, como de fato aconteceu.
Hoje lemos seus poemas com os olhos de quem lê um bilhete de despedida:



A l é m - T é d i o

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E sé me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá Carneiro
Paris, 15-5-1913


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C o m o e u n ã o p o s s u o
Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção p'ra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. P'ra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Mário de Sá Carneiro
Paris, Maio de 1913


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Á l c o o l

GUILHOTINAS, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo -
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo p'ra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eterizo?

Nem ópio nem morfína. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá Carneiro
Paris, 4-5-1913


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C i n c o H o r a s
Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais).

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros.,
- Pois há um ano que fumo -
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente...)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...).

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
- Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
P'ra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

- Cafés da minha preguiça,
Sois hoje - que galardão! -
Todo o meu campo de acção
E toda a minha cobiça.

Mário de Sá Carneiro
Paris, Setembro de 1915


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C r i s e L a m e n t á v e l

Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou - mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente
Não ter juízo nos meus livros - mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente.

Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas -
À minha Torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força um dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai.
- Não mandar telegramas ao meu Pai,
- Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair - não precisar
De hora e meia antes de vir prà rua.
- Pôr termo a isto de viver na lua,
- Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento -
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento

Que tudo em é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

Mário de Sá Carneiro
Paris, Janeiro de 1916


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F i m

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!

Mário de Sá Carneiro
Paris, 1916

6.7.06

Nada mais, que uma crônica inédita
Decidi-me por escrever uma crônica a respeito de um assunto inédito. Tinha que ser algo quê com toda certeza, ninguém jamais se preocupou mais do que 5 minutos. Também não haveria de ser algo tão espetacular que tenha passado despercebido até hoje. Pois a escolha para mim foi óbvia... Decidi escrever sobre o umbigo.
O umbigo certamente, é a parte mais esquisita do corpo humano. Ta lá ele. É aquele buraco, que também não é bem um buraco, encravado na barriga de cada um de nós. Enche de água, enche de sujeira, não possui utilidade alguma, mas também não incomoda. E talvez por isso ninguém até hoje tenha tido a idéia de fechá-lo. De tão simpático e sem propósito, as pessoas nem mesmo se preocupam em chamá-lo corretamente.
O umbigo é vulgarmente denominado embigo, ou simplesmente bigo. Notem que até seu nome parece piada... Agora, se você enfiar o dedo no umbigo e fizer movimentos concêntricos, vai sentir uma coceirinha gostosa... Algo como acariciar a própria buchada. Mas ao contrário do que todos pensam, ele possui sim uma utilidade.
O umbigo serve como catalisador de algodão. Se tivéssemos um outro lugar no corpo, para guardar água oxigenada e esparadrapo, seriamos um kit ambulante de primeiros socorros! O chumaço de algodão retirado do umbigo é cientificamente denominado: flunfa. Na flunfa reside um dos maiores mistérios a ser solucionado pela ciência. Se nós usamos camisas vermelhas, brancas e amarelas, porque a flunfa é sempre azul? Pois se nós não damos ao umbigo o seu devido valor, as novas gerações parecem nos redimir. O adornam com pequenas jóias chamadas piercings. Se infecciona, o local pode ser limpo com o quê? Isso mesmo. Com a flunfa! Notem como o umbigo é auto-suficiente.
O umbigo também é tido como símbolo de mesquinhez e soberba. São denominadas umbigocentristas as pessoas que crêem que a Terra gira em torno de seus umbigos. Estas pessoas praticam o anti-convívio social. Furam fila, falam no celular dentro do cinema, jogam lixo no chão e libertam suas flatulencias no elevador lotado. Tudo questão de falta de educação, o umbigo não tem nada a ver com isso...
O pobre e injustiçado umbigo, não possui o reconhecimento que merece. Afinal, é através deste canal que todos mamíferos se alimentam dos nutrientes necessários para sua subsistência dentro do útero materno. Após o parto, o cordão umbilical é seccionado, e requer um cuidado todo especial. O local passa a ser limpo com periodicidade e asseio, até que o restante do cordão, apodreça e caia, causando ojeriza nos estômagos mais delicados.
E para sempre, ficará em nosso corpo está chaga. Como a lembrança da fragilidade, quando outrora nossa vida esteve literalmente por um fio.