29.4.06



















Tô Só

Crônica de Hilda Hilst para o "Correio Popular" de Campinas-SP

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando?
Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô?
Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando?
Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê?
E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes?
E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás?
E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu?
E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta?
Vamo brincá

de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar?

Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel?
Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho?
E de poesia de amor?

nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.

Vamo brincá de autista?
Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista?
Bom-dia, leitor.
Tô brincando de ilha.
(Segunda-feira, 16 de agosto de 1993)
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"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."

Hilda Hilst

21.4.06


Rádio Madruga


- ZYB 87.9, Rádio Apucarana FM. Meia-noite e trinta e dois desta terça feira 25 de novembro. Fiquem agora, na boa companhia de Neil Diamond; Girl You´ll be a Woman Soon. Logo depois desta linda canção, voltaremos ao vivo com o seu pedido.

Pronto! Agora tenho 2 minutos e cinqüenta e dois segundos de sossego... Vou até a cozinha encher de café uma caneca azul poeirenta. Ao que tudo indica, o café deve estar horrivelmente requentado e amargo... Acertei! Agora ele vai percorrer toda extensão de minha laringe até finalmente repousar no estômago causando-me extrema azia.

É... Estou atravessando uma daquelas fases difíceis da vida. Precisaria de certo tempo e silêncio para pensar. Mas agora, só o que me restam são 2 minutos e três segundos, antes de atender algum retardado qualquer que ainda esteja acordado nesta hora da madrugada. E o pior de tudo, com vontade de ligar para alguém.

Sei que o meu problema é bastante comum. Já vi acontecer com um monte de amigos, vizinhos, parentes... Já vi acontecer em novelas, já li sobre o assunto em livros, mas jamais pensei que fosse assim. Jamais pensei que uma separação doesse tanto. Um longo período vivendo ao lado de uma pessoa, aturando suas implicâncias, suas manias, e seus defeitos. Tudo em pról de um relacionamento. Você vive coma a certeza que pode viver perfeitamente bem, longe disso tudo. Então um dia você leva um pé na bunda e descobre quão dependente esta. Se ao menos eu pudesse acender um cigarro...

Começou aqui na rádio um modismo do politicamente correto que devo dizer, esta me enchendo a paciência. Não se pode mais fumar no estúdio. Quem quiser fumar deve se dirigir até a recepção e ficar confinado por lá. Eu poderia muito bem fumar meu cigarro por aqui mesmo já que o operador está dormindo no sofá. Mas correria o risco do locutor da manhã sentir o ranço de nicotina e reclamar. Eu acabaria esmurrando o idiota e seria demitido. Em apenas uma semana, faria a proeza de ficar sem a cretina da minha mulher e sem o inútil do meu emprego.

Meu programa vai ao ar das onze da noite até as cinco da manhã. Chama-se Rádio Madruga. A cada hora o ouvinte faz um pedido, e enquanto eu o entretenho no ar falando alguma bobagem, o operador procura pela música. Bem, já esta na hora. Bato no vidro para acordá-lo: Soon... Come take my hand.

- Muito bem, estamos de volta. E chegou a hora da sua participação.

Libero a linha. Para mim esse é o pior momento. Nunca sei se vou ouvir um palavrão, uma cantada, ou um papo de bêbado. Às vezes eu prefiro os palavrões...

- Alô. Quem fala?

- Alô?
A voz é de mulher.

- Aqui é a hããnnn.... Odete.

- Hããnnn Odete? Mas que nome diferente... Qual música que você quer ouvir nesta madrugada?

- Romaria.
Termina de falar e emenda um choro sofrido...

- Odete? O quê que ouve Odete?

- É que eu vou me matar escutando Romaria...

Fico alguns instantes sem ação, depois pergunto com falsa naturalidade, como se escutasse esta mesma frase todo dia:
- Ei Odete... Porque você quer fazer uma coisa dessas?

- Eu não quero. Eu vou. E não vai ser você, fingindo que se importa, que irá me impedir.

- Eu não estou fingindo. Eu me importo com você Odete.

- Você se importa tanto que nem sabe meu nome. Eu não me chamo Odete.

- E qual é seu nome?

- Eu não vou dizer.

- Tudo bem... Amanhã eu leio no obituário. Agora você vai me dizer por que se matar?

- É que eu estou sozinha.

- E...

- E é isso. Não suporto mais essa solidão.

- E desde quando isso é problema? Eu mesmo, queria muito ter um pouco de solidão. Queria poder ficar olhando pra parede durante horas sem ser interrompido...

- Eu não desejo isso pra ninguém.

- Deseje pra mim. Olha Odete...

- Já falei, eu não me chamo Odete.

- Que seja! Vai pro inferno! Você não quer me escutar, mas mesmo assim quer que eu resolva sua vida. Pois muito bem, eu sou o conselheiro ideal... Porque diabos você tem que ligar justo pra mim e dividir essa informação? Por acaso você acha que vai me dizer que pretende se matar e eu então irei lhe desejar boa noite? Você quer saber o que eu fiz domingo?

- Não.

- Pois eu deixei minha mulher. Depois de sete anos de casado com trinta e quatro anos de idade eu voltei a morar com meus pais.

- Você tem filhos?

- Tenho. Um menino de quatro anos.

- Qual o nome dele?

- Isso também não te interessa... Escuta aqui, você não ia se matar? Porque não toma um litro de água sanitária e me deixa em paz?

- Ei seu grosso! Você que começou com esse papo de querer salvar minha alma.

- Pois então, sinta-se a vontade. Vá em frente. Quer saber? Você estava certa, eu realmente não me importo.

Silêncio.

- Tá, mas e a Romaria?

- PORRA mas que mulher chata! Não é a toa que vive sozinha...

- E também não é a toa que sua mulher te deixou. Seu fracassado!

- Fracasso é querer se matar!

- Olha eu não vou mais me matar. Eu vou é te matar seu idiota!

- Pode vir... A rádio madruga vai ao ar até as cinco. Estarei te esperando ouvindo Romaria. INITERRUPTAMENTE que tal?

- ÓTIMO!

Ela desliga o telefone. Acho que consegui... Finalmente escutarei apenas silêncio.

13.4.06























Tango do Meretrício

Rasguei a certidão de casamento
Finquei o braço na mulherFoi um gritedo...
Vesti uma fatiota elegante
Despachei duas amantes
e me mandei pro chinaredo

Não há lugar melhor que o meretrício
No vício é que eu encontro meu papel
Me enfrasco e canto um tango pras gurias
Que eu sou filho de uma tia da empregada do Gardel

Desde guri eu nunca fui um bom sujeito
Pois a falta de respeito sempre foi minha vocação
Me lendo a mão uma cigana disse tudo
Ou capam esse cuiúdo ou emprenha toda nação
Me lendo a mão uma cigana disse tudo
Ou capam esse cuiúdo ou emprenha toda nação

Dizem que bom eu só vou ser depois de morto
Porque pau que nasce torto não dá mais prá endireitar
Eu sou teimoso e por não concordar com isso
Me mandei pro meretrício e fico até desentortar
Amanhã minha mulher que é uma cruzeira
Vai reunir a família inteira prá tentar me redimir
Mas eu garanto que enquanto tiver dinheiro
Nem que chamem os bombeiros não me tiram mais daqui
Mas eu garanto que enquanto tiver dinheiro
Nem que chamem os bombeiros não me tiram mais daqui!

Luiz Bastos & Mauro Ferreira

2.4.06
























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Pois a brincadeira fez tanto sucesso, que acabou sendo veiculada no programa cafezinho da Pop Rock- 107.1 fm (www.poprock.com.br).
Agora com vocês, o texto na integra:

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Certamente vocês já devem ter feito algumas traduções com nomes de bandas estrangeiras, não? Certamente, vocês também devem ter se deparado com algumas esquisitices...

Pois aqui vão algumas traduções curiosas:


The Black Eyepies= Os Grão Negro dos Olho - parece um grupo de gaudério, daqueles grosso uma barbaridade... Mas não. O grupo é composto por meia dúzia de gringo e uma chinoca que fica se saracoteando adoidada.

The Who= Os Quem - Uma das grandes bandas dos anos 70, os The Who tinha um som inconfundível e também uma tremenda crise de identidade.

Velvet Underground= Subsolo de Veludo – Não se trata de uma banda formada por arquitetos com idéias de vanguarda, embora digam as más línguas, que Lou Reed andou freqüentando algumas aulinhas...

Beastie Boys = Garotos Bestiais - Ao invés de grupo de rap, este nome soa como gang de traquinagem juvenil.

Coldplay = Jogo Frio – Depois daquela partida pavorosa de Brasil 1 x Rússia 0, com -10 graus centígrados de temperatura, a figura de um Coldplay me parece bem nítida.

Kiss= Beijo - Uma das bandas de metal com maior atitude nos palcos, tem um nome bastante, digamos... Duvidoso. Se ao menos fosse Beije meu Punho ou O Beijo sem língua...

Smashing Pumpkins= Esmagando Abóboras – Não se trata de um processo colonial para extração do sumo da abóbora. Certamente este deveria ser o passatempo preferido de Billy Corgan na sua enfadonha infância.

System of a Down= Sistema de uma Descida – Aula de física? Projeto de Montanha Russa? Não! È a grande revelação do hard rock.

The Beatles= Os Besouros - Talvez esse nome seja influencia do cabelo da banda, que no início, se parecia com o casco do inseto.

Iron Maiden= Virgem de Ferro – Trata-se de uma tremenda redundância e também de uma incongruência já que a banda é formada apenas por marmanjos cabeludos.

Pearl Jam= Geléia de Pérolas – Diz Eddie Vader que o gosto não é dos melhores, mas o coco fica uma jóinha...

Rolling Stones= Pedras Rolantes – Grande previsão... Keith Richards e Mick Jagger estão durando mais do que qualquer formação rochosa.


Pois além das Bandas, existem cantores com nomes esquisitos:

Little Richard= Pequeno Ricardo ou Ricardinho – Um cara que carrega na maquiagem, e fica dando gritinhos estridentes certamente não poderia se chamar Ricardão.

Fifty Cent= Cinqüenta Centavos – Provavelmente este foi o valor do primeiro cachê ganho pelo hoje milionário rapper.

James Brown= James Marrom - James não é parente da Alcione. Convenhamos... Já pensou a Marrom dar um espacato, se levantar nos pés e sair rodopiando cantando ``Sou uma máquina de sexo``?