26.3.06

















O Homem Estátua

O Homem Estátua, muito embora não pareça, nasceu dotado de todos os movimentos articulatórios. Também não nasceu homem, mas sim um lindo bebê de olhos verdes, cabelos claros, que mais tarde com a idade, foram escurecendo até ficarem bem pretos, da cor do carvão.
Desde muito pequeno, já se podia notar em seu ímpeto inerte, as características que mais tarde fariam dele reconhecidamente, o Homem Estátua. As noites sempre transcorriam tranqüilas no berço do pequeno infante cujos pais preocupados, certificavam-se frequentemente a ver se respirava. Com dois anos de idade, ainda não caminhava, mas ficava firmemente em pé, sem perder o equilíbrio. Também falou tardiamente, em monossílabos definitivos que sempre vinham a transtornar os ouvintes.
Na escola, foi considerado autista pelos mestres. O Homem Estátua se excluía das brincadeiras e permanecia alheio a balburdia dos demais colegas. Muitas vezes se punha a olhar pela janela da sala de aula, um galho de arvore que balançava ao sabor do vento. Sentia-se ele próprio parte desta natureza sólida. Sentia-se imutável na transposição dos tempos...
Findou o ciclo estudantil conjeturando as muitas possibilidades que o destino lhe reservava. Incrivelmente nada lhe acalentava o espírito. Medicina, engenharia, jornalismo, tudo para ele parecia tão inócuo. Tudo para ele, parecia perda de esforço, ou apenas o ímpeto lascivo das vontades sobre-humanas de transpor a existência atuando apenas sobre o instante.
O instante indelével... Deprimido e melancólico, sentou-se num banco de praça e se pôs a observar. Diante da correria cotidiana das pessoas, a paisagem era o que se perpetuava. A peça teatral terminava, mas o cenário ficava montado. Estático. Só aguardando pelos novos intérpretes. Quando deu por si, notou que o dia havia terminado, e que ali, naquele banco, ele havia desperdiçado um tempo que não tinha. Um tempo que na verdade jamais foi seu, e que jamais lhe pertenceria. O tempo era como segurar um litro d´água com as mãos vazias.
Levantou-se, decidido. Se uma luta injusta é sempre uma luta digna, porque não lutar contra o tempo? Não era justamente o que a natureza vinha silenciosamente fazendo durante milênios? O tempo que tenta em vão fenecer toda e qualquer determinação de existir a duros golpes de uma insistência permanente. Prostrou-se rijo, observando o horizonte. Notou que assim podia ficar durante horas. As pessoas que por ele passavam olhavam curiosas. Como era possível, alguém permanecer sem mexer um só músculo ou esboçar uma só reação por tão longo período? Admiradas, depositavam moedas aos seus pés. As crianças queriam tirá-lo daquela sua surpreendente hibernação com acenos, gritos, ou outros pedidos de atenção.
Juntava-se uma multidão de telespectadores procurando enxergar sua sutil respiração, ou um imperceptível movimento de pálpebras. E cada vez mais, o homem estátua menos se mexia... Certo dia, depois de passados alguns anos, seus pais vieram à praça. Abraçados no meio do povo ficaram a observar o filho querido. Estavam velhos, tinham os corpos curvos, enrugados, e uma incompreensão inquietante no olhar. Quando se verteu uma fustiga lágrima do rosto da mãe, o Homem Estátua permaneceu inerte. Tão impenetrável e sólido como a concreção calcária. Percebeu então, que além de não mais se mover, ele agora era incapaz de se comover. E foi assim, que o homem passou a ser simplesmente, estátua.

19.3.06

Vocês conhecem o Mario?





















Este é o ano do centenário de nascimento do grande poeta Mário Quintana.
Portanto comecemos as nossas homenagens também:

DA OBSERVAÇÃO
Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...
Mario Quintana - Espelho Mágico

INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.

Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"
Mario Quintana - A Cor do Invisível

INSTRUMENTO

Impossível fazer
um poema neste momento.
Não, minha filha,
eu não sou a música
- sou o instrumento.

Sou,
talvez,
dessas máscaras ocas num arruinado monumento:
Empresto palavras loucas
à voz dispersa do vento...

Mário Quintana


SER E ESTAR

A nuvem, a asa, o vento,
a árvore, a pedra, o morto...
tudo o que está em movimento,
tudo o que está absorto...

Aparente é esse alento
de vela rumando um porto.
Como aparente é o jazimento
de quem na terra achou conforto...

Pois tudo o que está imerso
neste respirar do universo
- ora mais brando
- ora mais forte
porém sem causa definida.

E curto é o prazo da vida...
E curto é o prazo da morte.

Mário Quintana


OUTRA CANÇÃO

Não me deixem ir tão só,
Tão só transito de frio...
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio!
Como alguém que adormecendo
E umas vozes escutando,
nem soubesse que as ouvia
ou se as estava sonhando.
Eu quero um renque de vozes
Por toda margem do rio:
Vozes de amigo calor
Na lenta e escura descida
Como lanternas de cor
E aonde mais longe eu me for
(Quanto mais longe da vida!)
A borboleta perdida
Da tua voz, pobre amor...

Mário Quintana

O MORTO
Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco
Já eram horas de dormir de novo!
Mário Quintana

12.3.06






















Esculápio, Sortilégio, e outras palavras indevassáveis

Nem bem pregou os olhos
E já sentiu o martelo lhe escapar das mãos.
Quem diria que o zelo é o desmantelo da iniciativa?
E que é dessa loucura viva,
Que dela vives sem prerrogativa?

Ouça...
Somente ouça!
O tonitroar da louça que se espatifa na cozinha.
Tão sozinha...

Ela acorda assustada.
Se sente cansada.
Se sente casada.
Calada, acabada.
Pula da cama.
E corre na grama.
Coitada.
Nem parece mais uma dama...

5.3.06



















Segue um trecho da entrevista de Xicão Tofani veiculada na Revista Expansão nr. 75 mês de fevereiro.

Xicão é um cara que leva uma vidinha difícil. São vinte e quatro horas por dia, tentando inventar uma maneira de aparecer e sobreviver através do sucesso alheio.
Pois que seja feita vossa vontade, aqui esta ele...

Ele pode ser visto nas manhãs de sábado e domingo na Tv pampa- local Porto Alegre da Rede Record, com um programa que leva seu nome e entrevistando entre um arroto e outro de Coca Light o Jet Set Gaúcho.
Também durante a semana pode ser visto as 13:30 no programa futebolístico Virando a Mesa:

Leiam e tirem suas próprias conclusões:

___________

Revista Expansão: Tu poderias descrever como é um dia na tua vida?

Eu acordo na hora que todo homem de bom-senso deve acordar: eu me levanto às 11 horas. Porque se o cara acorda às sete, ele não vai se dar bem na vida. Eu vou direto pra piscina da minha casa e espero a chegada do personal trainer. Corro com ele na rua, me arrumo e vou pra televisão. Faço o programa de futebol (Virando a Mesa) e depois almoço em algum restaurante cinco estrelas da cidade. Vou ao Sheraton, Dado Bier, Barranco, Santo Antônio, algum restaurante desse nível.

Revista Expansão: Pelo jeito tu só almoças em restaurante sofisticado...

O cara tem que fazer a refeição em lugares de alto nível. Se tu for comer num buffet a quilo, tu tá roubado! Qual a chance de tu ter um espaço nesta vida competitiva se tu vais num lugar desses? Nenhuma! Depois do almoço, meu motorista me leva aos lugares que preciso. De noite, volto pra casa e espero a massagista pra dar uma relaxada. Depois disso vou pra balada. Todos os dias vou pra noite. Ou pra gravar o programa ou dançar e fazer festa.

Revista Expansão: O que tu consideras uma noite bem curtida: chegar mais cedo e sair pelas duas da manhã ou ficar até às cinco da manhã na balada?

A noite bagaceira é a que vai até às cinco da manhã. A noite legal vai até duas da manhã, porque depois quem fica é só mulher de programa, gigolô, cafetão, gente com mau hálito, suada e bêbada. A noite, depois das duas, não é fashion. Quem fica até essa hora (cinco da manhã), começa a noite sonhando com uma mulher nota nove e leva uma nota três; e pagando. Essa é a pior noite que tem.

Revista Expansão: Na tua avaliação, a mulher gaúcha é a mais bonita do Brasil?

É. A mulher gaúcha é a mais transada no Brasil, porque é a mulher mais alta. É a mulher que tem mais corpo, tem mais presença, ao contrário da mulher do norte do País, que é uma mulher mais baixa. A própria carioca é uma mulher que malha, mas é baixa.A mulher catarinense até poderia ser tão bonita quanto à gaúcha, mas não tem pedigree. Ela é um pouco mais tosca. E a mulher curitibana é elitista, ela se perde, não tem aquele lado fêmea da gaúcha.

Revista Expansão: E como estão os homens gaúchos nesta comparação?

Falando de Brasil, o homem gaúcho é de segunda linha.

Revista Expansão: Mas o gaúcho é elegante?

Segunda linha também.

Revista Expansão: E o que falta?

Não tem playboy no Rio Grande do Sul...

Revista Expansão: A masculinidade estaria atrapalhando o homem no Rio Grande do Sul?

Não é isso. O homem gaúcho ainda não desenvolveu algumas coisas. Ele não saiu do processo de “gauderização”. Ele ainda é um gaudério. O homem gaúcho é mal vestido, não é transado e não é globalizado. É um homem que não tem sucesso algum depois do Mampituba. Não temos um playboy gaúcho.

Revista Expansão: Quem é exemplo de playboy?

Se você vai a São Paulo, tem um Pedro Paulo Diniz, e aqui não temos um cara assim. Porto Alegre tem duas ou três Porsches, e Ferrari parece que tem uma só. Não tem cara que toma champanhe francesa, não tem festas particulares pra 500, 600 convidados. Falta um Alexandre Acioly. Não tem um cara que namora uma atriz global. Não tem nada. O homem gaúcho é muito ruim!

Revista Expansão: É uma avaliação bem crítica!

Uma vez eu entrevistava a Adriane Galisteu e ela falou da beleza da mulher gaúcha. E tinha junto uma roda de pessoas e eu falei que aqui Dolce&Gabanna ninguém sabia o que era. O homem gaúcho não tem um terno Armani, o homem gaucho não usa Mercedes com motorista – só o avô dele. Então, o que a mulher gaúcha tem de top, o homem tem de antitop. Acho que esta é a definição.

Revista Expansão: Quem tu consideras uma pessoa que está dentro da sociedade, que está por dentro da moda e atualizada? Usando uma nomenclatura já conhecida, quem é in e quem é out?

Eu acho o seguinte: a pessoa não pode ser um CP, que é uma linguagem que faz parte do meu glossário. O CPF é um cara que não tem identidade, ele é somente um número. Ele não tem nome e não tem rosto. Ele é uma pessoa comum. É você botar uma camiseta azul do jacarezinho, uma calça de jeans, um cintinho, comprar um Golf e colocar umas rodas 16 e achar que é o canal. É um cara que namora uma guria politicamente correta, que estuda na faculdade e tem uma média cinco. Esse cara ta fora do circuito.

Revista Expansão: O que tem de errado neste perfil dado por ti?

Esse cara é uma pessoa comum. Na verdade, ele não tem problema com a moda; é que ele não tem atitude. Ele não tem personalidade, não marca. Hoje cada um tem que marcar, de uma forma ou de outra.

Revista Expansão: E um cara trabalhador, que rala o dia inteiro, ele também pode ter seu lugar ao sol?

Pode. É que existe discriminação com o cara da noite. Tu pode trabalhar durante o dia na tua atividade e de noite colocar uma calça preta, uma camiseta, um gel no cabelo e ser um cara transado, usar brinco, tatuagem e ser um cara com atitude, que tem uma personalidade. Moda não existe, o que existe é atitude e personalidade.