25.10.05



















Idade Média

Estou chegando à idade
bem em plena idade média,
no meio da tempestade,
tempo de tragicomédia.

Estou chegando à idade,
naquela idade careta,
de ver sempre a "coisa preta"
e nem tentar reagir.

Naquela idade inquietante,
se alguém me olha galante,
penso logo que é assaltante,
vou tratando de fugir.

Estou em plena idade média,
idade tão corrosiva,
de ter carência afetiva,
com um pé adiante, outro atrás.

Naquela idade "danada"
que não se fica, nem vai.
Idade do "tudo ou nada".
Idade em tudo que cai.

Estou em plena idade média,
idade de pisar fundo,
de se soltar toda a rédea
e pôr a boca no mundo.

Idade em que nada espanta,
de preferir noite ao dia,
de disfarçar as pelancas
e de esconder as estrias.

Idade em que "Inês é morta".
De não precisar fingir.
De não se fechar a porta
à hora de se dormir.

Idade de pouco assédio,
nenhuma chuva na horta.
De coquetéis de remédios
e de cuidar mais da aorta.

De "inativo" ser tachado.
Idade em que o peito chia.
De ser deixado de lado,
qual "coisa" sem serventia.

Idade em que não há regras
nem se pôr mais fé no taco.
De abandonar a refrega,
meter a viola no saco.

Idade de efeito e causa,
das ondas de calorão.
Da "menô" ou "andropausa"
e da "terceira dentição".

Idade em que tudo desce
e de muita confusão,
em que o ardor arrefece,
em que só sobe a pressão.

Idade em que tudo é mole.
Idade em que o fogo esfria.
Se correr o "bicho" encolhe.
Se ficar... o "bicho" arria!


Myrthes Mazza Masiero



14.10.05


























O Patrulheiro Uílson

O homem estava ressabiado... E um policial ressabiado, é talvez uma das piores coisas que se possa conceber. Uílson desceu de sua viatura com passos firmes e caminhou até a Mercedes branca previamente solicitada a parar.

- Boa tarde. Sou o patrulheiro Uílson. É meu dever informar que o senhor trafegava com seu veículo acima da velocidade permitida por lei.

O condutor sorri divertido para o policial, e atalha:

- Patrulheiro... Devo lhe advertir que você parou um deputado...

Nem terminou sua explanação, e escutou um soco seco que afundou o capô de sua Mercedes. BAM!

- Não me interessa! Nesta rodovia eu sou a lei. Você não pode me corromper. A justiça é cega, mas enxerga no escuro.

- Ei,ei,ei...Você não entendeu.

- Parado ai!

Wilson sacou sua arma e se posicionou:

- Qualquer movimento em falso e eu atiro.

- Ãhhh patrulheiro...

- Calado verme rastejante! Ponha este traseiro fétido e gordo para fora do carro com as mãos na cabeça.

O deputado incrédulo desceu do carro cumprindo tão convincente demanda. O patrulheiro lhe agarrou o braço e o fez rodopiar em uma das mãos para prosseguir com a revista. Apalpou o roliço corpo do suspeito.

- O que é isto em seu bolso?

- Isso? São folhas de hortelã. Você... Ããh o senhor sabe... Para gripe.

- Ledo engano...

Uílson dá um soco no estômago do deputado que cai de quatro expelindo o ar dos pulmões.

- Canalha.

Uílson lhe chuta a cabeça.

- Escória.

Uílson urina no corpo desfalecido.

- Crápula.

Uílson algema o deputado e o leva para a delegacia. Quatro horas depois, o deputado acorda num leito hospitalar com um preocupado delegado ao seu lado.

- Senhor deputado... Sinto muito... Como está vossa excelência? Eu sou o delegado Petrônio.

Subitamente a consciência lhe vem dolorosa.

- Oh, sim...

- Sentimos muito pelo ocorrido. O patrulheiro que lhe interceptou, esta lá fora. Vou ordenar que entre...
Uílson entra no quarto com passos firmes e cara fechada.

- Eu entenderia perfeitamente, se o senhor desejasse prestar queixa do patrulheiro Uílson.

Uílson olha o deputado por cima dos óculos rayban e lhe dá uma leve piscadela com o olho esquerdo. Abre um quase imperceptível sorriso de canto de boca.
Silencio meditativo.

- Pensando bem seu delega... Você já fumou hortelã? Pô ai... Mó barato...


9.10.05























Charles Bukowski (1920-1994) escritor maldito, que preferia retratar os perdedores, os excluídos, os bêbados, as prostitutas e a marginalidade.
Escreveu entre tantas nojeiras, o argumento dos filmes Barfly, Crônica de Um amor louco, além dos livros Notas de um velho safado, Hollywood e Fabulário Geral do Delírio cotidiano.
Aqui está um conto do livro Numa Fria (também encontrado em pocket).


O Homem Que Adorava Elevadores

Parado na garagem do edifício, Harry esperava que o elevador descesse. Quando a porta se abriu, ouviu a voz de uma mulher às suas costas. ‘‘ Um momento por favor !’’ Ela entrou no elevador e a porta fechou-se. Usava um vestido amarelo, o cabelo armado no alto da cabeça e uns tolos brincos de pérolas penduradas em longas correntes de prata. Um rabo grande, pesadona. Os seios e o corpo pareciam forçar para estourar o vestido amarelo. Tinha os olhos verdes mais claros do mundo, e olhavam-no como se ele fosse transparente. Trazia uma sacola de supermercado, com a palavra Vons impressa. Os lábios besuntados de batom. Os lábios muito pintados eram obscenos, quase feios, um insulto. O batom vermelho berrante brilhava, e Harry estendeu a mão e apertou o botão de EMERGÊNCIA.
Deu certo, o elevador parou. Harry aproximou-se dela. Com uma mão, levantou a saia, e olhou as pernas. Umas pernas incríveis, só músculo e carne. Ela pareceu apavorada, paralisada. Ele agarrou-a quando ela soltou a sacola. Latas de legumes, um abacate, papel higiênico, carne embalada e três barras de chocolate espalharam-se pelo chão do elevador. E aí a boca dele estava naqueles lábios. Eles se abriram. Ele baixou a mão e suspendeu a saia. Mantinha a boca na dela, e baixou a calcinha. Depois, em pé, possuiu-a batendo-a com força contra a parede do elevador. Quando acabou, fechou o zíper, apertou o botão do terceiro andar, e esperou, de costas para ela. Quando a porta se abriu, ele saiu. A porta fechou-se e o elevador se foi.
Harry caminhou até o seu apartamento, enfiou a chave e abriu a porta. Sua esposa, Rochelle estava na cozinha preparando o jantar.
- Como é que foi? – ela perguntou.
- A mesma merda de sempre - ele disse.
- Jantar em dez minutos – ela disse.
Harry foi ao banheiro, tirou a roupa e tomou uma chuveirada. O trabalho estava lhe dando nos nervos Seis anos, e não tinha um centavo no banco. Era assim que pagavam a gente – só davam o bastante para a gente se manter vivo, mas nunca para acabar se escapando.
Ensaboou-se bastante, enxaguou-se e ficou ali parado, deixando a água muito quente escorrer pela nuca. Isso tirava o cansaço. Enxugou-se e vestiu o roupão, entrou na cozinha e sentou-se à mesa. Rochelle servia os pratos. Bolinho de carne e molho. Ela fazia bons bolinhos com molho.
- Escuta – ele disse -, me diz uma coisa boa.
- Boa?
- Você sabe.
- A menstruação?
- É.
- Ainda não veio.
- Nossa.
- O café não está pronto.
- Você sempre esquece.
- Eu sei. Não sei o que me faz fazer isso.
Rochelle sentou-se, e começaram a comer sem o café. Os bolinhos de carne estavam bons.
- Harry – ela disse -, podemos fazer um aborto.
- Tudo bem – ele disse -, se for esse o caso, a gente faz.
Na noite seguinte, ele entrou no elevador e subiu sozinho. Foi até o terceiro andar e saltou. Depois deu meia-volta, tornou a entrar e apertar o botão. Desceu até a garagem, saltou, foi até seu carro e ficou sentado esperando. Viu-a subindo a rampa, desta vez sem as mercadorias. Abriu a porta do carro.
Desta vez, ela usava um vestido vermelho, mais curto e mais justo que o amarelo. Tinha os cabelos compridos. Quase chegavam ao traseiro. Tinha os mesmos brincos tolos e os lábios mais besuntados de batom do que antes. Quando ela entrou no elevador, ele seguiu-a. Subiram, e mais uma vez ele apertou o botão de EMERGÊNCIA. E estava em cima dela, os lábios naquela boca vermelha obscena. Mais uma vez ela não usava meia-calça, só meias vermelhas até os joelhos. Harry baixou a calcinha e meteu. Bateram nas quatro paredes. Durou mais tempo desta vez. Depois Harry fechou o zíper, deu as costas a ela e apertou o botão ‘’3’’.
Quando abriu a porta, Rochelle cantava. Tinha uma voz terrível, e Harry correu para o chuveiro. Saiu de roupão, sentou-se à mesa.
- Nossa – disse -, demitiram quatro caras hoje, até Jim Bronson.
- Isto é muito ruim – disse Rochelle.
Havia dois bifes com batatas fritas, salada, e pão de alho quente. Nada mal.
- Sabe há quanto tempo Jim estava lá?
- Não.
- Cinco anos.
Rochelle não respondeu.
- Cinco anos – disse Harry. – Eles pouco estão ligando, os sacanas não têm dó.
- Desta vez não esqueci o café, Harry.
Ela curvou-se e beijou-o ao encher a xícara.
Estou melhorando, está vendo?
- É.
Ela foi sentar-se.
- Meu período começou hoje.
- Quê? É verdade?
- É, Harry.
- Isso é sensacional, sensacional...
- Não quero filho enquanto você não quiser, Hary.
- Rochelle, a gente deve comemorar! Uma garrafa de bom vinho. Vou pegar uma depois do jantar.
- Já peguei, Harry.
Harry levantou-se e contornou a mesa. Ficou quase atrás de Rochelle e puxou a cabeça dela para trás com uma mão debaixo do queixo e beijou-a.
- Eu te amo, boneca.
Jantaram. Um bom jantar. E uma boa garrafa de vinho...

***

Harry saltou do carro quando ela subia a rampa da garagem. Ela esperou-o, e os dois entraram no elevador juntos. Ela usava um vestido azul e branco, estampado com flores, sapatos brancos, meias curtas brancas. Tinha o cabelo armado no alto da cabeça de novo e fumava um cigarro Benson and Hedges.
Harry apertou o botão de EMERGÊNCIA.
- Espere um minuto, senhor!
Era a segunda vez que Harry ouvia a voz dela. Era um pouco áspera, mas nada má.
- Sim – disse Harry -, que é?
- Vamos pro meu apartamento.
- Tudo bem.
Ela apertou o botão ¨4¨, subiram, a porta se abriu e caminharam pelo corredor até o 404. Ela abriu a porta.
- Bela casa – disse Harry.
- Eu gosto. Posso lhe oferecer alguma coisa para beber?
- Claro.
Ela entrou na cozinha.
- Meu nome é Nana – ela disse.
- Eu sou Harry.
Ela veio com dois drinques e sentaram-se no sofá e beberam.
- Eu trabalho na loja Zody – disse Nana.- Sou balconista da Zody
- Isso é ótimo.
- Que diabo têm isso de ótimo?
- Quero dizer que é ótimo agente estar juntos.
- É mesmo?
- Claro.
- Vamos pro quarto.
Harry seguiu-a. Nana acabou sua bebida e pôs o copo vazio sobre a cômoda. Entrou no banheiro. Era um banheiro grande. Ela começou a cantar e tirar a roupa.
Cantava melhor que Rochelle. Harry sentou-se na beira da cama e acabou sua bebida. Nana saiu do banheiro e deitou-se na cama. Estava nua. O cabelo da xoxota era muito mais escuro que o da cabeça.
- Bem? – disse.
- Oh – disse Harry.
Tirou os sapatos, as meias, a camisa, as calças, a camiseta, a cueca. Depois se meteu na cama ao lado dela. Ela virou a cabeça, e ele beijou-a.
- Escuta – ele disse -, precisamos de todas essas luzes acesas?
- Claro que não.
Nana levantou-se e apagou a lâmpada do teto e do abajur ao lado da cama. Harry sentiu a boca da mulher na sua. Ela enfiava a língua, mexia e retirava. Harry montou nela. Era muito macia, parecia um colchão d´água. Ele beijava e lambia os seios, a boca, e o pescoço. Continuou beijando-a por algum tempo.
- Que é que há? – ela perguntou.
- Não sei – ele disse.
- Não está funcionando, é isso?
- Não.
Harry levantou-se e pôs-se a vestir-se no escuro. Nana acendeu a lâmpada de cabeceira.
- Que é você? Um tarado de elevador?
- Não..
- Só consegue em elevadores, é isso?
- Não, não, você foi a primeira, mesmo. Não sei o que deu em mim.
- Mas eu estou aqui agora – disse Nana.
- Eu sei – ele disse, suspendendo as calças. Sentou-se e pôs-se a calçar as meias e os sapatos.
- Escuta, seu filho da puta...
- Sim?
- Quando estiver pronto e me quiser, venha ao meu apartamento, entende?
- Sim, entendo.
Harry estava inteiramente vestido e de pé de novo.
- Não mais no elevador, entende?
- Entendo.
- Se você algum dia me estuprar no elevador de novo, eu chamo a polícia, é uma promessa.
- Tudo bem, tudo bem.
Harry saiu do quarto, atravessou a sala de visita e deixou o apartamento. Foi até o elevador e apertou o botão. A porta abriu-se e ele entrou. O elevador começou a descer. Uma orientalzinha a seu lado. Saia preta, blusa branca, meia calça, pés miúdos, sapatos de saltos altos. Pele morena, uma simples sugestão de batom. O corpo minúsculo tinha um rabo espantoso, sexy. Olhos castanhos e muito fundos, parecendo cansados. Harry estendeu a mão e apertou o botão de EMERGÊNCIA. Quando se aproximou, ela gritou. Ele deu-lhe uma forte bofetada no rosto, tirou o lenço e enfiou-lhe na boca. Passou um dos braços pela cintura dela, e enquanto ela lhe azunhava o rosto com a mão livre, ele baixou o braço e arrancou-lhe a saia. Gostou do que viu.

1.10.05



















O que é, o que é...?

O que é um chapéu pra quem tá sem teto?
O que é salário pra quem tá endividado?
O que é um caminho pra quem tá perdido?
O que é um sorriso pra quem tá sem dente?
O que é uma reza pra quem tá descrente?
O que é uma fila pra quem tá irritado?
O que é canha pra quem ta encanado?
O que é governo pra quem tá desgovernado?
O que é o SUS pra quem tá doente?
O que é um domingo pra quem tá cansado?
O que é Beethoven para quem é surdo?
O que é sonho pra quem foi privado?
O que é hiper-safra para quem tá com fome?
O que é um carinho pra quem tá necessitado?
O que é uma bola pra quem tá bolado?
O que é a lembrança pra quem foi excluído?
O que é o medo pra quem é temido?

Afinal,
O que é um peido, pra quem tá cagado?