16.9.05





















Abrindo as comemorações da semana farroupilha:

Apparicio Silva Rillo, além de poeta, escritor e pesquisador, é um notório contador de causos.
Principalmente causos daqueles personagens que habitam o interior do Rio Grande do Sul. Causos estes, que ele garante serem verdade. Mas como o próprio Rillo diz `` Quem afirma que não mente, já mentiu no redepente."
Seguem dois causos do Rillo publicados no livro Rapa de Tacho 2- Causos Gauchescos:

Menina das Sete Saias

Vindo de férias da capital do Estado, onde cursava Direito (embora por vias tortas), um hoje conhecido advogado numa das principais cidades do Rio Grande do Sul divertia-se com as primas e algumas amigas na estância onde passava alguns dias de descanso.

O fazendeiro, amigo íntimo de seu pai que, como ele, fora capitão das forças de Honório Lemes em 23 e 24, era homem de poucas palavras. Não dava maior atenção ao sobrinho emprestado que lhe parecia um almofadinha. Tanto que este preferia estar nas casas da estância, a charlar com as meninas, que sair para o campo e ajudar nos serviços do dia-a-dia.

Dessa feita - já se considerando íntimo da família - o estudante recitava algumas quadras que ele adjetivava de picarescas.

As primas e amigas se divertiam, embora algo constrangidas, com os versos do futuro bacharel:


``Menina das sete saias,
sete saias de veludo,
debaixo das sete saias
tem um bicho cabeludo.

Menina das sete saias,
sete saias de mortalha,
debaixo das sete saias
tem um bicho que trabalha

Menina das sete saias,
sete saias passadinhas,
debaixo das sete saias
tem um bicho que caminha.

Menaina das sete saias,
sete saias de chitão,
debaixo das sete saias
tem um bicho comilão.

Menina das sete saias,
sete saias de morim,
debaixo das sete saias
tem um bicho que é pra mim``.



Uma das primas - a mais nova delas - saiu de mansinho e foi queixar-se ao pai de que o Albérico estava recitando uns versos ``sujos``.

Foi escutar o reclamo e o velho levantar-se do puxado da cozinha, onde estava mateando. Na passagem pelo corredor já deu de mão num trançado de oito com duas balas ``44``retovadas na tala de papada de touro.

Postou-se atrás da porta exatamente quando, a instâncias de uma das amigas das filhas, o estudante recitava de novo os versos.

O fazendeiro, que fora trovador em rapaz, rapidamente concertou uma quadra de resposta. Balançou o trançado de oito e apareceu na sala. O candidato a bacharel levantou-se, já imaginando tempestade.

E não deu outra coisa. O estancieiro gritou ``Atenção!´´ e abriu o peito:

``Mocinho que está de pala,
escute lá meu conselho:
pra não ser desaforado
vai ser surrado de relho``.

Na terceira lambada - enquanto as mocinhas fugiam, apavoradas - o Albérico berrou como terneiro desmamado, à medida que o mijo lhe esopava as calças corridas.
Nunca mais voltou à estância de seu tio emprestado.





Também não dei

Pescaria das grandes na cachoeira de Mercedes, no rio Uruguai. Dez ou doze companheiros, dentre os quais o ``Guerreiro´´, velho e devotado companheiro de nossa turma.

Cláudio Rodrigues, o Tio Manduca - por mais velho e experiente -, comandava a junção:

- Dondonga, me traz um mate. Rillo, vai preparar as caipira. Miguel Monturo, tu que é um índio campeiro, separa a carne para o assado da noite e salga o resto desta meia vaca que o Pedrinho Batista nos mandou. Nico - cria do nosso velho Alegrete! -, pega a tarrafa e vê se apanha uns lambaris no tombo d´água. Vamos precisar de carnadas para iscar os espinhéis. O Zé Bicca vai quebrando o gelo pro caixão das cervejas. E tu, Pedrinho, campeia mais alguma lenha por aí.

À noite, a carne já no fogo, a canha e a cerveja circulando, formou-se a roda. E a tropilha dos causos bateu casco no silêncio pautado pelo canto dos grilos.

Tio Manduca - revolucionário em 23 -, com um sombreiro aventado por meia dúzia de rasgões cobrindo a melena branca, cada vez que falava em Honório Lemes sacava o chapéu num gesto reverente.

- Tiramos o Flores coxilha abaixo, mais estirado que corda de viola. Não é pra me gabar, mas atropelei o meu picaço pata cruzada e cheguei a tiro de bola. Só não matei o Flores porque não se atira num valente pelas costas...

O Luizão Mango-feio, irreverente, comenta baixinho ao pé do ouvido do Nico Fagundes:

- O véio Cláudio serviu mesmo foi nas tropas do coronel bugio. Viviam trepados na galharia com medo da chimangada.

Numa dessas pescarias em Mercedes, o Guerreiro, a meia-guampa (falava-se em guri que dá, em guri que não dá), se atravessou no assunto como lagarto no trilho:

- Pois olha, eu também fui guri como vocês todos, cambada de frescos! E sou muito homem pra dizer que tanto passei muito guri nas armas como também dei. E quem me disser que não deu, quando piá, tá me mentindo.

Silêncio na roda. Olharam-se todos, rindo por dentro mas aparentando seriedade para ver até onde chegava a história do Guerreiro.

- Que é que há? Dei o que era meu quando era guri e sou mais homens que vocês todos. Rillo - tu aí -, tu também não deu?

- Não, não dei.

- E tu, Nico, tu deve ter dado. Guri bonitinho não escapa.

O Nico saltou longe:

- Não dei, não vou dar nunca!

O Guerreiro se apotrou:

- Tudo vocês tão se fresqueando. E mentindo grosso. O Monturo eu garanto que deu.

Não. Nem o Monturo nem ninguém na roda havia dado.

Com essa o Guerreiro virou bicho. Levantou-se, jogou longe a garrafa de cerveja, deu um pontapé no banco onde estava assentado e arrematou, sibilino e incisivo:

- Pois então eu também nunca dei!


9.9.05
























O RUIDAR DAS PALAVRAS

As palavras possuem uma exatidão rapina
A palavra que ensina
A palavra que constrange
A palavra que abrange
Essa existência divina
A palavra resume
A palavra traduz
Constrói, ofende, reduz
Transpõe o tempo e o espaço
A palavra é o compasso
Que marca as vidas humanas
Insufla o voejar das chamas
E apaga o silêncio nato.

4.9.05
























O escritor Paul Auster, mantém nos EUA, um programa mensal na rádio NPR em que basicamente se propõe a ler, histórias reais de pessoas reais.
Algo como ele mesmo denomina de `` um museu da realidade americana``.
Em um ano, selecionou entre 4 mil textos, os que iriam ao ar, e destes, compilou o livro Achei que Meu Pai Fosse Deus e outras histórias verdadeiras da vida americana, que foi publicado este ano, através da Companhia das Letras.
Os relatos surpreendem por serem escritos por pessoas comuns, que tiveram experiências incomuns e neste livro, se revelam.
A seguir, um delicioso conto, sobre um não tão delicioso prato de ervilhas:

Um Prato de Ervilhas

Meu avô morreu quando eu era pequeno e minha avó passou a morar conosco cerca de seis meses por ano. Ela ficava em um quarto que fazia as vezes de escritório para meu pai, o qual chamávamos de `` o quarto dos fundos``. Ela carregava consigo um aroma poderoso. Não sei que tipo de perfume usava, mas era do tipo dois canos, noventa graus de graduação alcoólica, capaz de deixar a vítima inconsciente, tiro e queda. Ela guardava num grande vaporizador e o aplicava com freqüência e prodigalidade. Era quase impossível entrar no quarto dela e conseguir respirar durante algum tempo. Quando ela partia para morar seis meses com minha tia Lillian, minha mãe e minhas irmãs escancaravam todas as janelas e punham o colchão, as cortinas e os tapetes para tomar ar. Depois, passavam dias lavando e arejando as coisas, na tentativa frenética de fazer o odor pungente desaparecer.

Era assim minha avó, na época do infame ``incidente das ervilhas``.

Aconteceu no hotel Biltmore que, para minha mente de oito anos era o lugar mais chique para comer em toda Providence. Minha avó, minha mãe e eu fomos almoçar depois de uma manhã de compras. Pedi um bife à Salisbury, confiante no conhecimento de que aquele nome elegante escondia um bom e velho hamburguer com molho. Quando chegou meu pedido, vinha acompanhado por um prato de ervilhas.

Não gosto de ervilhas hoje. Não gostava de ervilhas então. Sempre odiei ervilhas. É um completo mistério para mim por que alguém comeria ervilhas voluntariamente. Não as como em casa. Nãos as como em restaurantes. E certamente não iria comê-las naquela ocasião.

``Coma as ervilhas``, disse minha avó.

``Mãe``, disse minha mãe com sua voz de advertência. `` Ele não gosta de ervilhas. Não implique com o menino.``

Minha avó não retrucou, mas havia um brilho sinistro em seus olhos que indicava que ela não se daria por vencida. Inclinou-se em minha direção, olhos nos meus olhos, e murmurou as palavras fatídicas que mudaram minha vida.

``Pago cinco dólares se você comer estas ervilhas.``

Eu não tinha a menor idéia do destino iminente que vinha em minha direção como uma bola gigante e destruidora. Só sabia que cinco dólares era uma quantia enorme , quase inimaginável, e, por pior que fossem as ervilhas, havia apenas um prato delas entre mim e a posse daqueles cinco dólares. Comecei a enfiar as desgraçadas goela abaixo.
Minha mãe ficou lívida. Minha avó tinha o ar satisfeito de alguém que baixou um trunfo imbatível na mesa. `` Posso fazer o que quiser, Ellen, e você não pode me deter.`` Minha mãe lançou um olhar dardejante para a mãe dela. Lançou um olhar para mim. Ninguém lança olhares dardejantes como minha mãe. Se houvesse uma competição olímpica dessa modalidade, sem dúvida ela ganharia a medalha de ouro.

Eu, evidentemente, continuava a jogar ervilhas goela abaixo. Os olhares deixaram-me nervoso, e cada ervilha me dava vontade de vomitar, mas a imagem mágica dos cinco dólares flutuava diante de mim e, por fim, engoli a última. Minha avó deu-me os cinco dólares com fanfarras. E assim acabou o episódio. Ou assim pensava eu.
Minha avó partiu para a casa de tia Lillian algumas semanas depois. Naquela noite, no jantar, minha mãe serviu dois de meus pratos favoritos, bolo de carne com purê de batatas. Junto com eles, veio uma grande tigela de ervilhas fumegantes. Ela me ofereceu algumas ervilhas e eu, nos últimos instantes de inocência de minha infância, recusei. Minha mãe lançou-me um olhar frio enquanto despejava uma enorme pilha de ervilhas em meu prato. Então, vieram as palavras que me perseguiriam durante anos.

``Você comeu ervilhas por dinheiro. Pode comê-las por amor.``

Oh desespero! Oh devastação! Tarde demais eu percebia que havia me condenado inadvertidamente a um inferno de onde não havia escapatória.

``Você comeu ervilhas por dinheiro. Pode comê-las por amor.``

Que argumento eu poderia contrapor? Não havia nenhum. Se comi as ervilhas? Pode apostar que sim. Comi-as naquele dia e todas as vezes em que foram servidas desde então. Os cinco dólares foram gastos logo. Minha avó faleceu alguns anos depois. Mas o legado das ervilhas sobreviveu, assim como está vivo até hoje. Se eu mal aperto os lábios quando são servidas ( porque, afinal, ainda odeio aqueles coisinhas horrorosas), minha mãe repete as terríveis palavras mais uma vez:

``Você comeu ervilhas por dinheiro. Pode comê-las por amor.``



Rick Beyer