26.8.05
























Ancas Brancas sob Areias Brancas



Ouço bem de longe o barulho do mar. As ondas vêm, estouram, e se arrastam sobre a praia, me chamando de volta a consciência. Mal posso respirar deitado de costas com o rosto enterrado nos minúsculos grãos de areia. Levanto um pouco a cabeça que dói ao menor movimento, e retorno a posição anterior, preferindo voltar a não respirar...

Sou, neste exato momento, um apanhado de sensações desagradáveis. Tonto, enjoado, com a cabeça latejando e a garganta seca e fechada. Meu fígado pede clemência em espasmos retumbantes, enquanto que minha pele lateja e arde, exposta a este sol infernal.
Não sou nenhum amador na ingestão de destilados fermentados e afins, mas devo confessar que na noite passada, eu exagerei. Ah, também pudera... Faziam dois anos que não eu tirava umas férias decentes numa bela praia repleta de mulheres bonitas. Pois foi vagando entre as mesas dos bares lotados, que encontrei algumas ex-colegas de escola, que me apresentaram uma linda morena. Se não me engano, ela se chamava Rita.

Começamos a conversar sobre trivialidades, e conforme o tempo ia passando, os copos de cerveja iam sendo derrubados e a conversa ficando cada vez mais embalada e complexa. Minhas ex-colegas de escola nos deixaram a sós, percebendo que se estabeleceu um certo clima entre nós dois.

Quando passou uma menina vendendo rosas e constrangendo os casais recém formados, recusei explicando para Rita que eu preferia dar pedras a pessoa amada, pois as pedras perduravam para sempre, firmes e consistentes, sobrevivendo ao tempo, como todo amor deveria de fato ser ( tudo devidamente chupado do costume judaico). Dizendo isso, juntei a primeira pedra que vi no chão e ofereci a Rita que sorriu e me disse:
- Pedra por pedra, prefiro diamantes...

Rita me convidou para sairmos daquele bar. Ela estava começando a sentir a garganta doer, por tentar conversar mais alto que o som que vinha do porta malas de um carro estacionado ali perto. Quando me levantei, o planeta girou como se estivéssemos num imenso caleidoscópio. Trombei na mesa, e peguei na mão de Rita para recobrar o equilíbrio. Disfarcei convidando-a para irmos a beira da praia ver o mar. Sentamos na areia. Nos olhamos . Nos beijamos. E nos amamos...

E agora aqui estou eu. Remontando em minha remota consciência os dados perdidos pela embriaguez. Quem sou eu? Onde estou? Sou interrompido por um gritinho beeeeem fininho, que entra lá dentro de meus tímpanos e se chacoalha por toda extensão de minha cabeça:

- Oh meu Deus! Um homem morto!

- E nu! Venha Glória, vamos chamar o salva vidas.

Devo recomendar... Estas palavras são um ótimo remédio pra ressaca. Você imaginar-se ao lado de um morto pelado, é o equivalente a três doses de adrenalina na veia. Ao me levantar é que noto - o cadáver nu, mencionado, sou eu. Tateio desesperadamente a areia, tentando alcançar minha roupa, enquanto os olhos se ajustam a intensa luminosidade do sol. Concluo que a maré subiu e furtou minha roupa.

Estou nu. Peladão na beira da praia. Meu pior pesadelo infantil tornou-se real. O que fazer? São Maguyiver por favor me ajude! Sentar num buraco e enterrar minhas vergonhas? Melhor não... Os salva-vidas logo chegariam alertados pelas mulheres que caminhavam na beira da praia, e fedendo a álcool desta maneira, eu certamente seria preso por atentado ao pudor.

Corri direto pro mar, lutando contra as ondas e a água congelante que tentavam me impedir. Fui seguindo, até ficar só com a cabeça pra fora. Eu tinha que agir rápido. Logo, as famílias chegariam à praia, abririam seus guarda-sóis coloridos, espalhariam na sua volta aquela porção de quinquilharias, e libertariam suas crianças me prendendo aqui no mar pra sempre.

Nadei em direção ao primeiro surfista que entrou n´água. Esperei ele pegar a uma onda, e quando veio em minha direção, submergi como um submarino nu-clear. Puxei o pé do pobre diabo quando passou por mim. Ele caiu emborcado num tombo muito feio. Aproveitei o efeito surpresa e lhe apliquei um direto no nariz. O garoto devia ter uns 14 anos. Quando ia começar a berrar vendo o sangue que escorria de seu rosto, lhe soquei novamente na boca do estômago, tirando o ar de seus pulmões. Ordenei engrossando a voz:

- Sou Posêidon - Senhor dos mares! Entrastes em meu lar sem permissão! Ordeno que me dê seu long como oferta, e só então pouparei sua miserável vida.

Ele assentiu... Tirou com certa dificuldade a roupa de neoprene, e me alcançou choramingando. Eu peguei de repelão, e no mesmo movimento mergulhei para me afastar logo dali. Foram longas e exaustivas horas tentando me espremer dentro da roupa emborrachada. Finalmente consegui vesti-la até a altura da cintura. Eu parecia um funil. Tive uma horrenda sensação de obstrução circulatória, mas mesmo assim corri com passos curtos o mais rápido possível para fora d´água. Que Houdini, morra de inveja, consegui sair dali!

Agora que finalmente me ponho a salvo, fico pensando, o que terá acontecido a Rita? Será que o mar levou ela, assim como levou minha roupa? Talvez, ela tenha se transformado numa bela sereia quando tocada pelos primeiros raios solares... Só não posso acreditar que tenha simplesmente ido embora, ou ainda, me furtado.

Eu bem que poderia tentar descobrir o que houve de fato.
Bastaria voltar essa noite ao bar e tentar achar Rita. Mas devo confessar que temo um segundo encontro com ela... Melhor mesmo me trancar no quarto, besuntar todo corpo com caladril, e ficar imóvel fedendo a pus, esperando que a pele pare de arder.

22.8.05
























Antes desta onda de sexo virtual, Luis Fernando Veríssimo publicou este texto no livro O Suicida e o Computador em 1992.
Se transportarmos este texto para a atualidade, certamente os personagens se enviariam por e-mail com os problemas dos temíveis vírus eletrônicos.
Daqui a 10 anos a tecnologia certamente irá mudar, mas as falhas na comunicação certamente permanecerâo não é mesmo??


FAX AMOR

Um dia, amor, nos remeteremos um ao outro pelo espaço, via fax desdenhando o transporte público ou possíveis cadillax nossos impulsos passionais transformados em impulsos fonais e os nossos ais agônicos em sinais eletrônicos.
E eu estarei do seu lado em questão de instantes ou você do meu, de preferência antes.
Em vez da folha rabiscada de paixão receberás, na tua máquina, a minha mão.
Depois um braço, o outro, o tronco, o ouvido todo o conjunto, enfim, de um homem transmitido.
Ou em vez da carta com a proposta tentadora ali estará você, com ela, na minha copiadora!
E nos amaremos, como todos no ano dois mil e três, com cuidados profiláticos e extrema rapidez.
E depois, saciados, a alma solta
Nos meteríamos no aparelho e nos mandaríamos de volta...
Mas um dia, ah, já estou adivinhando:
você chegará com um trecho faltando.
Uma linha borrada, um olho lastimável, uma curva apagada, um seio indecifrável.
Ou então chego eu, animado e contente
mas- maldição!- sem a parte competente.
E só o que faremos juntos, nesse dia fatal
Será criticar, como sempre, o similar nacional.

Luis Fernando Veríssimo

14.8.05























REVELAÇÕES DE NOSSAS PERVERSAS RELAÇÕES

Domingo oito horas da manhã. Ela começa a fazer barulhos na cozinha com o intuito de me acordar.
Amontoa a louça ensaboada numa sinfonia infernal, até que eu finalmente me levanto:

- Pô que merda! Nem em final de semana se pode dormir nesta casa?

Ela amarra o bico e começa a chorar.
Diz que eu não me importo com a sua entrega, que só me interesso por aquilo que me satisfaz; que sou um babaca machista que acha que mulher só serve pra trepar, cuidar da casa; enfim... Coisas que a TPM nos proporciona mensalmente, e que lá no fundo nos deixa tão chateados, pois bem tememos ser verdade.
Sinto pena dela, mesmo porque ignoro esta condição. Pergunto sem paciência, o quê ela quer afinal?

- Quero ir no Brique da Redenção seu cu! - diz, enxugando as lágrimas no pano de prato.

Eu, que me irrito facilmente com palavrão, respondo alto :

- Puta que o pariu! Lá vamos nós encher a casa daquele artesanato inútil.

E a avalanche tem então seu inicio...
E é o que basta.
Um ruído mais forte e tudo vem abaixo. As portas se batem, e escuto um chorinho renitente.
Muito contrariado, preparo um chimarrão com folhas de erva cidreira, enquanto ela se veste no quarto, escutando alto uma canção qualquer do Velvet Underground, que bem sabe que eu odeio.

No trajeto dentro do automóvel, não trocamos uma palavra sequer. E é exatamente este silêncio, esta falta do que dizer, que torna-se em minha mente uma discussão imaginária terrível. Como ela pôde ter a coragem de me dizer uma coisa dessas?
Estaciono bem longe, para evitar os guardadores de automóvel.
Eu particularmente, me sinto ridículo fazendo estas ceninhas de casal medíocre, que não tendo a menor sofisticação e laissez faire, se engalfinham na prática mútua enlouquecerem-se quotidianamente.
Descemos do carro e começamos a caminhar lado a lado em silêncio. Volta e meia eu roço as costas de minha mão nas dela, como numa súplica amarga de um perdão mudo e covarde. Ela me olha, e diz num tom de irritação:

- Não vai me dar a mão, porra?

Eu dou com certa resignação. Minha mão está suada e pegajosa.
Reclamo algo sobre os cachorros soltos no parque em meio as pessoas, e recebo um ahãã de aprovação. Estabelecer o diálogo inicial depois de uma briga, é tão difícil e doloroso quanto se extrair um rim pelo nariz. Nenhuma palavra parece se encaixar, e nada coopera para que a situação de fato mude.
É nestas horas que eu penso em terminar com tudo, dar um tiro de misericórdia neste agonizante relacionamento, partir pra outra, sei lá!. Mas não... Afinal de contas eu gosto dela, ou como diriam os medíocres, eu a amo, e já não consigo vislumbrar um incerto futuro sem ela. Ah mas quê diabos! Por que têm que ser assim?
Porque a real necessidade de amor, é proporcional a esta precisão de nos odiarmos?
Cada dia que passa, eu a conheço mais, assim como ela conhece a mim. E conforme vamos nos conhecendo, vamos nos odiando, nos maltratando, nos cerceando e tolhendo, até nada mais restar a não ser meros farrapos humanos, pedaços inertes de carne sem ânimo para nada, nem mesmo para brigar. Acho que é por isso que o casamento é tão incentivado pela igreja e pelo governo...

E aqui estou eu, novamente viajando em divagações e conjecturas, enquanto observo ela experimentar um par de brincos feitos por um hippie fedorento.
Eu me preparo, e já vou pegando a carteira no bolso de trás das calças. Ela se admira num caco de espelho e pergunta para mim:

- E então?

- Tá linda. Quanto é?

- Não tô perguntando isso! E então? Você vai, ou não vai me pedir desculpas?

O hippie me observa com um sorrisinho maroto. Porque será que mulher não têm o menor senso de oportunidade? Aqui não é hora nem lugar pra isso. Muito menos em frente deste pica fumo.

- Desculpa? Desculpa porque, se eu não fiz nada?!

- Você brigou comigo.

- Eu briguei? Peraí, não tô entendendo ``eu briguei``... Você esta toda manhã fazendo de tudo para me enlouquecer!

- Você não gosta de mim...

- Não é nada disso. Eu gosto de ti. Só não gosto do jeito que as coisas estão indo. Quer saber? Me desculpe por brigar com você, por gritar com você. Me desculpe por te chatear, e por existir, tá bom assim?

- Não...

Ela chora, eu a beijo. Finalmente ficamos de bem.
Finalmente, até o mês que vem.

8.8.05























Uma sequência de textos de bar, de Leila Míccolis.
Logo após, duas pérolas desta mesma escritora:



BAR DA ESQUINA
Na saideira, mais uma vez,
a esperança
de embriaguez.

DE REPENTE
Cigarro sem filtro
verdades na mesa
tremosso azeitona
chopinho na tarde
teu beijo molhado
tua voz brincalhona
de sexta a outra sexta...
Saudade mais besta.

RITUAL
De início o papo é eufórico e animado:
tudo vai bem,
no emprego teve aumento,
a patroa está boa
— sempre jovem —
e outro júnior virá no mês de junho;
mas depois das cervejas (casco preto),
quando restam no bar eu e o garção,
os sonhos vão perdendo a intensidade
começas a culpar a vida, a idade
e acabas me falando em solidão.

DOSE
Queres saber o que ocorre?
O nosso amor, de tão sóbrio,
virou um porre...

ÚLTIMO CHOPE
Desavença,
mudez tensa,
mesa imensa..

FOSSA
Depois de tomar uns gins
e ouvir Chico na vitrola,
dispo a minha camisola,
me enfio na calça jeans,
e saio meio-embalada,
decidida a te esquecer.
Retorno de madrugada
sem nada me acontecer,
a não ser essa ressaca
incomodativa paca
(resquício de um bom pileque),
mais fossa e menos um cheque...

A SECO
Tem coisas que a gente só diz de porre,
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.


por Leila Míccolis



BONS TEMPOS ou SAUDOSA MALOCA...

Namoro antigo:
titia na sala bordava um pano,
tomava conta,
e ainda havia entre nós dois...
um piano...

Pra se mostrar, a vigia tocava um rondó cigano,
tão mal,
que ela enrubescia,
se rias de algum engano...
Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.
E após a tua saída,
eu,
titia e mais a gata,
surubávamos as três...

por Leila Míccolis




FORA DE FORMA

De amor é fácil falar,
opinar, teorizar,
mas viver é que são elas...
Portanto não acredite
nesse povo tagarela
que somente dá palpites.

Nem agrida quem discorda
ou quem chama de calhorda
a nossa forma de vida,
só por ser controvertida.

Mais lúcidos somos nós:
eles se juntam somente
a uma multidão de gente
pra fingir que não estão sós.
por Leila Míccolis

1.8.05

Pois atentendo a pedidos, publico abaixo uma crítica de filme que vi e recomendo.
Espero que gostem...
Um abraço!

Regras da Atração, ( The Rules of Atraction-2002) é um daqueles filmes onde imagino que o dono da locadora deve ficar com a fita na mão, parado em meio aos corredores, pensando ``onde raios classifico isso?``. Para não perder tempo cataloga logo como drama ou então pior, romance. O filme é muito mais que isso, baseado no livro de Bret Easton Ellis -o mesmo autor do Psicopata Americano, que neste filme não dá o ar da sua graça. Há apenas uma menção à ele, como sendo o irmão de um dos personagens da trama.
É difícil não definir Regras da Atração, com o clichê de ``um triângulo amoroso``. Mas digamos que este é diferente...O triângulo amoroso retratado aqui, é escaleno.É a história de três jovens perdidos no semestre de uma universidade em meio à festas anárquicas e aulas desinteressantes. O sexo rola com a mesma naturalidade com que se oferece a mão para um aperto ao conhecer outra pessoa, inclusive com a mesma intimidade. E as drogas proporcionam conversas e emoções desconexas e conflitantes; sem elas, nada mais resta para se sentir ou falar.
O presente passa a tornar-se um grande ponto de interrogação, enquanto que o futuro todos sabem muito bem qual será. As imagens são carregadas de mensagens cognitivas e efeitos como a retroação de cenas e a divisão de telas para sobressaltar a separação dos personagens. A trilha sonora é um pouco óbvia demais, mas não deixa de ser boa. O elenco não é formado por grandes estrelas hollywoodianas, mas sim por grandes atuações e talvez esta seja a razão da falta de procura do filme nas locadoras.
Mas enfim, o filme é uma daquelas grandes surpresas, quando você acaba o pegando despretensiosamente ali esquecido na sessão de romance.

Ficha:

Regras da Atração- 2002
Direção: Roger Avary- Parceiros de Um Crime
Atores:
James Van Der Beek- Dawson´s Creek
Shannyn Sossamon- 40 dias e 40 noites
Kip Pardue