30.6.05
























TANGO DE UN PORTEÑO ENAMORADO


Meu amor quando me beijas o teu bafo de cerveja me deixa embriagado.
O seu corpo é um colosso só tem pelanca e osso, me deixa excitado.
Ó querida és meu mundo, nascente em Passo Fundo e aqui tu veio dar...
Se te digo que te quero, é porque no fundo espero que em minha cama vás parar.
O seu lábio carnudo, seu sovaco cabeludo, és perfeita; nota dez.
Se a mim tu não compreendes, é porque tu não entendes, que te amo ao revés.
É você que me domina, que a tudo me ensina, até mesmo a arrotar.
E pôr isso não me abala quando você me revela na pré-escola foi rodar.
Para consumar o ato, te levei pra trás do mato e te disse: - Que legal!!
Retirei sua calcinha e ao olhar a castorinha me caiu o genital.
Ó meu bem eu peço as pazes,
Pôr favor não solte gazes que assim me deixas mal
Entra ano e sai ano, sua orelha de abano, você é sensacional.

24.6.05

Sempre tive esta percepção de que no fundo no fundo, eu sou mesmo um cara super cool.
Pois agora, lendo este texto do Mario Prata a respeito do celular, cheguei a conclusão que sou tre chiq.
Lá vai:



























O CELULAR, QUEM DIRIA, VIROU CAFONA

Mario Prata

Se você for da minha geração, deve se lembrar de quando surgiram os primeiros radinhos de pilha. Fim dos anos 50 (meu Deus, estou velho!) A marca era Spica. Era um luxo. Poucos tinham acesso. Era coisa de rico. Hoje virou lixo, sucata subdesenvolvida. Como o Brasil, coitado.

Os ricos d'antanho andavam pela rua com aquilo grudado no ouvido. Iam ao restaurante ouvindo o jogo de futebol. Faziam amor ouvindo La Vie en Rose. Pouco a pouco, foram percebendo que o destino do radinho de pilha era o porteiro do prédio. No dia que o primeiro porteiro de prédio ostentou um, o mundo não seria mais o mesmo. Nunca mais o rico usou radinho de pilha. Nem quando tem blecaute.

Com o celular, o processo foi o mesmo, já notou? Começou como ostentação e o pompeamento de altos executivos e empresários. Você entrava num restaurante chique e todos estavam falando naqueles aparelhinhos. Aos berros, em dolarês. Quanto menor, quanto mais o cara tinha que entortar a boca, mais status dava.

Outro dia o compadre Mateus Shirts andou escrevendo aqui que ouviu um, dentro de um ônibus, voltando de Rio Preto. Saiba, Mateus, que o meu porteiro comprou um. É isso, virou radinho de pilha.

Em Paris, me informa o Fernando Morais, já tem restaurante que proíbe o uso de celular. Não porque vá incomodar a mesa vizinha. Mas por ser cafona mesmo, ser "coisa de pobre". Já em junho, na Copa, era muito difícil ver um francês andando na rua falando no celular. Mas os estrangeiros, sim. Brasileiros então, nem se fala. E, por falar em Paris, eu tenho uma teoria: perdemos a Copa por causa dos celulares.

Tinha jogador que tinha três. Falavam até no intervalo dos treinos. Dava status. E convulsões, é claro. E eles estavam num lugar chamado concentração, onde evitavam a entrada da gente para não perturbar os jogadores. Mas a gente ligava para os celulares deles. Só mais uma coisa: o psicólogo era engenheiro. Entendeu?

Mas, voltando ao meu-Brasil-paraguaio - como diria Samir Cury Meserani -, algumas pessoas em São Paulo já perceberam que pega mal ficar usando celular em lugares públicos e privados. É sinal de pobreza física e mental. Já chegaram à conclusão óbvia que um celular na hora da refeição é sinônimo de burrice mesmo. Como é burrice usar aquelas ostensivas e infernais maquininhas eletrônicas - agendas - para marcar, na frente de todo mundo, o telefone de sicrano, coitado, que fica ali na sua frente, em pé, com pressa, até você conseguir ligar a danada, digitar o nome dele, pedir - de novo - o telefone, errar, deletar tudo, começar de novo, e o cara ali, com o velho e bom cartão na mão. Os usuários dessas maquininhas se dividem em duas categorias. Na primeira, os 50% que já conseguiram apagar - sem querer - todos os telefones numa digitada só. A outra metade ainda vai fazer isso, mais dias, menos telefones. É uma questão de dedo mole.

Falei nos jogadores da nossa seleção. E os ministro da nossa seleção? Principalmente os da área econômica. Parece que há uma intenção deliberada de não deixar aquele mala(n) pensar. Em todas as fotos deles, lá está, ao seu lado, ou melhor, no seu ouvido, o celular. Jamais saberemos com quem ele está falando. Ou, pelo menos, ouvindo. Sabe-se lá em que língua.

Eu acho que foi o economista Roberto Campos (o Bob Fields, lembra dele?) que disse que celular é igual pênis de velho. Cada vez menor, dobrável e, na hora H, não funciona. E com capinha, eu acrescentaria.

Você pode ter certeza de que a coisa ainda vai evoluir. O relógio do cidadão será o celular do futuro. Vai ser muito engraçado. Já estou a antever o restaurante cheio de homens com gel e conversando com o relógio. A última moda. É como se ele estivesse beijando o punho. Leva na boca, leva no ouvido, leva na boca de novo, volta para o ouvido. Na hora da discussão familiar, tá vendo o ritmo boca-orelha-boca? Mas eles vão adorar. Até que um dia vão encontrar o porteiro do prédio com o relógio dependurado na orelha. E agora, o que é que eu faço?

Então ficamos assim: o chique agora é não usar celular. Àquelas pessoas que até agora se negaram a entrar na moda, meus parabéns. Foi de uma grande lucidez. Já que ninguém me liga, vou ficando por aqui. E vou continuar a usar os meus dois celulares. Afinal, sou um escritor. Pobre, como toda a minha turma. Uma turma em que todos têm celulares. E, quando funciona, a gente se liga e vai tocando a vida, louco por mais uma novidade que, tenho certeza, com que a Telefônica vai nos brindar. E eu, com as minhas economias, serei o primeiro a usar. Adoro essas maquininhas todas. Sou um pobre metido a rico.

Como o Brasil.



Texto publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 18/03/99.

17.6.05




De Repente, um Repente

Este caso aconteceu há mais ou menos uns três anos, quando nossa banda, The Dish Washers, conseguia esporadicamente tocar nos bares da cidade em troca de um couver artístico mirrado.
Naquela vez, havíamos tocado a noite toda, e acabamos de executar a última canção; Eleanor Rigby dos Beatles, cujo refrão no inglês sofrível do vocal Ronaldo tornou-se um: Ahhhh Lucaronli lonli pipou.
As perspectivas de sairmos daquela casa noturna com alguma companhia feminina, parecia cada vez mais remota. Nossa cota de cerveja já tinha estourado, e nada mais restava, a não ser nos sentarmos numa das muitas mesas desocupadas, e pedir a derradeira ``saídera``, antes de guardar nossos instrumentos.
Foi então, que Sérginho, tecladista da banda, começou a rascunhar algo num guardanapo... Escrevia e ria sozinho, nos deixando cada vez mais intrigados:

- Ô Serginho, o quê tu tá escrevendo aí ?

- Acabo de escrever uma musiquinha. Vamos pro palco tocar?

- Epa...Peraí... Sem ensaio, nem nada?

- Ah não precisa. É só vocês me seguirem. Sempre do mesmo jeito. O ritmo é como o do baião nordestino.

- Quê?? Tu enlouqueceu Serginho? Baião não é a nossa praia, o público vai nos matar.

- É só um experimento. E além do mais, o pessoal que ainda está aqui no bar, ainda não saiu por que não conseguiu se levantar. Vamos?

E lá fomos nós, sem nem ao menos ler a letra. O Sérginho parou de frente para o teclado, fez uns ajustes e começou a tocar um baião. Seguimos na medida do possível, enquanto a platéia ia aos poucos silenciando incrédula. Então Sérginho começou a cantar com uma voz desafinada e anasalada:

Meu Deus do céu, eu não sei como é que pode
tê tanta muié que fode, tê tanta muié que fode...

Meu Deus do céu, eu não sei como é que pode
tê tanta muié que fode, tê tanta muié que fode...

Como é pode, tê tantas que tão a fim,
Ma nenhuma da pra mim, ma nenhuma da pra mim.

Meu Deus do céu eu não sei como é que pode
Te tanta muié que fode ma nenhuma da pra mim.

Meu Deus do céu, se vier eu não me mixo
tem muié que faz com bicho.
tem muié que faz ca mão.

Eu não entendo, tem quem faz com objetos
Tem quem faz com o mesmo sexo
Comigo ninguém faz não...
nhão nhão nhão


Quando aquilo que ele chamava de música acabou, a platéia compacta nos observava como um bando de canibais em volta de uma expedição jesuíta. Eu me preparava para desviar da primeira garrafada que viesse em minha direção, quando as palmas das mãos de alguém soaram naquele imenso e aterrador silêncio.
E então, iniciaram-se os aplausos, primeiramente tímidos para depois virarem uma verdadeira ovação. Aplausos, aplausos, e pedidos de mais um, mais um. Extasiados por aquele sucesso inebriante, resolvemos repetir a canção já que não havia tempo de se compor nada diferente. Naquela noite, executamos a mesma canção mais umas cinco vezes.
No dia seguinte, choviam convites para tocarmos nos bares da cidade. Gravamos o repente num pequeno estúdio em um single promocional, e distribuímos em algumas rádios. Um comunicador de uma emissora fm, entediado com a vida, simpatizou com a música e a executou num sábado à noite. Pouco depois, em qualquer estação de rádio que se ligasse, lá estava aquela pavorosa música tocando sem parar.
E a situação assim perdurou por mais umas duas semanas. Quando começaram a aparecer convites para tocarmos fora do estado, os The Dish Washers subitamente se desfizeram... Os motivos foram muitos, mas talvez nenhum deles bom o suficiente. Eu, por não aguentar mais tocar a mesma canção de sempre e outra vez novamente. O Ronaldo trocou de guitarra, e com a grana extra, montou sua tão sonhada banda de metal ópera. O Sérginho frustrado por não conseguir compor um novo hit, entrou em profunda depressão, e hoje fica horas trancado no quarto fazendo variações daquela mesma maldita canção. E Gustavo, o baterista, aceitou a situação pois afinal de contas, ele não tinha talento algum.


9.6.05

Abrindo as comemorações do dia dos namorados, ou armadilha comercial, como o caro leitor preferir, publico a seguir o ``doloroso`` texto da jovem escritora carioca Ana Beatriz Guerra, depois a lírica poesia de Fernando Pessoa e para finalizar, a canção definitiva dos namorados do verdadeiro mestre dos magos Raul Seixas :





Paracetamol


Li em algum lugar que os fumantes buscam a cada tragada a dor primordial: a dor da primeira inspiração. Que sentir a fumaça queimar faringe, laringe, armazenar resíduos nos pulmões, traria a memória atávica do primeiro contato com o mundo: dor lancinante dos órgãos que nunca foram usados; dor dos sons diversos; dor da luz que ameaça por si só escancarar as pálpebras; dor do cordão cortado; dor do contato roubado da mãe. Os fumantes estariam buscando um substituto, um conforto falso e momentâneo, carinho cabendo num bastão de toxinas, carinho que rasga e se alastra, deixando para depois, talvez, futuras dores como a do corpo comendo a si mesmo.
Li em outro lugar que um espírito se prende a um corpo no momento da concepção e esse processo só tem fim nove meses depois, quando a já pessoa é cuspida para o planeta e chora, chora pelo paraíso perdido, pelo desconhecido, por tudo o que ainda vai lhe acontecer. Vida é respiração, que vem e volta, vai e cessa, para começar de novo. Mas fumantes não têm o privilégio da dor primordial. Todos sofremos a mesma, porém lidamos com ela de formas diversas. Uns fumam, outros têm apegos estranhos em relação à figura materna, planejam matá-la, mandá-la para outro continente, ou sonham com alguém que saiba bater aquele bolo...
A partir da dor primordial, tudo é possível. E aí moram as idiossincrasias humanas. Somos nossas dores. Encontramos compaixão através delas, nos sentimos um pouco mais próximos, ou usamos as dores como razão para nos separarmos e nunca mais nos encontrarmos.
Às vezes, quando me lembro que desejo filhos, fico tentando conceber a dimensão da dor de todas as mulheres que já pariram. Mulheres que perderam seus filhos, que se perderam durante o parto, ou na depressão da vida para sempre modificada, na alegria absurda de dar sentido a tudo, no amor incontido e incessante. Fico tentando imaginar se as mulheres têm algum privilégio, se neste momento desigual onde todas nos parecemos, recebemos a dádiva de conhecer os mistérios da vida e da morte, talvez, num lapso, um relâmpago na mente em meio ao sangue, à água que jorra, aos gritos do bebê. Li em algum lugar que o líquido amniótico tem composição semelhante à solução que chamamos de mar. E o que não é o mar se não um útero gigante?
Tento resgatar dentro do meu corpo lembranças vívidas, por serem lembranças da carne, e, dessa forma, somando uma com a outra, calcular o que seria a dor de uma vida. É claro que é impossível, são pensamentos vãos, mas, compondo o panorama de cada uma das pequenas dores, fico cada vez mais perplexa diante dos milagres diários. Perplexa diante de tudo o que vivi e acompanhei, perplexa também pelo que desconheço e possivelmente nunca venha a conhecer.
Lembro da dor de engolir água quando fui tentar nadar pela primeira vez; dor de furar a orelha com os primeiros brincos de borboleta; dor de cair com o estômago no chão nas brincadeiras de pique; dor de luxação; dor causada nos outros por não ser exatamente o que esperavam; dor das primeiras lágrimas derramadas por motivos egoístas; dor de decepcionar; dor de me decepcionar; dor acompanhando a primeira menstruação; dor do primeiro amor não-correspondido; dor do primeiro amor correspondido; dor da primeira penetração; dor dos desencontros; dor da falta do que respirar; dor oca da perda de entes queridos; dor de encontrar um imenso vazio em mim onde caberia o mundo inteiro; dor das ilusões perdidas; dor das pequenas mortes de todos os dias, quando os nossos sonhos se afastam um passo de nós; dor de estender a mão e não alcançar o pé, dores de mudança, dores sempre para o bem, sempre, mesmo que pareça o contrário, mesmo que pareça que vai nos levar para longe, para o outro lado. A dor faz parte da vida. É intrínseca.
[Médicos alimentam pacientes terminais com morfina, para que eles esqueçam o que é se despedir do corpo, da família, das reminiscências, tudo ao mesmo tempo e num só momento. Se entopem e se entorpecem por não desejarem dizer adeus jamais.
A dor confundida com prazer, dor que precisa de um sádico e um masoquista para existir, dor de travas no corpo, na mente, na alma. O tempo inteiro procurando algo mais pontudo, mais perfurante, para machucar e sobreviver, testar os limites da paciência, da tolerância, da irrealização. Dor asfixiante, que não cabe em lágrimas a se derramar, corrompem, parecem cortar a garganta lado a lado, atrás de um terreno menos pedregoso para deslizar em direção ao mar; criando obstáculos para que a vida se realize; inventando argumentos para atrasar a felicidade mais um pouco, só mais um pouco, porque é tão bom sofrer, tão bom pedir colo, mesmo que o colo tenha pênis e não seja ela, sequer se pareça com ela, nossa grande mal-feitora. Aquela que, num ato de loucura, resolveu nos largar aqui, nos tirar de dentro do quentinho, do escurinho, onde tudo está disponível. A dor simbiótica. A dor do útero que chora.
Mulheres talvez sejam sim privilegiadas de alguma forma, por serem lembradas regularmente que a vida se desfaz com a mesma facilidade que ela existe - um sopro de vida -, sem que isso, no entanto, invalide qualquer uma das dores que purgamos entre uma dor e outra, entre um mundo e outro, margens do rio que, inevitavelmente, chega ao mar. E, enquanto se resiste, dói mais ainda, e como gostamos, como reclamamos, como maldizemos, como blasfemamos, inventamos calúnias, mentiras para usar por cima de outras mentiras, dores somadas com outras dores, Marias das Dores, do crepúsculo à aurora sem fim. As tripas postas para fora. A ausência da beleza. Sofrimento por toda parte, nascimento, doença, velhice e morte, em qualquer direção que se olhe.
A carne guarda tudo, inclusive as dores auto-infligidas, as dores cujo causador só conhecemos olhando bem dentro do espelho, tentando resgatá-lo a fórceps antes que seja tarde demais. A dor das primeiras palavras pronunciadas; dor do primeiro mal-entendido; dor dos aprendizados insuficientes; dor dos erros constantes; dor do desespero de quem não vê.
A dor não exige antecedentes criminais, está à disposição de todos que tiveram a coragem de berrar pela primeira vez, de jogar-se aos leões, de oferecer o corpo a todas as mãos que puderem tocá-lo, de sujar sua existência com lama diáfana, de olhar diretamente para o Sol e saber, antes da última imagem, que todas as marcas, rugas, cicatrizes e sinais valeriam a pena, que toda nova célula aprenderia a carregar todos os segredos do início.
A incerteza do amanhã traduzida em novas dores, a permanência nostálgica do passado trancando dores dentro do peito, infartos do miocárdio futuros, derrames vasculares, doses cavalares; dor das opões que não marcamos no vestibular; dor do que não foi e poderia ter sido; dor do que jamais vai ser; dor da viagem que não pode ser feita; dor dos beijos que nunca serão dados; dor dos mil desejos irrealizáveis, enquanto que um, concreto, pode-se tocar com as mãos do corpo, e não as mãos da mente.
Eu te toco agora, marco na pele cada curva sua, decorando o traçado das suas sobrancelhas, o nariz que você não gosta, o movimento dos cabelos, o desenho sensual dos ombros e dos braços, e lembro de novo dela, da dor primordial, espantosamente necessária para que ambos estivéssemos aqui, desdita invariável da vida, que nos junta e nos separa com o mesmo impacto explosivo.
Te encontro aqui, te encontro do outro lado, com a mesma expressão enigmática, com os pecados pagos a chicotadas imaginárias, com a mesma dúvida se o Big Ben ocorreu, afinal.
Lembro que não sou muito diferente de você, gostamos, bem que gostamos de ser pisoteados, de bater com a cabeça na parede, de dilacerar o punho nos cacos do espelho, de comprar soco-inglês em mercado de pulgas, e de inspirar bem fundo, até dilatar por dentro e parecer que vai enxergar o fim.

Ana Beatriz Guerra




AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa





Fazendo o que o Diabo Gosta

Casamos no motel
Bem longe do altar
Lua de mercúrio fogo e mel
Não fui o seu primeiro
Você já tinha estrada
Dois filhos um travesseiro e a empregada

Um anjo embriagado
Num disco voador
Jurou que o nosso amor era pecado
Mas a história mostra
Que agente agrada a Deus
Fazendo o que o Diabo gosta

Casamos por tesão
Tesão, tesão, tesão
Bateu o terror não tem mais solução
Te entrego os meus medos
Meus erros meus segredos
Divido minhas guimbas com você

Um anjo embriagado
Num disco voador
Jurou que o nosso amor era pecado
Mas a história mostra
Que agente agrada a Deus
Fazendo o que o Diabo gosta

Quebramos nossas caras
Pra se lamber depois
Amor e ódio é o certo pra nós dois
Casamos no motel
Bem longe do altar
Lua de mercúrio fogo e mel

Raul Seixas

3.6.05



LEI DE MURPHY - APRENDENDO COM AS DIFICULDADES


`` Jamais permitirei tornar-me tão importante, tão sábio, tão imponente e tão poderoso que esqueça de como rir de mim mesmo e do meu mundo``
OG MANDINO- O Maior Vendedor do Mundo

Festa de final de ano de uma grande indústria de calçados do Vale dos Sinos- sul do país. Muita cerveja, muito whisky escocês (o ano tinha sido bom) regados a pagode, conversas entusiasmadas, e a bunda da secretária da diretoria sendo disputada pelos olhares perscrutadores dos demais colegas.

Nilmar olhava aquilo tudo com um certo estranhamento, como se aquelas pessoas que estavam ali rindo e tentando manter uma conversação civilizada, não eram as mesmas com as quais dividia seus tediosos dias, e delas não dependesse a grande estrutura que ele ajudava a administrar tão bem. Não via a hora daquilo acabar logo, para tudo então voltar finalmente ao normal.

Prodígio administrador, Nilmar vinha pouco a pouco, galgando novas posições na empresa, aonde começara como auxiliar administrativo da contabilidade, e hoje já pleiteava a vaga de gerente de logística, outrora ocupada pelo saudoso Peixoto (que Deus o tenha).

Percorria invisível por todos os ajuntamentos. Num deles, contavam as mesmas piadas sem graça do ano passado. Noutro grupinho, alguém relatava as histórias de uma viagem IN-CRÍ-VEL para São José dos Ausentes. Seu desconforto se tornava crescente e para tentar amenizar aquela angústia, Nilmar bebia cerveja. Aproximou-se de um dos colegas e pensou em um comentário que seria bastante pertinente para aquele momento. Resolveu não arriscar, e optou pelo futebol:

- Augusto! Você ficou sabendo que o Grêmio vai contratar um novo ponta esquerda?

- Mesmo? Quem?

- Er...

Branco... Nilmar esqueceu o nome da contratação que ouviu pela manhã no rádio.

- Ãh... Puxa, esqueci o nome...

- Não tem importância.

Nervoso, Nilmar encheu mais um copo de cerveja. Não podia passar pelo constrangimento de ser o primeiro a sair. O primeiro a sair, é sempre alvo da mesma piadinha impertinente:

- Comandado!

- Que horas a mulher te mandou chegar em casa?

Ele não gostava daquilo. Sabia que muito embora não estando no real ambiente de trabalho, suas ações eram estudadas mesmo que de forma inconsciente pela diretoria. Precisava agora, só tomar cuidado e o cargo de gerente de logística certamente seria seu.

As cervejas que havia tomado, começavam a pesar e pressionar sua bexiga. Tinha que ir ao reservado. Porém no salão de festas havia apenas um banheiro, obrigando os necessitados a formarem uma constrangedora fila.
E lá ficou Nilmar, olhando para a porta. Quando finalmente se abriu, Nilmar notou que o diretor da empresa, doutor Saldanha havia se colocado atrás dele.

- Por obséquio doutor Saldanha... Eu lhe cedo a vez.

- Obrigado meu rapaz, mas pode ir.

Doutor Saldanha era um homem admirável. Justo, correto, até alguém lhe pisar nos calos... Aí então era um Deus nos acuda. Demitia sem pensar duas vezes.

Nilmar abriu a braguilha e começou a urinar. Repentinamente foi tomado pela sensação eminente que iria espirrar, sem ao menos ter tempo de segurar a urina ou tapar o nariz. Explodiu então, num gigantesco espirro, que decentralizou o jato de urina da patente, e se espalhou por todo o banheiro.

Nilmar havia mijado por tudo e o próximo a entrar no banheiro era o doutor Saldanha... Tinha que limpar aquele mijo rapidamente. Seu cargo de gerente de logística estava em jogo. Procurou pelo papel higiênico, mas o rolo estava vazio. O que fazer? Sair e reclamar para o doutor Saldanha do último que utilizou o banheiro? Ele certamente iria desconfiar, ou acabaria demitindo um pobre inocente.
Mau podia acreditar que tinha tudo em suas mãos, e um simples espirro inoportuno fez com que seu caminho fosse desviado.

Mas havia sim, uma saída... Abriu a porta, e lá estava o doutor Saldanha aguardando pacientemente. Saudou-o com um aceno de cabeça pensando em como estes cumprimentos particulares são despropositados. Quando ele entrou no banheiro impecavelmente limpo. Nilmar ainda avisou:

- Doutor Saldanha, não têm papel. Vou providenciar imediatamente...

Passou invisível pelos demais colegas para pegar o papel higiênico e jogar fora aquela toalha de rosto imunda, enrolada no seu tornozelo.


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Quinta feira que vem dia 09/06/05, tem lançamento na livraria Cultura do Bourbon Shopping de Porto Alegre dos livros Como no Céu e Livro de Visitas do Fabrício Carpinejar cujo link esta ai ao lado. Recomendo devéras, e aproveito para oferecer uma provinha:


COMO NO CÉU

As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua.
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva
acalma um machucado.

As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.

Fabrício Carpinejar