27.5.05

Caros leitores,

Venho convidar a todos a passarem lá no sítio da Blocos On Line e darem uma espiadinha em um texto de autoria deste amigo que vos escreve e que foi selecionado a figurar por lá. Segue abaixo um embiagante texto do escritor Paulo Pellota:














Beber bem e bater papo são duas artes com grandes afinidades entre si. E o melhor lugar para exercitá-las é o botequim.

Há um consenso entre os grandes praticantes de que o bar, feito exclusivamente para beber e conversar, é o ambiente onde essas artes evoluem com notável fluência. Fluência que é percebida nas mesas de profissionais, gente que leva a sério 0 supremo ofício de rir e conversar.

A função social do bar é justamente liberar os espíritos e fazer aflorar as identidades a fim de facilitar a conversa. Os temas vão surgindo naturalmente e vai-se falando de tudo um pouco. Importantes decisões sobre os destinos da humanidade são tomadas. Política, futebol, discos voa- dores, o melhor chopp da cidade, tudo é discutido. Meu amigo Pérsio, competente em matéria de botequim, afirma que há nessas mesas uma fantástica cornucópia de onde brotam os mais interessantes assuntos. Médicos falam sobre direito, advogados tratam de medicina, empresários palpitam sobre música, músicos discutem política, vagabundos pontuam sobre direito do trabalho, em desordem alternada, podendo mudar o ponto de vista a qualquer momento. A lógica, a coerência, podem perfeitamente ficar do lado de fora, já que o bom papo de boteco não tem censura nem admite cobranças posteriores.

Já os amadores, que vão ao bar de vez em quando para comemorar um aumento de salário ou para falar sobre a crise, são facilmente identificáveis ela monotonia notada em suas mesas."Será que chove? Hoje está mais quente do que ontem." são as mais acaloradas discussões. 0 papo não anda, estão sempre a olhar o relógio, como questionando se deveriam estar mesmo no bar ou poderiam estar gastando seu tempo na academia ou correndo em volta do quarteirão. Se forem realmente amadores, podem questionar à vontade, mas, se por algum motivo se tornaram aprendizes, é dever lembrá-los que os exercícios físicos, hoje tão comuns para cultuar o corpo, não passam de modismos. Como tal, apresentam-se como fenômeno passageiro e, mais dia menos dia, pelo perigo que representam, serão extirpados da sociedade.

Quantas entorses, quantas lesões musculares, fraturas, distensões. Quantos infartos esses esforços violentos têm causado. O negócio é tão perigoso que se pedem diversos exames médicos antes de iniciar qualquer atividade física.

No botequim nada disso acontece. Não ha registros de mortes súbitas em mesas de bar. Muito menos se comete a indelicadeza de pedir atestado médico antes de um chopp bem tirado.

Claro que é preciso estar em forma. Tanto profissionais como aprendizes sabem que precisam eleger seus bares preferidos e freqüentá-los com assiduidade. Perseverar. Como tudo que se queira fazer bem feito, freqüentar botecos também demanda tempo, dedicação e treinamento. E no bar, é na prática do cotidiano que se aprende com freqüentadores de outras mesas. E uma alegre tarefa do grupo melhorar a atuação individual e coletiva, com a abordagem de temas originais, com a capacidade de surpreender, usando com competência e humor a liberação dos espíritos proporcionada pela atmosfera do ambiente.

Se disciplina é fundamental, também é importante que o novato reconheça que muitas vezes poderá cometer pequenos deslizes, como dar uma caminhada mais longa ou até mesmo uma corrida. Isso não deve ser motivo para pânico , principalmente se não acontecer com freqüência. No começo, isso é normal, porque o iniciante não tem o condicionamento necessário para evitar certos programas e talvez tenha dificuldade para dizer "não". No fundo, o bom mesmo é rir dessa situação e no dia seguinte compensar esse tropeço tomando algumas doses a mais com os amigos.

Os mais assíduos freqüentadores de bares têm plena consciência de que rir e conversar são importantíssimos para manter-se sempre rindo e conversando. Parece uma redundância, mas é muito mais profundo do que isso e, se houver dúvida, o tema poderá ser experimentado na próxima mesa.

0 aprendiz deve levar em conta a tradição. O hábito humano de reunir-se para conversar, beber, rir e comemorar faz parte da História do Mundo. A cerveja parece ter sido criada no antigo Egito, Noé carregou vinho na arca e produziu cerveja ao chegar no monte Ararat, Cristo consagrou o pão e o vinho como alimentos do corpo e do espírito, os vitoriosos unem-se e brindam.
*

Até na Santa Ceia todos sentaram-se à mesa e tomaram vinho — o único que não quis tomar nada e saiu mais cedo foi bem sóbrio receber os trinta dinheiros.

Não há, no entanto, menções históricas dando conta de que algum imperador, grande general, profeta ou o mais divino dos seres tenha dado uma corrida e voltado para o mesmo lugar, certo de que estava abafando.

Há que estar preparado, portanto, para a Novíssima Era que está chegando, em que homens e mulheres não discutirão se têm alguns quilos a mais ou alguns centímetros a menos na barriga. Estarão, sim, reunidos em torno de copos e garrafas, usufruindo do grande prazer de comer sem ter fome e de beber sem ter sede, de compartilhar experiências e de rir com os outros e de si mesmos.


Paulo Pellota

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21.5.05

ODE À MULHER




E das trevas fez-se a luz!!!
E do barro fez-se o homem.
E dele a mulher.
E da mulher fez-se o amor,
Assim como da morte fez-se a dor
E da tristeza o pranto,
Se és mulher és amor
E pronto!


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13.5.05

Jayme Caetano Braun- o último payador, versava a sua dor com a viola em compasso, cantava batalhas, amores, a dura lida campeira, o homem simples, o tempo, e a história missioneira.
Sua rima crua e singela, trazia a sensação mais bela, nos dava paz e conforto.
Hoje, o payador jaz morto... Mas deixou o seu legado, que ecoa no vento gelado da consciência humana e transforma esta chama na sua eterna morada.

Esta é minha homenagem, e estas são suas palavras:

PAYADA


Raízes- troncos ramagens
Ramagens- troncos raiz
Abriu-se uma cicatriz
De onde brotei na paisagem
O tempo me fez mensagem
Que os ventos pampas dirigem
Dos anseios que me afligem
De transplantar horizontes
Buscando o rumor das fontes
Pra beber água na origem.

Sobre o lombo da distância
De paragem em paragem
Fui repontando a mensagem
De bárbara ressonância
Fazendo Pátria na infância
Porque resolvi faze-la
E a liberdade sinuela
Sempre foi a estrela guia
Que o meu olhar perseguia
Como quem busca uma estrela.

Pensei chegar a alcança-la
No estágio de índio rude
Mas nunca na plenitude
Porque essa deusa baguala
Que aos andejos embuçala
Nunca ninguém alcançou
Bisneto nem bisavô
Nos entreveros mais brutos
Labareda de minutos
Que o tempo sempre apagou...

Primeiro era o campo aberto
Descampado sem divisas
Com fronteiras imprecisas
Mundo sem longe nem perto
Eu era o índio liberto
Barbaresco e peleador
Rei de mim mesmo senhor
Da natureza selvagem
-A religião da coragem
E o sol de bronze na cor.

Um dia veio o jesuíta
A este rincão do planeta
Vestindo a sotaina preta
Da catequese bendita
Foi mais do que uma visita
À minha pampa morena,
Bombeei por trás da melena
Olhos nos olhos o irmão
E gravei no coração
A santa cruz de Lorena.

Mais tarde veio mais gente
A minha terra campeira
A falange das bandeiras
Impiedosa e inclemente
Me levantei - frente a frente
E as tribos se levantaram
As várzeas se ensangüentaram
Elas que eram verdejantes
Mas eu venci os bandeirantes
Que nunca mais retornaram.

E depois vieram os Lusos
Os Negros- os Castelhanos
E nos pagos campechanos
Novas normas- novos usos
As violências- os abusos
Da Ibéria - Castela e Láscio
E rasgaram o prefácio
E mataram as plegárias
E as ânsias comunitárias
Dos irmãos de Santo Inácio

Não pude deter a vaga
De Andonegui e Barbacena
Se a história não os condena
A mancha nunca se apaga
A opressão jamais indaga
Na sua opressão mesquinha
Era meu tudo o que tinha
Era meu tudo que havia
E eu morri porque dizia
Que aquela terra era minha.

Mas o eterno não morre
Porque permaneço vivo
No lampejo primitivo
Na velha raça gaudéria
Corcoveando em cada artéria
Pela miscigenação
Na bárbara transfusão
Com os andarengos da Ibéria

Fui sempre aquilo que sou
Sou sempre aquilo que fui
Porque a vida não dilui
O que a mãe terra gerou
Sou o brasedo que ficou
E aceso permaneceu
O gaúcho que cresceu
Junto aos fortins de combate
E já estava tomando mate
Quando a Pátria amanheceu.

E assim- crescendo ao relento
Criado longe do pai
Junto ao mar doce- Uruguay
O rio do meu nascimento
Soldado sem regimento
No quartel da imensidade
Um dia me deu vontade
Deixei crescer toda a crina
E me amasiei com uma china
Que chamei de liberdade.

Por mais de trezentos anos
Fui pastor e sentinela
Na linha Verde-Amarela
Peleando com castelhanos
Gravando com `` los hermaños``
A epopéia do fronteiro
Poeta- cantor e guerreiro
Da América que nascia
Na bendita teimosia
De continuar brasileiro.

Com Bento em mil entreveros
Em barbarescos ensaios
Depois contra os Paraguaios
Em Humaitá e Toneleros
Andei em Monte Caseros
Paissandu e Peribebuy
Passo da Pátria, Avay
Longe do meu território
E fui ordenança de Osório
Nos campos de Tuyuty.

Depois em noventa e três
Andei peleando outra vez
Sem soldo no fim do mês
Porquê pelear era lindo
As espadas retinindo
Chapéu batido na copa
Como carneador de tropa
Nas forças de Gomercindo.

Mais adiante em vinte e três
E vinte e quatro de novo
É o destino do meu povo
Que assim altivo me fez
A marca da intrepidez
Deste velho território
Ante o bárbaro ostensório
Dos lenços rubros e brancos
Acompanhei os arrancos
Do velho Flores e Honório.

Chimangos e Maragatos
Farrapos- Federalistas
Caminhadas e conquistas
Que a história guarda em seus fatos
Os tauras intemeratos
De adaga e pistola à cintura
Não há ninguém que desminta
Nossa estirpe de raiz
Que se adonou da matriz
Nas arrancadas de trinta.

Depois vesti a verde-oliva
Desta vez como voluntário
No corpo expedicionário
Formando uma comitiva
Da nossa indiada nativa
Pra responder um libelo
E o pendão Verde-Amarelo
No outro lado do mundo
Cravei bem forte e bem fundo
No velho Monte Castelo.

Hoje o tempo demudado
Meu coração continua
O mesmo tigre charrua
Das andanças do passado
Sempre de pingo encilhado
Bombeando pampa e coxilha
A Pátria é minha família
Não há Brasil sem Rio Grande
E nem tirano que mande
Na alma dum Farroupilha!

Jayme Caetano Braum

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8.5.05

Restaurado Silêncio





Já não ouço mais os lamentos sensoriais
Ou a ladainha que acordou a vizinha
E a baixaria que rolou outro dia...

Aquela ferida escondida, pois bem, cicatrizou...
Aquele olho roxo por baixo do rayban,
também sarou...

Renovei todo o enxoval rasgado
Comprei de novo o Led riscado
Colei as fotos recortadas das antigas namoradas

Limpei a casa
Queimei vestígios
Finalmente paz dos litígios!

Refiz tudo o que se desfez
Decidi que agora sim,
tô pronto!
(outra vez)

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