29.4.05

Texto do escritor Antonio Maria:









Canção de Fim de Ano

Que dia maravilhoso haverá, aquele em que for possível telefonar para os melhores amigos e dizer-lhes que houve um ligeiro engano, que não teria sido preciso escrever coisa alguma? E que, dali em diante, nada mais se escreverá, a não ser os nomes e os números necessários das pessoas e das coisas.

Que boa impressão a de ser-se uma parte do coral, um grito em meio às vozes que clamam o gol, um gemido noturno, entre os muitos e repetidos gemidos, na imensa e fria sala do hospital de indigentes! E que absurda e amiga paz a de saber-se que a lua e a flor, o rio e a queixa, nada foi mais lua ou flor, mais rio ou mais queixa, por causa do que se disse. A própria mulher foi sempre bela ou fêmea, antes e a salvo da minha poesia e das minhas mãos!

Vivi entre o que viveu. Fui multidão e povo, um lugar ocupado, uma rescendência de suor, uma voz que pediu licença, um olhar que mendigou prazeres e uma parte milesimal dos pés que povoaram. Das minhas mãos, prefiro não contar, a não ser na custosa confissão de que foram mãos vadias. De bem, fizeram a bênção e o carinho... mas o carinho é vadio e, em toda vez que se aparta de Deus, é proibido. Prevalece, portanto, o existente da multidão, o corista, aquele que não foi o solista de beleza alguma e que, por isso, se sente irresponsabilizado dos erros de maneira especial e destacada!

Sou o rosto fora de foco de uma fotografia em que dezenas de pessoas aparecem em segundo plano. Posso ter ou não a barba crescida; posso trazer ou não uma flor no peito; posso chorar até, e ninguém botará reparo. A fotografia passará de mão em mão e todos os que comigo estiverem desfocados só serão odiados quando não houver mais nada a odiar em primeiro plano.

Só assim é — se o homem real e constante — o que sente o gosto e o cheiro da vida. A maioria se evade de sua condição real, para fazer ou imitar o êxito. Entretanto, só o êxito casual é verdadeiro. Exemplo de êxito casual: a beleza. Exemplo de beleza: a mulher bela. Uma mulher sentou-se à minha frente. Tinha luz própria... E tanta, que um fanal de evidente claridade iluminou minhas mãos, quando em gestos inúteis (as mãos) procuravam supor os seus múltiplos encantos. Mas não me quero perder além do homem real e constante, portanto, desenvolto.

Só farei, sem pudor e remorso, aquilo que fizer com desenvoltura. Principalmente, a poesia e o amor. O amor ou é desacanhado, destro, irrefletido... ou é suor. A poesia também. Por isso volta-se a multidão, vivem-se as imunidades corais e espera-se a vinda casual da poesia e do amor.

Sou o homem real, que sua, que mente, que disfarça, que teme, que inveja e cobiça. Tive e tenho os meus momentos de suicida. Não gosto que me conheçam aquém e além de um homem constantemente exposto ao erro e ao crime. É dever do ser humano pressentir em seu semelhante um sem-número de intimidades inconfessáveis. O grande e verdadeiro amor ao próximo é aquele que ama os erros mostrados e pressupostos.

Além da verdade, só existe a multidão, que exime o homem das proclamações e o ampara das conseqüências de sua coragem. Depois de cumprida a Verdade, ter-se-á conquistado o silêncio. "O silêncio alcançado à custa de sempre dizer a mesma coisa" (João Cabral de Melo Neto).

Só creio em dois estados de lucidez: o dos bêbados e dos poetas. Ambos são negados. Mas essa negação ainda não é a definitiva. Lucidez não é, por exemplo, comprar-se uma vitrola por cem dólares e se vendê-la por vinte contos. Isto seria melhor chamado de "paciência"... ou "organização"... ou ainda "paciência organizada". Lucidez não é ainda ir-se hoje para Brasília e voltar-se, daqui a três anos, com cem milhões. A isto eu chamaria de "disciplina para fazer o fácil". A grande lucidez dos poetas estaria, por exemplo, neste verso de Fernando Pessoa: "Em tudo quanto olhei, fiquei em parte". A lucidez dos bêbados é difícil de defender, porque existem mil bêbados diferentes na humanidade. Mil que partem de dois: o bom e o mau. Ambos são lúcidos e, se um desagrada, é porque sua natureza repele o estado angelical e luzente da bebedice.

O conhecimento incessante da verdade faz com que o homem caminhe para o anjo. Chegarão primeiro os que mais depressa conheceram ao seu semelhante, tanto quanto a si mesmo. Nunca foi impossível o exato conhecimento próprio. É necessária, porém, a coragem bastante, para que cada qual se veja e se pegue, se espie e se apalpe, em cada um dos seus mais íntimos espaços físicos e morais. Que as constantes feiúras a encontrar não nos retraia os olhos (no caso, o sentir) e as mãos. Depois, será mais fácil conhecer-se o próximo. E depois, então, mesmo que se minta, só se saberá da utilidade e do consolo da verdade. Faltará ânimo para o fingimento e a fuga, quando acreditarmos em que ninguém engana ninguém e em que somos capazes de conhecer o próximo, desde o instante inicial do primeiro conhecimento.

A sintomatologia do mal é evidente e constante. O homem mau ri errado. Por isso, deve-se viver em multidão. Falar e rir em coro, andar e parar em batalhões. Viver entre os que, simplesmente, estiverem vivendo. A vida coral nos alivia da obrigação do êxito, do êxito que é casual (e verdadeiro) ou é fabricado e cínico. Desconfiai dos feitos que são repetidamente comemorados com jantares e missas de ação de graças!

É esta uma simples canção de fim de ano. Escrevia, confessando-me e comprometendo-me em cada uma das minhas pequenas descobertas. Se não atingi, rondei mais das vezes a insolente verdade dos homens e das coisas. Em vez disso, escreveria uma crônica de Natal... Mas, em tudo o que eu dissesse do Nascimento de Cristo e fraternidade humana, correria o erro constante de repetir: "Natal, Natal, bimbalham os sinos...".
14/12/1956


Antônio Maria

Marcadores:

22.4.05

Na espera











Sempre esperamos algo da vida... Esperamos decisões, acontecimentos, amores, reconhecimento, vingança... Esperamos recuperação, cooperação, compreensão, promoção... Esperamos de um tudo, porque nossa natureza não vive o instante e sim, de expectativas.
Temos consciência plena de nossa finitude. Porém, não conseguimos conceber que o momento passado, foi o momento alcançado. Depositamos todas nossas fichas na aposta que o futuro certamente nos reservará algo melhor. E assim, ficamos prisioneiros naquele espaço de tempo indefinido, olhando para a beleza do horizonte inalcançável, enquanto nossos pés descansam sobre verdejantes prados. Não valorizamos nossas pequenas conquistas.
Há também quem acredite, que não se tem tempo a perder. Passam a vida filtrando o que pode ou não ser aproveitável. Descartam tudo o que se desvia; o trivial. E na pressa por viver, atropelam amigos, família, e quem mais cruzar o caminho. Chupam lexotan como bala, e nem assim adianta... A sensação de estar correndo atrás da máquina jamais cessa.
Derivativa da espera, a esperança serve como lenitivo da angústia causada pelas incertezas de nosso destino. Esperança, é o nome que se dá a probabilidade do irreal, ou do irrealizável e é proporcional às nossas necessidades. E ela está aí, dentro de cada um de nós, tão vital quanto um coração.
G.W. Bush têm a esperança de livrar o mundo dos inimigos da nação norte americana, meu vizinho têm esperanças de um dia tocar bem bateria, eu tenho esperanças de fazer aquela tão sonhada viagem pra Fernando de Noronha, e o povo brasileiro... Ãããh... Melhor deixar pra lá.
Como diz o ditado popular: - ´´ Quem tem esperança, tem paciência``.

 Paciência constitui uma das seis perfeições humanas para os princípios budistas. Ela torna qualquer espera menos angustiante, menos aflitiva; e nos mantém firmes, numa espécie de standby perceptivo. Paciência, é o que impede a espera de tornar-se desesperante.
Nossa paciência é constantemente testada. Cada vez que o governo anuncia um pacote de aumentos tarifários, cada vez que alguém te fecha no trânsito, cada vez que você liga para um serviço de atendimento ao cliente, ou o grupo É o Tchan lança um novo CD; seu corpo ativa a paciência, impedindo que se perca a razão.
Você gostaria de saber o limite da sua paciência? Pois então, vá num supermercado lotado em um sábado a tarde. Se você conseguir suportar por mais de 2 minutos lá onde a verdadeira natureza humana se revela, considere-se sereno como uma rocha. Porém, o Ministério da Saúde adverte, esta prática pode provocar o pecado da ira, condenando assim sua alma a naufragar eternamente no Éstige da danação.
Mas nem toda espera exige paciência ou nos leva ao desespero. Algumas esperas, podem ser tão ou mais prazerosas quanto os objetivos pretendidos. Numa das imensas filas de atrações da Disney, Leonardo e Wilma se conheceram e conversaram animadamente. No maior engarrafamento da história de São Paulo, Bernardete cantou com o rádio What a Wonderful World em dueto com Louis Armstrong. Nas filas bancárias, li o visionário romance Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Numa prainha de Santa Catarina, seu Mario, pescador experiente, aguardou o dia passar, olhando para a imensa grandeza do mar tomando uma cerveja gelada.
Se nos dermos conta que a vida, é uma longa espera entre o nascer e morrer, talvez tenhamos a real percepção de que nosso tempo é transitório, e talvez possamos nos dar conta que por mais que nos angustie, esta espera pode ser bastante divertida e proveitosa.
Com exceção é claro, daquele sábado a tarde no supermercado...

Marcadores:

15.4.05


Augusto dos Anjos, poeta capixaba nascido em 1884, destilava em vida seus poemas causticantes publicando um único e definitivo livro com o título de EU em 1912, como podemos perceber nestas pequenas amostras:





A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!


Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...


Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.







Versos Íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera-
foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
mora, entre as feras, sente inevitável
necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
a mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
apedreja essa mão vil que te afaga,
escarra nessa boca que te beija!





Faleceu em 1914 na cidade de Leopoldina-MG. Diz a lenda que quando ocorreu seu falecimento, sua mulher, dona Ester teria corrido aos gritos pela cidade anunciando: ``Morreu o magro, morreu Augusto, não sei se de tuberculose ou de susto``.
Pois Augusto do Anjos, teria 32 anos depois, se manifestado nesta mesma cidade com os versos psicografados em sessão pública pelo notório médium espírita Fransisco Cândido Xavier, o Chico Xavier.
Abstraindo-se qualquer crença, fica aqui o registro impressionante, curioso ou herético, da passagem com suposta autoria deste nosso grande poeta brasileiro:


Aos Investigadores da Verdade

Debalde procurais a alma divina
No acervo de bactérias e de humores,
No banquete dos vermes gozadores
Que o processo anatômico examina.

Prisioneiros do cálcio e da albumina,
Mergulhados no pântano das dores,
Sois, ainda, veros sofredores,
Vencendo a noite em sombra, sangue e ruína.

Findo o baile macabro dos instintos,
No cárcere trevoso dos helmintos,
Voltareis à verdade augusta e forte!

E, vencidos no horror do último cerco,
Encontrareis no túmulo de esterco
A claridade angélica da morte!...

Marcadores:

8.4.05

A rEevolução do Homem











Quando três gaúchos se reúnem numa roda de chimarrão, até as corujas silenciam para escutar a conversa. Uma fogueira no centro, lambendo a escuridão da noite que serve como teto amplo desta vasta querência terrena.

Os três, mateavam falavam e riam despreocupados com a lida do campo, até que Anastácio, vivente gordo e teatino, que andava afastado dali havia mais de ano pergunta:

- Mas tchê! E que fim levou o compadre Crescêncio?

Subitamente os outro dois estancaram. Congelaram. Murcharam o riso que corria frouxo nas faces. Anastácio estranha aquela reação e insiste:

- Que foi? Vão me dizer que aconteceu uma desgraça?

- Pior...- Respondeu Tobino

- Então o Crescêncio casou com uma argentina?

- Quem déra...

- Mas antão conta tchê!

- O Crescêncio faz uns seis meses, foi até a capital cuidar dos cavalos do patrão pra aquela exposição... Como é mesmo o nome da exposição Juvêncio?

- Expointer.- respondeu, fazendo roncar a bomba do mate.

- Isso Expointer!

- E o que têm de mais compadre Tobino?

- Acontece que o Crescêncio conheceu por lá uma china, linda uma barbaridade, de cabeleira loira e cheia das idéia esdrúxula. Pois não é que o Crescêncio se enrabichou pela tipa? Até pensei que ia ficar por lá mesmo, quando enfim, acabou voltando...

- Voltou mas não era o mesmo- acrescentou Juvêncio enchendo a cuia de água e passando o mate adiante.

- Como assim?

- Ele diz que virou mé...mét-métro... o quê mesmo Juvêncio?

- ... Sexuali! Metrosexuali.

- Tchê! O compadre Crescêncio bicharóca??

- Não é homisexual Anastácio!! É metrosexuali.

- Mas e tem deferença? Que diabo é isso?

- O Crescêncio diz que anda mais sensível e cosa e tal, toma banho todo dia, se barbeia, põe prefume...

- Mas então ele só deixou de ser porco!

- Não compadre. Metrosexuali é quando o índio coloca botox no rosto...

- BOSTOX??

- Botox! A cara fica esticada que é uma barbaridade. Parece até camisa bem passada.

- Cos de lôco. E o que mais?

- Despues o Crescêncio fez chapinha nas crina da égua Mafalda.

- Não!

- Mandou um tal de Clodovil, costureiro lá do centro do país fazer umas bombacha verde fosforescente e cheia de enfeite...

- Sacrilégio!

- Semana passada no restaurante da dona Zefa, pediu mocotó light.

- Má que barbaridade!

- Meu Deus!

- Pos é...

Anastácio deu uma longa tragada no palheiro. Contemplou a triste figura de seus dois sorumbáticos amigos. Pensou nos pormenores da vida... Pensou nos aviões que passavam encima de suas cabeças e nos cabos telefônicos que correm lá embaixo no solo. Pensou nas ondas de rádio que passeiam invisíveis no ar, vibradores elétricos, sangrentos noticiários televisivos, na dança do maxixe (um homem no meio com duas mulheres fazendo o sanduíche)....

Pensou nas emanações resíduo industriais, no efeito estufa, na extinção do macaco bugio e agora neste novo homem metrosexual. Levantou-se de pronto e gritou:

- Tchê! Aperpara os armamento que a tal modernidade tá vindo e já levou um de nós!

Marcadores:

1.4.05

Alguns textos do poeta e escritor Fabricio Carpinejar. O link da página está ao lado:












INFÂNCIA DESINVENTADA

Eu confiava em meus irmãos. Podiam estar mentindo, mas confiava. O mentiroso apenas quer convencer a platéia de suas invenções. É o último a acreditar. O mentiroso é generoso - mente pelos outros, não para si. Meu irmão mais velho não conseguia dar conta sozinho de sua idéias. Escavei durante uma semana o quintal porque ele argumentava que do buraco poderia enxergar o Japão. Perdi três sessões da tarde. Saía da aula correndo para prosseguir a investigação psicológica do subsolo. O Japão não vinha e eu estava todo esfolado e esfarinhado de lama. Quando desisti, ele arregalou os ombros e falou com arrogância: "que pena, mais um pouquinho e poderia conversar com os homens de olhos puxados, andando de cabeça para baixo". Eu era dois anos mais novo. Em uma família grande, alguém sempre será o funcionário público dentro de casa, a pagar banco, mico e receber as visitas no guichê da mesa da sala. Costuma ser o caçula. Sobrou para mim. Nem aí, pois não me restava razão para discordar do meu início, muito menos do meu fim. A gente torcia para que os mais velhos casassem logo, para ganhar um quarto único. Os irmãos festejaram a saída da irmã que fugiu com o namorado enquanto os pais gritavam e amaldiçoavam a adolescência. Queria um quarto sozinho para colar cartazes na porta do jeito torto das oficinas de carro. Desejava ser mecânico quando pequeno para expor figurinhas enormes de mulheres peladas, peludas, precárias. Pensar em dispor de um armário inteiro para minhas roupas barulhava a boca, os dentes disputavam pegas. Passei a infância com duas gavetas, um degrau da estante de livros e um abajur. Não conheci mala, passaporte e tirei a identidade aos 19 anos. O meu irmão mais velho gostava de mistérios, de provocar mistérios. Uma noite me acordou com uma lanterna. Deviam ser umas 4h. O relógio ainda sentia cólicas. Botou aquele facho preguiçoso na cara e disse: "vem, temos uma missão". Eu não penso ao acordar e fui. Pediu antes que pegasse todos os meus bonecos. "Todos", advertiu. Eu amontei os playmobil no casaco, receoso. Tinha sido o presente mais caro que recebi. Não emprestava a ninguém, nem levava para a escola para evitar o 'deixa ver' dos colegas e o 'me devolve' dos meus medos. Pulamos a janela. Ele havia deixado uma escada de sobreaviso. O irmão estava meio alterado, mal contendo a euforia. Mostrou um livro dos incas e relatou que as pessoas enterradas cresciam as unhas e os cabelos e voltavam mais fortes, sem estômago para envelhecer. Bocejava a falta de café. Pegou uma pá e foi abrindo um sulco imenso na horta, pouco se importando com as alfaces e as hortaliças. Fez uma sujeira sem tamanho, que a mãe incriminaria os gatos. Ajudava de colher, por simpatia às causas estranhas. "Agora põe", ele me orientou. "Põe o quê?", perguntei, já temendo suas loucuras e de me enfiar naquela covinha como quem coloca uma pantufa.
- Os bonecos!
- Não, não.
- Eles vão ficar fortes, de unhas e cabelos compridos e vamos buscá-los daqui a exatamente três meses.
Sua força física me fez acreditar. Enrolei-os em um saco com farelos de pão e larguei na terra, fechada com esmero de um cofre. Meu irmão desenhou um mapa para localizar os guerreiros. Eu chorei devagar para não atrapalhar a chegada de meu sono. Era verão, as aulas terminaram e voamos para praia. Na volta, peguei o mapa com a letra emendada e daltônica e parti para a horta. Desapareceu a horta e não culparia a neblina. O pai aproveitou a viagem para cumprir a reforma prometida há décadas e cimentou o terreno entre o abacateiro e a ameixeira. Passei a brincar com minha ausência, imaginando que um dia os cabelos e as unhas dos bonecos abririam o solo em um terremoto. Dos meus 32 anos, observo os mínimos movimentos do pátio com atenção e expectativa. O pátio de minha infância ainda vai enfartar.

Fabrício Carpinejar





EDUCADO PARA NÃO FALAR

Não importava se tinha razão, devia me calar. No meu tempo, ser educado era ficar em silêncio. Na mesa, não podia emitir som que não fosse da natureza do garfo e da faca. Criança aceitava, não falava. Como um bicho doméstico, um galo, um cachorro, um gato, um canário belga. Encabulava quando raspava a louça, arranhava as rodas ao estacionar no meio-fio do prato. Meu pai falava sem parar dos negócios, dos vizinhos, do futebol e eu escutava com continência e louvor. Nunca me passou pelos ouvidos nenhuma pergunta inteligente para fazer, até porque as perguntas inteligentes surgem das bobagens e não corria riscos. Se as conversas tivessem sido gravadas na época, descobriria que não apareci na própria infância. Entrava com um "obrigado" e saía no "com licença". Não questionava os hábitos, preocupado em me ver livre o mais rápido possível daquela cena. Não sabia como viver para me sentir morto. Não sabia como morrer para me sentir vivo. Meus bolsos cheios de bolas de gude para acompanhar as mãos. Os bolsos do meu pai cheios de chaves para desafiar as mãos. Os bolsos de minha mãe cheios de pedras do terço para esquecer as mãos. A sobremesa era sagu ou arroz de leite, que comia com vagar e ódio, já que consistia na mesma merenda da escola. Passava o dia comendo sagu ou arroz de leite. A canela em cima do doce me arrepiava de careta, emburricava a respiração. Me censurava antes da censura, me proibia antes da negação, me cavava antes de ser enterrado. Pensativo como quem se penteia no espelho. Prestativo como quem tem culpa por crescer. Nas saídas em família, permanecia igualmente calado, omisso, aceitando que as pessoas secassem seus dedos no meu rosto em cada encontro. Quando recebia um elogio público de comportado, o pai sorria, a mãe sorria, e bem que tentava sorrir, mas os dentes eram de leite e logo cairiam. Nunca levantei a voz. Falava para dentro, com a cabeça inclinada de cavalo cansado. Tinha serenidade porque não encontrava outro sentimento para colocar em seu lugar. Não havia estômago para chegar ao fim da esperança. Não estava escuro para me defender com vela, muito menos claro para procurar sombras. Conhecia de cor o ato de contrição, apesar da dificuldade de inventar pecados. A humildade lembrava covardia, o que explica minha vontade insana de fazer calar esse tempo, o meu tempo de camisa fechada até o último botão.

Fabrício Carpinejar





SOLIDÃO NÃO É PREJUDICIAL À SAÚDE

De todas as mesas postas, a do café da manhã é a que mais me influencia. Ser o último a levantar, as migalhas denunciando a família na toalha. Varrer o chão de linho com as mãos. O rosto inchado, aos poucos desinflando. A cozinha parada como nata. Escolher entre o mel e a geléia e não errar em nenhuma das decisões, dourar o pão sem pensar em nada, nadificar o pão. Tomar um gole de café forte como quem engole a luz. Barulhar o leite. O som do leite na garganta já é a voz querendo sair. O café da manhã torna-se a única refeição que não me sinto sozinho desacompanhado.

Não sou daqueles que vê alguém isolado e pensa que está infeliz, exilado, apartado da sociedade. Se a pessoa persiste fora do grupo numa festa, no trabalho, numa poltrona, de repente está alegre consigo mesma. Alegre com sua solidão. Há uma necessidade cultural de puxar conversa com quem está calado. Como se a conversa fosse companhia. Como se falar fosse um favor. Há a necessidade cultural de criticar quem mora com independência, como se fosse falta de opção. Há a necessidade cultural de chamar de coitado ou coitada quem não depende de um telefone para levantar os braços. Há a necessidade cultural de condenar a solteira e logo deduzir que não arrumou namorado por descrédito pessoal. E será que não é escolha? Na tradição familiar, as tias sofriam o maior dos preconceitos. Só viravam tias por incompetência, caso não casassem. Há uma necessidade cultural de chamar para se divertir um filho que lê um livro no quarto. Será que aquilo também não é diversão? Escutei muito: 'vá brincar lá fora, tem sol'. Dentro não pode ter sol? Duvido sim dos que não ficam um pouco em si, mergulhados, imersos, centrados, costurando as palavras com os cílios da agulha, tramando uma figura no pano de prato, uma figura que nunca terá legenda. Os pensamentos conversam quando paramos de ouvi-los. Cada um é seu próprio amigo em segredo. Solitário, respira-se a medicação do verde, limpa-se os óculos na camisa e sopra-se as lentes. Não é ruim querer ficar em seu canto, com seus hábitos, alargando os chinelos com o uso e desabotoando a boca com chocolate. Não se enxergar como a parte ofendida. Não ser refém do movimento para circular o sangue. O respeito não chega com a cor dos cabelos. A mata fechada tem sua clareira no solo. Assim é possível se preparar para amar mais o que não está na gente. Nem tudo que é par é completo.

Fabrício Carpinejar





BRINQUEDOS PELA CASA

Não tomei cerveja com o meu pai. Não conversei sobre mulheres com o meu pai. Não fui ao cinema com o meu pai. Não visitamos a Expointer. O máximo de aventura que enfrentamos juntos foi quando ele estacionava em local proibido na rodoviária ao pegar os jornais e me deixava esperando no carro. Suportava a seqüência de tormentos: as buzinadas de quem vinha atrás, o pisca ligado eternamente e o pavor da multa do guardinha. Não tive nenhum papo adulto ou cabeça com ele. Ele não me indicou caminhos, não reprimiu escolhas. Não assinava meu boletim. Não autorizava minhas viagens escolares. Não me ensinou história, literatura, português. Não me explicou o sexo, a única vez que chegamos perto do assunto foi quando comentei que seria pai e já era tarde demais. Ele saiu cedo de casa (ao menos para mim), quando tinha oito anos. Não joguei futebol com meu pai e seus colegas contaram que atuava de centroavante. Queria ter jogado ao lado dele, mesmo que seja para reclamar da falta de passe. Ele escrevia muito e o escritório vivia trancado, impraticável para corridas e pega-pega entre os irmãos. Não podíamos entrar pela frente da residência. É óbvio que arrumava uma escada para espiar o que ele anotava pela janela. É óbvio que não enxergava nada de diferente.

Quando caminhava pela calçada, meu pai andava com as mãos atrás. Como é sábio andar com as mãos atrás! Tudo o que falam delem, eu paro para escutar como quem necessita reconstituir a vida que não teve. Amigos, inimigos, amores e desamores. Ouço qualquer história dele com ardor e paciência. Compraria histórias e palavras de meu pai. Meu pai é uma agenda que não foi usada. Por isso, não reclamo quando recolho os brinquedos de meus filhos pelos corredores. A maioria xinga a bagunça, não eu. Eu me alegro. Posso estar cansado, acabado, sem reservas e arrecadarei um por um dos brinquedos com dedicação. É noite alta, vou recolhendo os destroços e colocando os bonecos na prateleira. Faço um altar, distribuindo os anjos de madeira, de palha e de pano nos degraus das arquibancadas. Dobro as roupas nas gavetas. Organizo os carrinhos, sou capaz de escutar as vozes dos livros, esbarro em algum brinquedo eletrônico que quase acorda a vizinhança. Às vezes me perco em admiração pelos filhos. Entro em um transe, acionado por uma expressão nova, um fraseado diferente, uma pergunta esperta. Permaneço quietinho diante deles, mexo seus cabelos, como que colorindo desenhos dentro dos traços. Eles pensam que estou distraído. Ah se soubessem que presto atenção, tanta atenção que me disperso de mim. Só neles. Ausente enfim de mim.

Fabrício Carpinejar

Marcadores: