24.3.05

CHUTEIRAS DA DISCÓRDIA












- Manhê, onde estão minhas chuteiras de futebol??
- Oras Luís Antônio, estão no seu armário...
- Não estão!
- Então não sei pombas!
- Já procurei por tudo. Garanto que isso têm o dedo da Jacira no meio. Empregada tem o dom de pôr as coisas nos lugares mais improváveis possíveis. Deixe-me ver...Chuteria embaixo da cama. Não tá. Chuteria no varal. Não. Chuteira na prateleira. Também não. Chuteira na geladeira. Não , não e não. Manhê, não estou achando onde a Jacira enfiou minhas chuteiras! Te garanto que ela esconde para depois ficar rindo na casa dela, imaginando eu, procurando por todos os cantos.
...
- Achou Luís Antônio?
- Não! E eu vou matar a Jacira! Primeiro eu vou amarra-la numa cadeira, amordaça-la com o pano de chão. Depois vou torturá-la com prendedores de roupa, grudados em todo seu corpo. Vou faze-la perder a novela das 8, quebrar aquele disco do Frank Aguiar, rasgar a foto do Reynaldo Gianechini, e daí eu vou...
- Para com isso Luís Antônio, que horror..
- A Jacira vai ver só.
- Luís Antônio, seu irmão chegou em casa. Por que você não pergunta pra ele?
- Paulo Augusto, você viu onde a Jacira enfiou minhas chuteiras de futebol?
- Eu peguei elas emprestadas.
- Há bom... Então tá...

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17.3.05

Pois segue o instigante conto de Daniel Galera que esta incluso no livro Dentes Guardados da editora Livros do Mal:








A ESCRAVA BRANCA

Decidi que o que eu precisava era de uma escrava branca. Botei um anúncio no jornal:

PROCURA-SE: ESCRAVA BRANCA. Mulher jovem, muito bonita, interessada em obter moradia, conforto e sustento geral em troca de presença permanente em casa e favores sexuais irrestritos. Magra, levemente fornida, e com uma excelente coluna vertebral. Nível cultural mediano ou elevado. Dotes culinários e musicais serão altamente apreciados. Período de avaliação de 6 meses, possível estendimento para contrato permanente. Interessadas mandar e-mail com foto e descrição pessoal para...

Passaram três dias e comecei a suspeitar que ia precisar pagar um segundo anúncio na semana seguinte. Mas no quarto dia recebi um e-mail. Elise, vinte anos. Mandou uma foto de corpo inteiro. Tinha cabelos compridos, castanho ondulados. Nariz expressivo e olhos fundos, azul-esverdeados. Lábios de grossura média, com um lindo desenho. Aparentemente bons peitos, bunda, e coluna. Mas fotos são traiçoeiras, podem enganar. Segundo grau completo, um semestre de Jornalismo. Hm.
Entrei em contato e marquei entrevista pra manhã seguinte. Ela apareceu dez minutos adiantada. Tinha a minha altura e maneiras cordiais. Fiz minha explanação.
É o seguinte, Elise: tu mora aqui comigo. Vai ter um quarto só pra ti, muito embora possamos prever que vai passar mais tempo no meu quarto. Vai ter roupas, comida, cama, televisão e internet com moderação, além de uma vasta biblioteca com a qual se ocupar. Em troca, quero ser servido. Se eu quiser um boquete, tu faz um boquete. Se eu quiser uma xícara de café, tu me traz um café. Se eu quiser uma massagem nas bolas, tu me faz uma massagem nas bolas. Esse tipo de coisa que escravas brancas fazem. Não pretendo abusar. Vou estar mais presente à noite e nos fins-de-semana. Não tem obrigação de servir meus amigos nem nada assim. Sou o patrão exclusivo. Quando eu estou ausente, a casa é sua. Vou providenciar todo o conforto possível, pra mim e pra ti também. Respeitando é claro, a devida hierarquia. Eu mando, tu obedece.
Ela somente acenou a cabeça, positivamente. De perto, ela era mesmo mais bonita do que na foto que mandou anexado ao e-mail. Pedi pra ela tirar a roupa pra eu dar uma conferida. Ela tirou, sem nenhuma vergonha visível. Era deslumbrante. Magra mas recheada nos pontos ideais, espáduas vigorosas, ombros elevados, boa proporção de tronco e membros. E eu nunca tinha visto uma lombar tão bem articulada, com curvatura e composição muscular impecáveis.
Negócio fechado. Ela deu um sorrisinho bem de canto e começou a fazer algumas perguntas práticas, tipo quando se mudar, onde ela ia ficar etc. Expliquei tudo.
Elise nasceu para ser uma escrava branca. Tinha a dose certa de iniciativa, em poucos dias estava muito bem familiarizada com minhas preferências e sabia fazer um ótimo café. Mandei instalar uma banheira em casa. Pedi que ela sempre me esperasse dentro da banheira quente à noite, quando eu chegava em casa do trabalho. Eu me jogava ali e ficava uma meia hora descarregando as tensões do dia. Elise me dava um banho e deixava -se abraçar dentro d´água. Era tudo que eu precisava depois de oito horas sentado na frente de um computador, forçando as costas numa cedira bagaceira e respirando o ar viciado do ar-condicionado central da empresa. Eu jantava e lia na cama, com ela do meu lado, fazendo toda sorte de pequenos favores, como trocar a fita no videocassete ou botar colheradas de comida na minha boca. Eu gostava de colocar ela debaixo das cobertas comigo, sentir sua pele extraordinariamente macia e sue hálito no meu pescoço. Quanto ao sexo, eu gostava principalmente por trás, onde tinha vista de sua coluna vertebral primorosa e da televisão ao mesmo tempo. Ela também parecia gostar da televisão na hora do sexo. Eu gosto, não pelos programas ou pelo som, mas pela luz. Meu ambiente predileto para fornicar sempre foi um quarto iluminado pela luz de um aparelho de tv. Ela soube captar isso sem que eu nunca precisasse dizer. E soube também compreender que nada me faz mais feliz do que uma boa chupada. Nisso aprendeu a tomar iniciativas. Certos dias acordei com ela escorregando pra baixo do meu cobertor, numa inesperada felação matinal.
Mas as vezes ela tinha os momentos dela. Ficava introspectiva e executava suas funções com certa má-vontade. Eu nunca a censurei nesses períodos. Ela era normalmente tão graciosa, conveniente e solícita que me sentia na obrigação de concedê-la prazos de reclusão e independência. Nessas ocasiões ela ficava no quarto dela, fechada, escutando música e, principalmente, lendo. Pelo combinado, eu poderia exigir que ela saísse do quarto e viesse me bolinar ou algo assim, mas eu nunca usei meus direitos para interferir em seus momentos privados. Ela parecia perceber isso, ficava grata, o que se traduzia numa devoção cada dia mais espontânea.
Três meses com a Elise foram suficientes pra me animar e revigorar de tal modo que meus colegas de trabalho, familiares e amigos passaram a estranhar minha disposição. Quando eu dizia pra eles que era tudo por causa da escrava, recusavam-se a acreditar. O que é compreensível. Em geral, relações com escravas brancas começam bem mas tornam-se rapidamente problemáticas. Algumas são submissas demais, ou incompetentes, ou abusam de seus privilégios. As escravas brancas estão desacreditadas em nosso tempo. Mas posso dizer pros meus amigos que dei sorte. A Elise é uma escrava branca perfeita. Como se não bastasse todo o seu talento em me causar prazer, ela é uma pessoa silenciosa e discreta por natureza, e gosta de ler.
Várias vezes entrei no meu quarto e peguei ela lendo algum dos meus livros. Ela não gosta de poesia. Gosta de contos e romances. Adorou os Contos Completos do Sérgio Faraco, e uma pequena antologia do Tchekov. Uma tarde ela veio perplexa até a cozinha, onde eu lia um jornal. Trazia o Tchekov na mão.
- Tu leu esse conto do soldado que recebe um beijo numa sala escura da mansão?
- Li.
- Por que ele não procura a mulher que ele beijou, quando passa de novo na frente da casa?
- Boa pergunta. Por que tu acha?
- Não sei. Por um lado é uma atitude compreensível, depois de toda aquela reflexão que ele faz no campo de batalha e tal... mas por outro lado... não parece certo. Ele devia ter tido. Eu acho que eu teria ido procurar a mulher.
- É um bom questionamento - retruquei. A perplexidade dela era uma coisa linda de se ver. Testemunhar um conto de Tchekov surtindo seu efeito numa escrava branca deve ser algo muito raro de acontecer. Ela estava compreendendo o conto. - A resposta não está no texto, Elise, está em cada leitor.
- Hm - ela arfou, e voltou pro quarto.
Os seis meses estavam completos, e fui conversar com Elise para avaliarmos nossa experiência. Estávamos ambos muito satisfeitos, e resolvemos consolidar nossa relação por tempo indeterminado. Ela não tinha reclamações. Perguntei se ela sentia muita falta de poder sair pra rua, ir no cinema, visitar pessoas ou coisas assim. Pra minha surpresa, ela respondeu que não. Não tinha interesse em cinemas. A televisão, os vídeos e os livro eram suficientes. Eram tantos livros naquela estante!
Por mais esquisito que seja, esta resposta negativa me decepcionou. De certa forma eu queria que ela tivesse ambições extra-escravidão. Eu queria levá-la ao cinema, apresentá-la aos meus amigos, levá-la a um motel, sei lá. Eu já não conseguia vê-la como uma escrava. Escravos são objetos. Ela era mais do que um objeto. Eu estimava ela. Além do sexo e do café e dos banhos, eu queria saber o que ela estava sentindo, no que pensava quando resolvia se trancar sozinha no quarto, o que fazia enquanto eu estava no serviço.
Mas ela não queria saber de nada disso. O esquema de servidão lhe agradava muito. Queria mesmo era ficar em casa, me satisfazendo, tendo uma vida sossegada, lendo os intermináveis livros da minha estante.
Chegaram as férias de inverno. Tudo que tive dinheiro pra fazer foi alugar uma cabana numa cidade da serra, pra nós dois. Elise ficou um pouco confusa com essa história de viagem. Isso excedia um pouco o que ela entendia como regime de escravidão. Ela veio comigo sem questionar, mas seu comportamento durante todo o tempo foi mesmo. Adorável submissão. E isso me desanimava cada dia mais. Mas o que eu queria? Que fôssemos juntos ao shopping? Que ela ajudasse na decoração da casa? Que ela tirasse uma carteira de motorista e fizesse as compras todo sábado? Que tivéssemos filhos? Ela não queria nada disso: carro, motéis, festas, roupas, compras, empregos, crianças. Queria só ter casa, cama, comida e livros pra ler em troca de sua presença, de sua atenciosidade, de seu corpo. Estava muito bom pra ela. Ser como uma parte da casa, uma mulher de estimação. Eu não gostava mais de vê-la como uma posse, uma parte da casa. Agora eu queria que ela fosse uma parte da minha vida. Chorei uma noite inteira depois deste pensamento. Eu estava amando.
Não era uma boa idéia. Mas aconteceu. Eu precisava falar sobre isso com Elise. Podíamos cancelar o esquema atual e tentar uma relação nova, igualitária. Só que eu não conseguia tocar no assunto, com medo de ser rejeitado. Meu convívio com ela tornou-se uma sucessão infernal de tentativas frustradas de declaração. E já me causavam desgosto nossas relações sexuais unilaterais, baseadas na satisfação dos meus desejos apenas.
Certa manhã, encontrei Elise dormindo no sofá da sala, com a televisão ligada num volume próximo do inaudível. Acho que ela tinha pegado no sono de madrugada. Estava de calcinha e camiseta, mal-enrolada num cobertor de lã vermelha que roubei de um avião da Varig. Tive uma vontade irresistível de me aproximar e despertá-la com carícias minuciosas. Arranhei de leve uma de suas coxas, e ela miou. Fui adiante, com lentidão. Meia hora depois ela gozou. Ficamos abraçados no sofá, escutando nossa respiração e ruídos de um desenho do Tom & Jerry. Elise estava emburrada com alguma coisa, e ficou evitando meu olhar. Levantou e saiu da sala com o pretexto de passar um café. A razão da birra dela era evidente: havíamos quebrado o protocolo. Nesta manhã, eu acabava de entregar o jogo. Estava envolvido pela minha escrava, e ela não estava gostando nem um pouco disso.
Decidi me conter. Agora ela já estava consciente dos meus sentimentos, e achei melhor deixar as coisas amadurecerem sozinhas, pro bem ou pro mal. Tentar impor uma relação amorosa seria um erro, ela certamente recuaria assustada e me abandonaria no ato. Continuei requisitando favores domésticos e sexuais, ainda que tratar aquela mulher como um objeto já fosse uma tarefa bastante penosa pra mim. Nosso envolvimento pessoal permaneceu ao redor dos livros, através de sugestões, trocas de impressões, pequenos debates que me estimulavam muito e ajudavam a tirar minha atenção da Elise em si, a mulher, a criatura pela qual eu estava apaixonado.
Até que cheguei um dia em casa e ela veio:
- Tu tinha razão. Hilda Hilst é lindo mesmo. Tem mais algum dela?
Me declarei. Pedi Elise em namoro, depois em casamento. Fiz promessas ridículas de felicidade, fidelidade e outras dades. Ela só me olhou de cima, decepcionada, e balançou a cabeça.
- Tu tá levando as coisas prum lado que não me agrada - resmungou. O que eu podia dizer? Era verdade. Franzi as sombrancelhas e fiz cara de cachorro pidão. Era patético. - Relações sentimentais não eram parte do acordo certo?
Certíssimo. Mas. Mas é que.
- Assim não funciona. Eu não quero. Acho que é melhor acabar com tudo antes que piore.
Ela se despediu com um beijo na minha testa, na tarde seguinte. E antes de sair juntou o Tchekov da prateleira. Fingi que não reparei.

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11.3.05

Reflexo sem Ação













Dias insones, noites bem dormidas.
Despertar por mera formalidade.
Sorver o café bem doce, beijar a mulher amarga.
Ver a desgraça impressa em periódicos ao lado de ofertas tentadoras sem saber mais diferenciá-las.
No tormento laboral, disputar posições como se estivesse num páreo, executando tediosas funções com a mesma precisão de uma máquina.
Cumprir com satisfação este ritual cotidiano, perdendo a noção do tempo que passa, dos dias que não mais se diferenciam.
Liqüidificadores sem energia, carros sem gasolina, pessoas sem motivação.
Nada evolui, nada se movimenta.
Nada...
Apenas resiste no ser uma resignação tão angustiante quanto casquinha de pipoca grudada na língua.
E ao fim de outra jornada, atira-se na cama com a mesma determinação de um cadáver, nunca esquecendo é claro, de acertar o despertador para o dia seguinte pois afinal, sua importância é essencial.

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7.3.05

Uma pequena, porém significativa amostra do grande escritor, humorista, chargista e pau pra toda obra Millôr Fernandes:












O Banheiro



"Quem aumenta seu conhecimento aumenta a sua dor"
(Eclesiastes, I, 18)

Não é o lar o último recesso do homem civilizado, sua última fuga, o derradeiro recanto em que pode esconder suas mágoas e dores. Não é o lar o castelo do homem. O castelo do homem é seu banheiro. Num mundo atribulado, numa época convulsa, numa sociedade desgovernada, numa família dissolvida ou dissoluta só o banheiro é um recanto livre, só essa dependência da casa e do mundo dá ao homem um hausto de tranqüilidade. É ali que ele sonha suas derradeiras filosofias e seus moribundos cálculos de paz e sossego. Outrora, em outras eras do mundo, havia jardins livres, particulares e públicos, onde o homem podia se entregar à sua meditação e à sua prece. Desapareceram os jardins particulares, pois o homem passou a viver montado em lajes, tendo como ilusão de floresta duas ou três plantas enlatadas que não são bastante grandes para ocultar seu corpo da fúria destrutiva da proximidade forçada de outros homens. Não encontrando mais as imensidões das praças romanas que lhe davam um sentido de solidão, não tendo mais os desertos, hoje saneados, irrigados e povoados, faltando-lhe as grutas dos companheiros de Chico de Assis, onde era possível refletir e ponderar, concluir e amadurecer, o homem foi recuando, desesperou e só obteve um instante de calma no dia em que de novo descobriu seu santuário dentro de sua própria casa - o banheiro. Se não lhe batem à porta outros homens (pois um lar por definição é composto de mulher, marido, filho, filha e um outro parente, próximo ou remoto, todos com suas necessidades físicas e morais) ele, ali e só ali, por alguns instantes, se oculta, se introspecciona, se reflete, se calcula e julga. Está só consigo mesmo, tudo é segredo, ninguém o interroga, pressiona, compele, tenta, sugere, assalta, Aqui é que o chefe da casa, à altura dos quarenta anos, olha os cabelos grisalhos, os claros da fronte, e reflete, sem testemunhas nem cúmplices, sobre os objetivos negativos da existência que o estão conduzindo - embora altamente bem sucedido na vida prática - a essa lenta degradação física. Examina com calma sua fisionomia, põe-se de perfil, verifica o grau de sua obesidade, reflete sobre vãs glórias passadas e decide encerrar definitivamente suas pretensões sentimentais, ânsia cada vez maior e mais constante num mundo encharcado de instabilidade. É nesse mesmo banheiro que o filho de vinte anos examina a vaidade de seus músculos, vê que deve trabalhar um pouco mais seus peitorais, ensaia seu sorriso de canto de boca, fica com um olhar sério e profundo que pretende usar mais tarde naquela senhora mais velha do que ele mas ainda cheia de encantos e promessas. É aqui que a filha de 17 anos vem ler a carta secreta que recebeu do primo, cujos sentimentos são insuspeitados pelo resto da família. Já leu a carta antes, em vários lugares, mas aqui tem o tempo e a solidão necessários para degustá-la e suspirá-la. É aqui também que ela vem verificar certo detalhe físico que foi comentado na rua, quando passava por um grupo de operários de obras, comentário que na hora ela ouviu com um misto de horror e desprezo. É aqui que a dona de casa, a mãe de família, um tanto consumida pelos anos, vem chorar silenciosamente, no dia em que descobre ou suspeita de uma infidelidade, erro ou intenção insensata da parte do marido, filho, filha, irmãos. Aqui ninguém a surpreenderá, pode amargurar-se até aos soluços e sair, depois de alguns momentos, pronta e tranqüila, com a alma lavada e o rosto idem, para enfrentar sorridente os outros misteriosos e distantes seres que vivem no mesmo lar.
Não há, em suma, quem não tenha jamais feito uma careta equívoca no espelho do banheiro nem existe ninguém que nunca tenha tido um pensamento genial ao sentir sobre seu corpo o primeiro jato de água fria. Aqui temos a paz para a autocrítica, a nudez necessária para o frustrado sentimento de que nossos corpos não foram feitos para a ambição de nossas almas, aqui entramos sujos e saímos limpos, aqui nos melhoramos o pouco que nos é dado melhorar, saímos mais frescos, mais puros, mais bem dispostos. O banheiro é o que resta de indevassável para a alma e o corpo do homem e queira Deus que Le Corbusier ou Niemeyer não pensem em fazê-lo também de vidro, numa adaptação total ao espírito de uma humanidade cada vez mais gregária, sem o necessário e apaixonante sentimento de solidão ocasional. Aqui, neste palco em que somos os únicos atores e espectadores, neste templo que serve ao mesmo tempo ao deus do narcisismo e ao da humildade, é que a civilização hodierna encontrará sua máxima expressão, seu último espelho - que é o propriamente dito.
Xantipa, que diabo, me joga essa toalha!
"Minha especialidade e meu orgulho: sou o maior leigo do país."


Millôr Fernandes








Poesia Matemática



Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.


Millôr Fernandes








Barata à Vista



A barata é a mais lídima das aquisições democráticas do mundo. Quase toda a casa a possui. Aos pobres lhes cabe melhor quinhão desses insetos, muito embora o Sr. Guinle não possa se queixar pois o Copacabana também as tem apesar de todo o DDT. Pertencendo à família das BLATÍDEAS, muito conhecida nos buracos de rodapés, cantos de estantes, fundos de arquivos e de gavetas, as baratas têm hábitos próprios interessantíssimos com os quais me familiarizei nos meus longos anos de pertinaz contato com arcanos e alfarrábios.
Para se lidar com baratas há quem acredite em inseticidas e baraticidas. Como em tudo mais, acredito em psicologia. Para se aplicar a psicologia é preciso um certo método e uma vasta disciplina. Vejamos.
Encontra-se a barata. Para se encontrar uma barata não é preciso muito gasto de energia. Em geral ela nos procura. E mais em geral ainda ela vem ao meio de nossos dedos quando pegamos aquela pilha de livros que estava embaixo da escada. No momento em que sentimos a barata presa em nossos dedos um sentimento de horror inaudito corre nossa espinha. Largamos livros, agitamo-nos furiosamente, batemos no chão, nos móveis e nos livros com o primeiro pano ou jornal que se nos depara, mas, a essa altura, a barata já estará longe, escondida numa das 365 mil páginas dos 870 livros que espalhamos no chão. Como encontrá-la? eis o problema. Esse problema, depois de acalmados nossos nervos e esfregadas nossas mãos com sabão e bastante álcool, é que procuramos resolver.
Existe, para se pegar uma barata, dois processos distintos. Um é chamar a empregada e dizer: "Tem uma barata aí! Quero isso bem limpo!" e virar covardemente as costas. Dessa atitude pode resultar que a barata atinja um extraordinário grau de longevidade pois a empregada passará um pano nos livros e jogará por cima deles um pouco de DDT, dando-se por satisfeita. A barata também. E daqui há seis meses, quando você for pegar aquele velho exemplar de Balzac, terá a desagradável surpresa de ver, à página 276, olhando-o com aqueles olhos brejeiros e aquelas antenas irônicas que lhe são próprios, a mesma barata que você tinha condenado à morte. Vocês fitar-se-ão demoradamente. Ela continuará baloiçando as antenas. E você, depois de um segundo de inércia, saltará para o ar, jogará o livro para o outro lado e berrará femininamente. Pois eis que as baratas têm o extraordinário poder de nos afeminar a todos, afirmativa essa que se aceitará sem contestação se se atentar para o grande número de baratas que há em nossos teatros.
Portanto não se deve virar as costas a uma barata, como fazem os elementos da ribalta, mas sim enfrentá-la masculamente. Para isso precisamos, antes de mais nada, saber se a barata é uma BLATÍDEA comum ou se é uma PERIPLANETA AMERICANA, ou, em linguagem menos científica, uma dessas baratas que voam. Se é dessas aconselho o leitor a desistir de qualquer pretensão máscula, arrumar as malas, fechar as portas de sua casa e entrar para o Teatro.
Agora, se é das outras, sempre há recursos:
1 - Pegue um Correio da Manhã bem dobrado, deixando à mostra o artigo de fundo. Sacuda os livros e espere, trepado numa cadeira. Atente sobretudo para o estilo de bater quando a barata surgir. Lembre-se: o estilo é o homem.
2 - Quando a barata surgir bata de uma vez. Não durma na pontaria. Ela normalmente pára um pouquinho, para sondar o ambiente cá de fora e confrontá-lo com a literatura em que vive metida. esse o momento de atacar.
3 - Trate de verificar se o inseto em que você está batendo é uma barata ou um barato. Nunca se esqueça: o barato sai caro.
4 - Nunca aproxime e afaste o jornal para fazer pontaria. As baratas sabem muito bem o que as espera quando sentem esse ventinho, quando você bater de verdade ela já terá embarcado para a Europa.
5 - Não tenha pena de bater. Bata firme, forte, decididamente. É a vida dela ou a sua. Se você não a matar terá que passar a existência inteira alimentando-a a inseticida.
6 - Não se importe com as coisas que o cercam. Afinal de contas que são meia dúzia de copos partidos, um tapete manchado, dois livros com as páginas rasgadas e uma perna de cadeira quebrada se você conseguiu eliminar uma barata?
7 - Se falhar, só a paciência lhe dará outra oportunidade. A barata não lhe dará outra tão cedo, enquanto permanecer em sua memória o trauma da pancada que quase lhe tirava a vida. Não adianta você sacudir livro após livro porque se recusará a aparecer. Agarrar-se-á às páginas e, se cair ao chão, correrá rapidamente, escondendo-se por trás do guarda-roupa.
8 - Não se deixe levar pela vaidade. Às vezes você atinge uma barata de leve e ela vira-se de barriga para o ar agitando as perninhas ininterruptamente, com a expressão de quem está dando uma gargalhada, achando você engraçadíssimo. Isso poderá lisonjeá-lo mas não a poupe por esse motivo.
9 - Às vezes elas tentam outro truque sentimental. Atingidas de leve elas vão se arrastando tristemente, de vez em quando olhando para você com um olhar que 1he dilacera o coração, como quem diz: "Seu malvado, viu o que você fez?" Antes de começar a chorar bata até matar. Depois chore.
10 - De seis em seis meses faça um teste consigo próprio para ver se você está mais desbaratador do que no semestre anterior. Se a resposta for negativa não esmoreça. Continue lutando até que possa, como nós, cobrar caro pelas lições administradas. E essa é nossa última recomendação: cobre sempre caro pelos seus conselhos nesse setor. Não se barateie!


Millôr Fernandes

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