25.2.05

Alguém é uma Ilha












Mais um dia começa. Uma nova garrafa que eu abro. O calor é infernal e nem mesmo a geladeira no máximo consegue impor algum frescor aos líquidos. Têm dias que a realidade parece mais cruel que outros. Têm dias que ninguém aparece para nos incomodar. E têm dias que não.
De tanto perder a chave do apartamento, e também de tanto os assaltantes arrebentarem o batente da porta para entrar aqui, deixo agora esta porra escancarada. Quem quiser entrar que entre. Quem quiser olhar pra dentro que olhe.
Só reclamam quando eu cago de porta aberta e o fedor empesteia o corredor, sobrepondo-se ao persistente cheiro de vômito do prédio. Parece que chegou alguém. Uma mão hesitante dá três batidas na porta aberta. Uma figura aguarda do lado de fora:
- Pode entrar.
- Bom dia Sr. Ávila. Espero não estar incomodando. Meu nome é Luana, vim aqui para saber se o senhor poderia me ajudar...
Quando Luana entrou, pensei na hora que não existiam mais mulheres gostosas assim. Ou pelo menos transitando num lugar como este. Ela foi falando e entrando mansamente como uma gata. Fechei os olhos e tentei sentir o cheiro que emanava de seus poros, seu perfume, seu cabelo, sua buceta. Linda, linda, mas o maldito fedor de vômito no corredor ainda era mais forte.
- Ajudar com o que minha filha? Já vou adiantando que se for dinheiro eu...
- Não! De maneira nenhuma. Veja – disse ela me alcançando uma folha de papel – utilizaram um texto do senhor no concurso para oficial de justiça deste ano.
Era um artigo sobre a crescente lazeira urbana, que eu tinha feito sob encomenda para um jornal do centro do país. Não era lá das melhores merdas que eu já tinha escrito, mas até que estava bom.
-Porra! Nem me lembrava mais de ter escrito isso.
- Pois bem, eu sou de São Paulo e fiz a prova para este concurso. Fui muito bem, alcançando uma média excelente de...
- Ei, ei, ei. Dá pra ir direto ao assunto? Minha cerveja esta esquentando...
- Oh sim, claro... Me deram errado na questão de interpretação do seu texto. Devo dizer que é uma questão muito nebulosa. Se o senhor ler, notará que...
- Eu acredito em você. Mas afinal o que quer?
- Preciso de uma declaração do senhor, dando um parecer que afirme a exatidão de minha resposta.
- Só isso? Ok, ok... Senta aí e me diga o que tenho de escrever.
Ela se senta no sofá de frente para mim, expondo um decote que por pouco não me revelavam os bicos rosados de seus pequeninos seios. A voz de Luana saia rouca de sua garganta, e enquanto ela ditava, eu rabiscava sem nem mesmo olhar para o papel. Finalmente, ela terminou de ditar, e pediu que eu subscrevesse no rodapé da folha. Ao terminar de assinar, Luana me desfraldou um sorriso encantador e antes que ela pudesse alcançar a folha de papel, eu a enfiei subitamente dentro das calças, enrolando a declaração na cabeça do meu pau.
- E então? Não vai pegar?
Ela me olhou com espanto. Pela sua expressão pude notar que ela jamais poderia esperar por aquilo. Pobre e ingênua Luana...
- Seu velho porco decrépito! Sujo, bêbado... Enfie esta merda no cu!
Levantou-se, e num só movimento já estava de costas indo em direção a porta.
- Ei volte aqui! Me mostre alguma gratidão porra!
Luana partiu. Abri as calças, peguei o papel que estava enrolado em meu pau, e joguei fora. Aproveitei então e soquei uma bela punheta de porta aberta.

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18.2.05

Ok, vamos mandando brasa em dois textos supimpas da escritora Lúcia Carvalho

Deliciem-se...














Sexo virtual

Alguém precisa falar disso. De laboratórios médicos e exames.
Bom, se você é mulher é um pouco diferente. Além dos exames básicos, tem mais um monte. Não sei. Pode ser por causa da idade, pode ser porque a medicina agora é diferente. É preventiva. A gente tem que fazer os exames antes de ficar doente.

Vou contar exatamente como tudo aconteceu. Fui no médico, ginecologista. Ele me examinou, sentou e foi preenchendo no receituário dele. Não parava mais. Pensei. Não devo estar bem. Ele me olha, ri. Não é exagero não. É preciso saber como vão as coisas ai dentro.

Peguei as receitas e guardei na bolsa. Fiquei adiando para marcar, seria uma chateação, levaria tempo. Um dia tomei coragem, marquei tudo no laboratório. Uns exames eles faziam na hora, outros eu tinha que "estar agendando", me disse a moça, explicando. Vamos lá. Pra tal exame, jejum de comida de três horas, para o outro, oito horas sem beber água. Para aquele outro, você fica sem urinar por 6 horas. Nesse daqui, nada de sexo por 48 horas. Sem álcool, por três dias para esse aqui. E nada de creme nem óleos de banho na região abdominal no dia deste outro.

Nos dias dos exames, de manhã, eu nem me mexia. Já embaralhara tudo, me esqueci metade das regras, e achei que era melhor não fazer nada, dentro dos limites máximos. Fiquei sem fazer xixi, sem comer, sem beber nada, quase imóvel. Era melhor nem me tocarem, para garantir.

Cheguei lá com a receita na mão. A mocinha me deu um número, me mandou esperar a minha vez. Ia apitar. Piii. A senhora aguarda na sala 2 subindo a escada à esquerda porta vermelha no canto. Já comecei a me atrapalhar. Tudo tem muita instrução, a gente parece barata tonta. Me senti completamente confusa e burra, pedindo para as mocinhas repetirem cada passo a passo. Pois cada exame tem um tal de um passo a passo. Uma hora a gente tira só a parte de cima da roupa, em outro leva um potinho para o banheiro e recolhe só a urina do meio do jato, em mais outro tira toda a roupa, coloca o avental e uma pantufa e espera no vestiário sem nada metálico no corpo, depois entra numa sala e só desce a calça, depois aguarda mais meia hora bebendo água sem parar.

Fui obedecendo e fazendo tudo. Tirando um monte de tubinho de sangue, fazendo xixi no potinho, recebendo as instruções para aquele horroroso exame de f. , que, por mais que eles dêem instruções, a gente nunca sabe como fazer na hora que chega em casa. Uma vez o Mário Prata falou, numa crônica de um livro, o passo a passo dele. Não me lembrava como era, nem qual era o danado do livro, e adiei uma semana para entregar. Também não vou contar mais nada. Não fica bem. Uma moça.

Mas chegou a hora que eu queria contar. Dizem que fazer exame de próstata é horrível. Acredito. Mas exames ginecológicos, juro, é quase a mesma coisa.

Primeiro, aquela mesa. Precisa abrir tanto as pernas da gente? E tão lá no alto? O pior é que o nosso bumbum fica voando, no ar. Não sei se dá para entender a posição, mas que não tem nada embaixo dali, não tem. Nem onde se agarrar, de medo de cair. Daí entra uma mocinha, com um aparelho de plástico que abre e fecha, horroroso na mão e fala para você: a senhora fica bem relaxada.

Relaxada?

Impossível, mocinha. Mas se a senhora ficar relaxada dói menos. Bom, isso quer dizer que dói de qualquer jeito. Dói mais ou dói menos, mas ela sabe que alguma coisa dói. Então relaxar para quê? Fiquei toda retorcida, gemendo. E ainda tive que ouvir da doutora no fim: escuta, toda vez que você faz esse exame é esse escândalo? Saí dali emburrada.

Passei para um outro. Uma máquina apitava sobre mim. Ia me pesquisando. Tinha que ficar imóvel. Parecia que me imprimiam. Ou me passavam por fax. Deve ser a mesma sensação que sente a folha de papel.

Esperei mais um tempo, lendo revista. Veio a moça, berrou meu nome. Senhora, agora as mamas. As mamas o quê? É, inventaram esse nome agora. Sempre ouvi falar que a gente tinha "peito". Mas agora é "mama", e o exame consiste em fazer um belo dum esmagamento do teu peito. Eu, que tenho pouco peito, nunca vi uma coisa igual. Parecia que tinham passado um rolo compressor sobre as minhas "mamas", coitadas. Ficaram enormes, planas. Tão diferentes, que mereciam mesmo um outro nome. E eu em pé, de braços abertos. Numa pose, digamos, bem ridícula. Tenho certeza que as atendentes do laboratório saem de vez em quando da sala para não cair na gargalhada na frente da gente.

Aí veio mais um exame, esse, olha, a coisa mais esquisita de todos. Entrei numa salinha, veio um doutor. Ele primeiro ficou passando geléia na minha barriga, ultra-sonando. Era geladinho. Gostoso. Ele escorregando, aqui e ali, digitando num computador do meu lado. Bem, achei que tinha acabado, ele me deu um papel e me instruiu: limpe o abdômen, vá ao banheiro, esvazie a bexiga e retorne aqui. Voltar? É. Temos (eles têm mania de falar tudo no plural, repara) mais um exame. Interno.

Interno?

Achei esquisito, desconfiei. A mocinha, ajudante dele, me explicou. É um ultra-som lá de dentro, senhora. Lá de dentro? É. De dentro. Teu médico pediu. Bom, voltei do banheiro, esvaziada e intrigada. O doutor sentou, fez uma cara seriíssima, eu olhei para a mocinha ao lado dele. Minha cúmplice. Foi quando ele pegou uma camisinha, e abriu. Juro! Camisinha de verdade! Colocou num... num... numa coisa parecida com aquilo mesmo. Mas igual um mouse, ligada num fio no computador. Com uma bola na ponta! O que era aquilo...? E na maior cara de pau, encheu de geléia por cima e me mandou relaxar, de novo. Eu, hein? Fiquei mais dura que estátua. Ele não olhou minha cara, pois era tudo muito... profissional. Mexia para lá e para cá, parando às vezes para teclar no computador. Olha, realmente, é muito esquisito. Queria morrer de vergonha daquela relação tão íntima com aquela máquina.

Dizem que isso é muito comum hoje em dia, não é? Sexo por computador. Mas essa coisa é nova, e muito mais intensa. Chama-se sexo... com o computador. Será que ele estava conectado na internet?

Lúcia Carvalho



Moda Crônica

Meu sonho de consumo de hoje? Um celular com máquina fotográfica.Juro. Queria saber como esses publicitários conseguem convencer a gente tão facilmente da necessidade de umas coisas tão desnecessárias. Claro que eu não preciso urgentemente de um celular com máquina fotográfica, acho que ninguém precisa, a não ser aquele rapaz que viu um disco voador no meio de uma floresta e usou o celular para captar a imagem da nave na horinha. Mas as propagandas são tão fantásticas, os aparelhos tão lindos e eu tão consumista, que atualmente só penso nisso.É que fiquei um pouco enciumada na semana passada. Recebi alguns amigos para jantar e numa certa altura todos sacaram suas armas, ops, seus celulares para bater fotos. Disseram que era para colocar na agenda do celular deles.No mundo de hoje ou você se dá bem com as câmeras ou está fora. Eu, que sou o desastre da fotogenia, posei para as tais fotos e fiquei delicadamente pedindo a um e a outro para alterarem minhas fotos: num dos telefones eu estava de olho fechado, no outro estava torta, no outro uma baleia de gorda. No final, o que era para ser um jantar virou uma sessão fotográfica. Eu só não fui mudar de roupa e pentear o cabelo porque iam me achar super caipira, mas olha, morri de vontade. Acho que ninguém mais se arruma para tirar foto. Também, com a quantidade de câmeras fotográficas, filmadoras e webcams que existem, ser fotografado ou filmado é a coisa mais normal do mundo.Há uns anos atrás, tirar uma foto era um pequeno ritual. Arrumávamos o cabelo, ajeitávamos a roupa, parávamos quietos e sorríamos. E quando alguém pedia para você bater a foto? O cuidado com que pegávamos a máquina dos outros, com apenas dois dedos, sem encostar em nada? Tirar foto era coisa séria, gente, e as máquinas não eram vendidas assim, dentro de qualquer... telefone.
Ainda morta de vontade de ter o meu telefone com máquina, parei para olhá-los numa vitrine no shopping quando chegou o vendedor.- Para que as pessoas usam a máquina fotográfica do celular? – perguntei, cínica.- Para tirar fotos, ora! – ele se espantou – É muito bom poder tirar fotos a qualquer hora.- E o que eu faço com elas? – indaguei, para ver o que ele respondia.- Você coloca na agenda do celular. Assim, se o fulano te liga, você olha para o teu telefone e vê a cara da pessoa – ele explicou.A segunda explicação, que também não me convenceu, veio em seguida.- Além disso, você pode mandar uma imagem para outra pessoa que tenha telefone que recebe imagem. Por exemplo, você pode tirar uma foto comigo aqui na minha loja e mandar para alguém. A pessoa vai receber a mensagem, olhar e ver que você está na loja e comigo. Não precisa nem explicar, nem falar. Uma imagem vale mais que mil palavras. Não é incrível?É.Mas o mais incrível é que eu, uma pessoa adulta, formada e mãe, possa aceitar essas explicações esdrúxulas, não acreditar nelas e ainda querer ter um celular com máquina fotográfica. Sei que para os médicos ou engenheiros a coisa deve ser útil, mas não para mim. Eu me sinto como aqueles índios que querem possuir coisas brilhantes pertencentes aos homens brancos. Uma verdadeira “pocahontas” no shopping, essa cronista aqui...Poderia inventar uma explicação mais inteligente, dizer que tudo que agiliza a velocidade e qualidade da informação é válido, que para viver bem precisamos nos comunicar com facilidade. Mas prefiro a idéia do ET, que é mais divertida.E se aparece uma nave espacial na minha frente? Nunca se sabe...


Lúcia Carvalho

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14.2.05

Como nascem os Super-Vilões
















Estou me sentindo estranho...
Mais estranho até que uma couve-flor.
Minhas desconfianças começaram algumas semanas atrás, em um local comum fazendo uma coisa trivial.
Mais precisamente estava eu no supermercado, adquirindo minhas compras para passar o final de semana.
Na seção de carnes, enquanto escolhia um pedaço de coxão de dentro, avistei um casalzinho que empurrava despreocupadamente seu carrinho, atulhado de frutas, verduras e cereais. Conversavam entusiasticamente, sobre o estilo de vida de um tal monge budista chamado Thich Nhat Hanh, quando estacionaram o carrinho para escolher um pote de mel na seção natureba.
Caminhei furtivamente até o local, e depositei debaixo de um abacaxi, o tal coxão de dentro.
Segui o casal através dos corredores mercantis, até que finalmente, chegaram no caixa. Para minha surpresa, ao passar seus produtos pela esteira, o homem nem notou o indesejável pedaço de carne que acabou por comprar.
Cheguei em casa gargalhando, e contei para minha esposa o ocorrido. Rimos muito imaginando os dois vegetarianos desempacotando as compras em casa e descobrindo com horror aquele pedaço de fibras e músculos sangrentos em meio às hortaliças.
No outro dia, voltei ao supermercado. Já desta vez, com o intuito de ``caçar`` uma nova vítima.
Achei a vítima perfeita num distinto senhor, que transitava pelo local ostentando uma brilhante e gigantesca aliança no anular esquerdo. Ao se distrair na seção de vinhos, coloquei dentro do seu carrinho, uma lingerie preta tamanho ninfa tropical. Certamente aquilo traria desconfianças para qualquer esposa.
Mais uma vez, o produto passou despercebido pelo caixa, o que me leva a propor uma teoria psicanalítica que: as pessoas acreditam que suas compras, depois de entrarem no carrinho, estão envoltas em uma espécie de limbo intransponível.
Comecei então a passar tardes inteiras no supermercado, contribuindo com minha cota anárquica para este mundo. Cheguei a ponto de trocar o carrinho de uma atarracada senhora de idade, com o de uma jovem portadora de gigantescos seios. Me pus a imaginar qual produtos elas teriam em comum?
Pois minha estranheza chegou agora a beira da obsessão. Passo dias inteiros vagando pelos supermercados, depositando produtos em meio às compras de outras pessoas.
E você, tome cuidado...
Pois quando menos esperar, aquele produto que pode arruinar sua vida estará no saquinho plástico que você levará para dentro do conforto de seu lar.
Hua hua hua hua hua (risada maligna)!!

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3.2.05

A seguir, publico um texto que garimpei na internet de uma escritora carioca chamada Simone Salles, que até então não conhecia. É um texto que tem tudo a ver com verão, então, lá vai...







A palavra da vez


O Rio de Janeiro é, sem dúvida, uma cidade única. Sobretudo no esculacho. A cada estação o povo elege uma palavra. Não há campanha. A escolha é feita de modo tácito pelos nativos. O substantivo eleito invade o vocabulário dos cariocas, como um vírus em forma de palavra. Contagia todos, independentemente de classe social, nível de instrução, bairro. O vírus se alastra rapidamente, extrapola fronteiras geográficas com a força dos tornados. Usa-se a dita cuja a torto e a direito, até que seu significado original se perca na vulgaridade do uso exaustivo, por vezes mais que indevido. Os exemplos são vários. Atitude, bombar, irado, caído, sinistro, barraco, montado, dominado e por aí vai. Carioca é expert nisso. Faz parte do seu charme. Ninguém nesse país elege palavras com a maestria e non sense cariocas . Talvez, apenas os baianos. Mas esses formam uma nação a parte.
Quando retornei ao Rio, em 2.000, a eleita do momento era a palavra estresse. Por tudo e por nada, com ou sem razão — ao menos, aparente —, estava ela na frase. Dava um toque fashion à bobagem que iria ser proferida. Aliás, carioca, besteirol e fashion são praticamente sinônimos. Dei-me conta disso da forma mais absurda possível. Num sábado nublado, curtindo uma tremenda ressaca, dentro de um supermercado. Óculos escuros para esconder as olheiras, escorada no carrinho de compras, em plena fila do açougue. Sem dormir, a cabeça pesava toneladas. Para tripudiar do meu lamentável estado, a bateria da Mangueira resolveu instalar-se nela.
Estava praguejando contra a indústria farmacéutica, pois que engovs e similares não fizeram qualquer efeito para amenizar meu martírio, quando uma senhora idosa chamou minha atenção. A minha e a de todos que estavam por perto. Sua imagem, por si só, seria o suficiente para despertar o interesse até dos mais distraídos. Uma figura de Dalí, que escapara das telas do genial artista para fazer mercado em Copacabana. Quem conhece o bairro já esbarrou com uma dessas figuras. São senhoras entre 70 e 80 anos, cujo figurino congelou no tempo. Estão invariavelmente vestidas com conjuntinhos de linho em tons pastéis.
Parecem fabricadas em série. Todas tem cabelos em tons absurdos de acaju ou cinza azulado. As sombrancelhas, de uma assimetria inacreditável, são riscadas à lápis, num preto retinto. Sem mencionar os batons em todas as tonalidades de vermelho, que nunca se limitam aos contornos dos lábios. Escapolem e desenham bocas inumanas. Surrealismo puro. Para ser justa, eu mesma estava uma figura lamentável. Mas não de Dalí. Mais para a personagem do cartunista Angeli, uma espécie de Rê Bordosa sem banheira ou um prestativo Juvenal para me socorrer.
Pois essa figura de Dalí — com todo respeito à senhora e ao louco pintor catalão — iniciara, minutos antes, uma conversa com o atendente do açougue. De longe, aparentava ser uma simples troca de informação entre cliente e funcionário. Não acompanhei o princípio do diálogo, estava caída demais para prestar atenção em algo, além dos bumbos e pandeiros que ecoavam em minha cabeça. Sem o alívio prometido pela alopatia, apelara para a sabedoria popular e abrira uma latinha pra "rebater", enquanto aguardava a minha vez.
Em determinado momento, sei lá porque, a dona se alterou. A conversa virou bate-boca, com a acalorada participação dos presentes. Barraco armado, clientes abandoram carrinhos para acompanhar a discussão. A fila do açougue bombou. Não tem algo capaz de seduzir mais um carioca que a possibilidade de apreciar e, se possível participar, de barracos promovidos por terceiros. Até a moça do estande de uma marca de café, largou garrafas térmicas e balcão para assistir aquela cena irada. Para completar o cenário só faltou mesmo um pipoqueiro e uma drag-queen montada.
A confusão nada teria de anormal, em se tratando de supermercado e de Rio de Janeiro. Não fosse a tal senhora e a frase com que encerrou, de forma definitiva, o bate-boca, cujo motivo até hoje desconheço. A frase fez o efeito que engovs e cerveja não conseguiram. Silenciaram de imediato a bateria da Mangueira. Creio que até os repiniques ficaram tão pasmos quanto eu. Cheia de atitude , com as mãos na cintura e autoridade psiquiátrica, a figura de Dalí olhou para o infeliz atendente e chutou o balde:
— Seu problema, meu filho, é que você está muito estressado!
Com toda a dignidade, virou-se e saiu empurrando seu carrinho, sob aplausos e assobios. Tivesse acontecido no verão passado, certamente um gaiato qualquer teria gritado lá detrás: “aí, minha senhora, mandou bem!” Besteira entrar agora no mérito de quem estava ou não estressado naquele barraco. Já me basta a lembrança infeliz daquela ressaca. Mas foi nesse momento que tive a consciência plena, absoluta: estava de volta ao Rio de Janeiro. Em dialeto carioca, a ficha custou, mas caiu. Sinistro, não?
Ah... Em tempo: alguém pode me dizer qual é a palavra da vez desse verão? Que não seja tsunami, por favor.

Simone Salles

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