29.1.05

ELVIS NÃO MORREU





Elvis não morreu
O que de fato aconteceu
Foi que Elvis desistiu...
Cansou de rebolar
e foi morar no Brasil

Chegando lá via aérea
desembarcando em Congonhas
roubaram-lhe a bagagem
e os tijolos de maconha

Aflito e sem dinheiro
teve uma idéia maluca
Raspou suas costeletas
e vendeu como peruca

Com aquele dinheirinho
Elvis comprou uma viola
E foi à praça da Sé
Pra mendigar por esmola

Lá recebeu a proposta
de tocar em um bordel
animando a galera
com o Heart Break Hotel

Na sua noite de estréia
rolou a maior baixaria
Numa batida policial
Levaram-no pra delegacia

Ainda tentou explicar
que ele era americano
mas ninguém entendeu nada
E Elvis entrou pelo cano

Foi jogado numa cela
No presídio do Carandiru
onde uns 40 detentos
tentaram traçar o seu blues

Elvis partiu para a briga
iniciou uma rebelião
Pulou o muro e fugiu
aproveitando a confusão

Caçado pela polícia
e sem saber o que fazer
Elvis deu um salto mortal
Pra dentro do rio Tiete

Nadando pela sua vida
em meio a poluição
só quando sai, Elvis nota
uma leve mutação

Logo abaixo do umbigo
tinha agora uma boca
que falava sem parar
e soava um tanto rouca

E assim o rei do rock
nunca mais cantou a sós
Elvis fazia a primeira
E Pelvis a segunda voz

Transformaram Love me Tender
numa versão sertaneja
e hoje cantam em bares
em troca de alguma cerveja

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21.1.05

Segue aqui uma crônica da autora Mariana Blanc que é filha do notório poeta Aldir Blanc. Lá vai...:








Pequenas Diferenças

Toda vez que a gente, as mulheres, diz ``eu conheço fulano muito bem`` corre o risco de ser atravessada por olhares de zombaria e descrédito. Mas ao fazer semelhante afirmação, a gente está partindo de princípios básicos, alguns considerados importantes socialmente e outros que talvez não estejam na lista dos 10 mais da maioria, simplesmente porque são insensíveis.
Quem sabe, sabe. Quem não sabe, não sabe nem quanto falta saber.
Para provar que estas afirmações não são puramente arrogância feminina, a última reunião do Conselho Deliberativo da MAISON estabeleceu duas listas comparativas. Pra poder afirmar que conhece um homem com a palma da mão uma mulher tem que saber:

1. se toma banho regularmente e se começa pela cabeça ou pelo pé;
2. se usa talheres pra comer ou se quando está sozinho come com a mão;
3. ele sabe combinar a gravata com a meia?
4. o nome do perfume que usa (e se é com ou sem vaporizador);
5. nome, sobrenome e ocupação das três últimas vagabundas, opa!, namoradas;
6. a careta e os sons que faz quando tem orgasmo;
7. o prato que a mãe dele mais gosta;
8. quais as razões filosóficas, existenciais e práticas dele ter sido reprovado em determinado concurso;
9. todas as peripécias que ele jura nunca ter feito na cama com mais ninguém e quais são verdadeiras e quais são mentiras impudentes;
10. nome do cara por quem a irmã dele é apaixonada há anos e que nunca deu a menor bola pra ela;
11. todas , de cor e salteado, as pequenas atenções já dispensadas pelo pai da figura à nora;
12. o tamanho do colarinho da camisa;
13. qual foi a última vez que ele chorou;
14. como fazê-lo chorar de novo;
15. algo que ele detestaria que os amigos descobrissem.

Para o caso dos homens esta pequena lista sofre algumas alterações. Senão vejamos. Pra poder afirmar que conhece bem uma mulher ele deve saber:

1. se ela toma banho depois de transar sempre ou se é só com ele;
2. se está mesmo de dieta ou se quando está sozinha come de meio a dois quilos de sorvete de flocos com cobertura;
3. que ela não precisa combinar peça de roupa, por mais que o faça. Simplesmente porque tudo que ela usa é moda e pronto, mesmo aparentemente descombinado.
4. o nome do perfume que usa (e se é com ou sem vaporizador);
5. nome, apelido e endereço do palhaço que não larga do pé da coitadinha;
6. a careta e os sons que faz quando tem orgasmo, se é que ele tem capacidade de discernir se ela estava fingindo, mas isso já é outra história;
7. a bebida predileta do sogrão;
8. quais as razões filosóficas, existenciais e práticas pro último ataque de fúria, ou foi só TPM;
9. tudo que ela jura nunca ter feito na cama com mais ninguém e quais são verdadeiras e quais são mentiras descaradas (háháhá, ai meu deus, eu não consigo parar de rir!! Homem sabendo isso?? Háháhá!! Ai, minha barriga!! Háháhá!!!!);
10. nome do cara por quem ela foi apaixonada no segundo grau e na frente de quem ela pagou o maior mico.
11. data da última menstruação;
12. quanto ela calça, incluindo tênis, scarpin e sandália aberta;
13. qual foi a última vez que ela chorou;
14. como fazê-la chorar de novo;
15. algo que ela detestaria que ele inventasse e espalhasse pros amigos.

E você aí? Pode dizer que conhece seu parceiro com a palma da mão? Eu já cheguei à minha conclusão. Mão no fogo eu não ponho nem por mim, nem por ninguém. Mas dá pra dizer só mais uma coisinha de saída: a desvantagem masculina chega a dar dó.


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14.1.05

Sofrer o Suficiente
















Eu sinceramente queria que sofrer fosse mais fácil. Tanta coisa escabrosa acontecendo neste mundo e eu aqui, sentado em cima da minha bunda, remoendo agonias, sorvendo mágoas e regurgitando aflição.

Todo mundo sofre, disso eu sei. Alguns sofrem mais, outros mais ainda. Sofrem por diversos motivos, sofrem de diversas maneiras. Enfim sofrem porque vivem, e viver é inexoravelmente um ato de sofrer. Alguns críticos dizem que sofrem ao ler meus textos. Imagino como eles devem estar se sentindo agora...

O fato é que quando se está sofrendo, o mundo têm outros contornos. O canto dos pássaros, um expontâneo riso infantil, o cheiro de chuva, um beijo afetuoso; maravilhas que noutra ocasião enterneceriam corações, nos parecem tão deslocados ou sem propósito, que chegam a ferir a nossa dor.

Sei de muitos que querem ajuda quando sofrem. Já eu prefiro sofrer só. Como se o sofrimento fosse aquele último pedaço de chocolate que se quer comer escondido de todos. Deve existir alguma química prazerosa, liberada pelo meu endocéfalo rugoso que faz com que eu queira curtir uma fossa sozinho. Dispenso toda e qualquer tentativa de ajuda. Me recolho, me retraio, me reprimo até quase sumir. Eu literalmente implodo.

Mas tem gente que não. Abre o berreiro, se escabela, sapateia, quebra os móveis, traz à conhecimento público sua dor. Estes explodem. E como toda explosão, acabam atingindo o ambiente à sua volta.

É duro mas é laranja- como já dizia uma velha chupando uma bola de sinuca- Me valendo da analogia, constato que só não sofre quem não têm consciência. A dor da perda, a dor moral, a dor física, até mesmo a dor agônica, é inerente a nossa condição humana. Não adianta você querer, porque que não vai passar incólume. Ou seja; penso, logo existo, logo sofro.

Sigmund Freud conclui em -As Palavras de Freud que ``...esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.``. Por isso, é que nos preservamos tanto das paixões, das aventuras perigosas, do álcool, da carne gorda e de qualquer esquina escura no meio da noite. Queremos nos auto preservar do sofrimento e atenuar a nossa fragilidade humana.

Não vou chegar aqui, a nenhuma conclusão absurda dizendo que sofrer é bom. Sofrer brutaliza nossos sentimentos empedernindo a nossa vida. Mas sofrer dignifica. Dignifica porque o sofrimento é honesto. Ele é sentido no âmago dos confins infinitos do que chamamos de alma. Nos atormenta e nos tira do pedestal de senhores absolutos de nosso destino.

Como não se pode viver sem sofrimento e abnegar a vida é sofrer por inércia, bebemos deste dilema filosófico brutal, munidos da esperança que nos mantém em curso, tendo em mente, que sofrer, é como aquele tempero amargo que faz da vida, esta receita tão boa e especial.

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9.1.05










Quando tudo num repente se calar,
Quando sem som fizer-se a voz do mundo,
Quando o mar tornar-se mais profundo
Para o silêncio nele repousar ...
Quando pássaros pousarem sem trinados,
Quando o vento soprar sem nenhum som,
Quando notas musicais perderem tom
E os poetas fizerem-se calados ...
Escutarás, assim, por um instante
O som do abismo do silêncio humano...
Breve momento ... sono repousante ...
Corpo aquecido sob morno pano ...
E uma voz rouca (a minha), doce amante,
Em teus ouvidos a dizer "te amo" ...

Silvia Schmidt


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1.1.05

VIVENDO E APRENDENDO













Coloquei a mão no bolso. Três reau. Que coisa. Tomo em canha, ou levo pra casa e entrego pra mulher? Ela certamente vai chiar e me chamar de inútil pra baixo. Gilda sempre reclama, mas entende. São quase seis da tarde e não consegui nada, nem um seuviço nem mesmo pra entregar papel de propaganda de cartomante na Rua da Praia.
Sento e me encosto numa porta. Ela de repente se abre, como se fosse um sinal. Não acredito muito nestas coisas, mas na merda em que estou, e sem nada melhor pra fazer, entrei no prédio só pra ver no que dava. Caminhei por um corredor estreito, que saiu numa sala bem grande, bonita mesmo. Drento de um quartinho pequenininhu, tinha uma moça boa e tetuda que perguntou o que eu desejava. Eu quase que respondi que eu queria comer ela toda, mas tive vergonha, não sei... Mas perguntei ansim:
- Aqui é o quê?
A moça me respondeu mostrando os dente:
- Marcas e patentes. O senhor gostaria de fazer um registro ?
Eu respondi que sim, mesmo porque, aquela não era mulher de se negar nada.
Ela me mandou entrar numa fila e eu fui. Fiquei lá, parado, até ser atendido numa outra cabine, dessa vez por um cara gordo e bigodudo que parecia o gaúcho da propaganda do Coscarque:
- Pois não? -Ele perguntou.
- Pois é... - Eu respondi
Vi que ele não estava de bom humor quando me perguntou de novo:
- O senhor veio aqui para fazer um registro de patente?
Falei que sim. Eu não era um torneiro hidráulico tão bom quanto o meu primo Felipe, mas até que dava pra enganar:
- E o senhor quer registrar o que?
Eu perguntei:
- Como assim?
Eu vi que ele me respondeu só pra sacanear:
- Registrar, oras... O senhor conforme artigo 5º, parágrafo XXIX da constituição federal, têm direito à propriedade de marcas nomes, inventos industriais e signos distintivos.
Não sei o quê me deu nessa hora, mas foi como se eu fosse um doutô, desses dos bem graúdo e sabido. Respondi então pro gordo:
- Ah...Eu quero registra o A.
O gordo tirou o sorrisinho da cara e perguntou :
- Registrar o quê?
Respondi de novo que queria registrar o A. Ele chamou o patrão dele e explicou no pé do ouvido do homem, que eu queria registrar a letra A. Discutiram... Mexeram nums papel... Fizeram umas ligação...Finalmente o gordo veio bem sério falar comigo:
- Para efetuar o registro da letra A o senhor deve pagar uma taxa de R$ 2,60.
Paguei, recebi quarenta centavo de troco e ganhei um papel cheio de carimbo e assinatura que me dava - como ali dizia " Direito a propriedade de marca da letra A". Enrolei o papel, enfiei debaixo do braço e sai. Na porta, a moça tetuda me desejou bom dia e eu já cobrei:
- Me deve R$ 1,00 pelo A!

Naquela noite cheguei com três mil REAIS em casa, e agora Gilda não reclama mais...

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