25.12.04










Só uma lembrancinha



Orlandeli


Tempos difíceis, reclamava Osório.

Tempo em que pra arrumar um empreguinho mais ou menos era preciso travar uma batalha homérica, entre currículos, rezas e mandingas. Foram mil e quinhentos candidatos pra disputar apenas uma vaga. Mesmo assim, depois de cinco anos e meio fazendo trabalhinhos esporádicos pra ganhar a vida. Osório conseguiu. A vaga era dele.

Nem acreditava, parecia coisa de Papai Noel. Salário fixo, férias, benefícios e tudo mais que tinha direito. A felicidade era tanta que nem pensou duas vezes e já entrou num financiamento de um carro. Um Gol, branco, daqueles bolinha. Sempre quis ter um Gol bolinha. Agora sabia que podia arcar com as prestações, sem medo.

Entrou na empresa no início de dezembro, ainda estava naquela fase de adaptação, conhecer o pessoal... essas coisas. Logo na segunda semana já anunciaram que o tradicional "amigo oculto" que acontecia todo fim de ano, seria nos próximos dias. Osório nunca gostou muito dessa brincadeira, até porque era um predestinado a sair em desvantagem. Desde moleque sempre dava um presente melhor do que aquele que recebia. Comprava um jogo de tabuleiro e recebia uma lapiseira, dava uma camisa de marca e ganhava um porta retrato. Desenvolveu até um certo trauma pela coisa. Só topou participar por causa da mulher, que disse que pareceria anti-social, um novato não participar da festa da empresa. Mesmo assim decidiu que desta vez não levaria desvantagem. Desta vez seria diferente.

- Olhalá, olhalá... lá vem outro. Viu só o tamanho daquilo?

- Daquilo o quê, Neide?

- Do presente, oras bolas. Olha o tamanho do pacote que o cara fez. Ai, que vergonha, que vergonha...

- Vergonha do quê, mulher?? Tá doida?

- Osório, homem de Deus. Olhalá, tá todo mundo com cada pacote que mal dá pra carregar no braço. Tem embalagem aí que dá pra comprar uns cinco presentes igual esse seu. O seu presente é o único que dá pra trazer dentro do bolso. Imagine a vergonha que a gente não vai passar...todo mundo dando presentão... e você com essa merrequinha.

- Merrequinha... Essa é boa. Foram eles mesmo que falaram "é só uma lembrancinha", então, comprei uma lembrancinha e pronto.

- Eu sei, Osório, mas também não pode ser qualquer coisa, né? Por exemplo... ali. Tá vendo aquela moça?

- Sei, a Gerente de Vendas. Que que tem?

- Pois então, você acha que uma mulher com AQUELE par de brincos, usando AQUELE colar, em cima de um salto DAQUELA altura... vai ficar contando moedinhas pra comprar presente de amigo secreto?? Olha o nível desse povo.

- Azar o dela. Pra mim lembrancinha é lembrancinha e pronto. Tivesse fixado um valor, então. Oras bolas.

- Céus, quanta ignorância... Mas não fixam justamente por isso. Pra ver a consideração que cada um tem pelo seu amigo. Dando um presente bom, quer dizer que você acha a pessoa especial, agradável... que merece um presente bonitinho. Entende? Do contrário quer dizer que aquela pessoa não significa nada mais do que algumas moedinhas.

- Um chaveirinho do Corinthians.

- Como?

- Meu amigo secreto vale um chaveirinho do Corinthians.

- MEU DEUS! Diz que é mentira!!!! Você NÃO COMPROU um chaveirinho ridículo pra dar de presente. HEIM?? FALA A VERDADE!!!

- Comprei sim, e daí? Vai que eu vou lá e compro um super presentão e EU é que recebo um chaveiro. Como é que fica???? HEIM??!! Pelo menos se eu ganhar um chaveiro a gente termina empatado.

- Ai, Osório. Você me mata de vergonha!

- Bah! Quer saber de uma coisa? Eu é que não vou ficar esquentando a cabeça. Eu vou é dar essa droga de chaveiro, mesmo e pronto. Não quero nem saber. Se aceitar beleza, senão foda-se.

- E quem é o "sortudo" que vai ganhar esse "presentão"?

- Nem sei direito. Não conheço o nome de todo mundo. É um tal de Aníbal Shigav, Shicut... algo desse tipo...

- Jesus, e como é que você vai entregar o presente pro seu amigo se nem sequer sabe quem ele é?

- Ah, chega lá eu falo "meu amigo é o Aníbal" e pronto. Duvido que tenha dois Aníbals trabalhando no mesmo lugar.

A conversa é interrompida pelos gritos de uma mulher que, em cima de uma cadeira, convoca os presentes para começarem a revelação.

- GEEEEENTE!!! GEEEENTE!!! VAMOS REVELAR O AMIGO SECREEEETO!! VEM LOOOOOGO, GEEEENTE!!

As pessoas foram se reunindo entre brincadeiras e sorrisinhos, alguns arriscavam tentar adivinhar quem o colega tinha tirado, outros ficavam comparando o tamanho dos pacotes. Depois de uns 5 minutos formou-se um grande círculo reunindo todos os participantes.

- GEEEENTE. SILÊÊÊÊNCIO, VAMOS COMEÇAR! SILÊÊÊÊÊNCIO!

O barulho foi diminuindo aos poucos, até que todos ficaram em silêncio. Novamente a mulher toma o comando.

- Olha, pra não ficar aquela bagunça de "quem começa? quem começa?", vamos fazer igual ao ano passado. Afinal, nada mais justo do que deixar o início da brincadeira para o Presidente da Empresa. Não é mesmo? Então, Vamos lá. Senhor ANÍBAL SHINASKI, pode vir pro meio.

Todos aplaudiram e gritavam, menos Osório. O nome não deixava dúvidas, Neide foi quem se manifestou primeiro.

- Osório, será que esse é o seu...

- É, parece que é!

- Ai, que vergonha, que vergonha...

Um frio correu pela espinha de Osório. Pela primeira vez começou a dar razão à esposa, deveria ter comprado um presente mais bonitinho.

Logo em seguida, o senhor Shinaski deu início à revelação.

- Bom, como vocês sabem eu não sou de falar muito, então não vou ficar enrolando. Fiquei muito feliz em ter tirado essa pessoa como amigo secreto, principalmente porque ela é nova na casa, então me sinto honrado em ter a oportunidade de dar as boas vindas e desejar um futuro brilhante dentro da nossa empresa. É com muita satisfação que revelo meu amigo secreto, o senhor OSÓRIO DA SILVA.

Se antes o frio passou pela espinha, agora ele percorreu o corpo todo. Osório engoliu seco. Por essa ele não esperava. Ter que dar um chaveiro para o homem que tinha acabado de lhe contratar. O Presidente da Empresa. Pela primeira vez na vida torceu pra ganhar um presente chinfrim de amigo secreto. Mesmo sabendo que mais chinfrim que o seu, era praticamente impossível. Levantou bem lentamente, parecia que tinha chumbo nas pernas. Ainda no meio do caminho olhou pra trás e viu Neide, com as duas mãos tapando o rosto. Chegou até o senhor Aníbal, exibiu um sorrisinho amarelo, deu-lhe um abraço e pegou o presente de suas mãos. Todos começaram "ABRE! ABRE! ABRE! ". Osório torceu pra sair alguma brincadeira besta do pacote e no final o presente ser uma cueca, um par de meias ou coisa do tipo. Abriu. Era um belo par de sapatos. Coisa fina, couro legítimo. Provavelmente era importado. Todos soltaram um "Óóóóóóhh" com olhos cheios de admiração e inveja. Osório deu uma olhadinha para o lugar aonde Neide estava sentada, mas não tinha mais ninguém lá. Agradeceu ao senhor Aníbal fazendo um gesto com a cabeça, ainda exibindo o sorrisinho amarelo. Agora era a sua vez, teria que dar seqüência à brincadeira. Já sabia o que estava por vir. Um pensamento otimista lhe veio à mente. Tudo poderia parecer muito engraçado, uma grande piada, e terminar com todos rindo do presentinho ridículo que Osório tinha comprado. Mas logo a realidade vinha à tona. Puxa vida, o cara tinha dado um sapato caríssimo e iria receber um chaveirinho em troca. Quem vai rir de uma coisa dessas???

- Errrrr....meu amigo sec...creto.... errr... gosto muito e... cof cof...ele é...errr ...o senhor ANÍBAL.

Novamente todos aplaudiram, alguns gritavam "É MARMELADA! É MARMELADA!" não acreditando em tamanha coincidência. O senhor Aníbal chegou perto, deu um abraço em Osório e recebeu de suas mãos uma caixinha embrulhada num papel barato. Novamente todo mundo começou "ABRE!ABRE". Na cabeça de Osório o coro "NÃO ABRE! NÃO ABRE!". Chegou até a pensar em algum milagre, vai que o homem abre a caixinha e encontra um relógio de ouro no lugar do chaveirinho. Fechou os olhos e fez um pensamento positivo. O senhor Aníbal finalmente abriu a caixinha mas, ao que parece, o pensamento de Osório não foi tão positivo assim.

O silêncio tomou conta do lugar, ninguém acreditava no que estavam vendo. A única coisa que se conseguia ouvir era um som baixinho de choro, lá no fundo do salão. Era Neide, que acompanhava tudo de longe. Se existia algum tipo de respeito do senhor Aníbal para com Osório, tinha terminado ali. Dava pra ver nos olhos do homem, que segurava seu presente entre o polegar e o indicador. Uma mistura de decepção e raiva. Então era isso que ele significava para o Osório? Um chaveirinho do corinthians?! Ainda mais ele, que era palmeirense roxo. O valor já nem era tão importante. A coisa ficou parecendo um grande deboche, uma desafronta.

E pensar que Osório ainda estava cumprindo período de experiência dentro da empresa. Mil e quinhentas pessoas prontas pra tomar o seu lugar, só esperando um pequeno vacilo. E não havia dúvidas que aquela situação ERA um vacilo. Precisava pensar em algo, rápido. Seu futuro estava em jogo.

Senhor Aníbal dirigiu o olhar para Osório. O olhar dele não mentia, era como se tivesse escrito na testa, em letras garrafais "O que significa esse maldito chaveiro?" Ficou um tempo encarando Osório, esperando uma explicação. Osório sabia que em questão de segundos, caso não se manifestasse, o homem tomaria a iniciativa e começaria a falar. Se isso acontecesse, seria o fim. Foi quando colocou a mão no bolso, estava ali, sua salvação, bem firme entre os seus dedos.

- TCHÃRÃÃÃÃMM!!!!!!

Pronto, caso encerrado. Muita gente ficou confusa, mas ninguém poderia condená-lo. Depois de tanto tempo ainda se pergunta se fez a coisa certa. No fundo acredita que sim, afinal, já são cinco anos dentro da mesma empresa. No meio de conversas miúdas ficou sabendo que logo na primeira semana após a festa, o senhor Aníbal se desfez do chaveirinho do corinthians. Já o Gol bolinha, não. O Gol bolinha é seu companheiro inseparável nas visitas que faz à chácara nos finais de semana.



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Orlandeli

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17.12.04

O Riso de Iolanda














O natal começa a repercutir no início de dezembro, fazendo com que a programação televisiva se transforme em um grasnar de oportunidades imperdíveis. Dona Iolanda, na altivez de seus 74 anos, cujos quais, 48 foram ao lado de seu amado e já falecido esposo Dionísio, encara na sala, o pequeno cadáver da gata Mimosa. A cena tem como trilha sonora, a bela canção natalina White Christmas ofertando um microondas em 3 vezes de noventa e oito sem juros numa imitação fajuta da aveludada voz de Bing Crosby.

Nas últimas semanas, a gata Mimosa andava abatida, pouco se alimentava, e iniciara a magnânima pratica animal de esconder-se, para evitar assim a contaminação cadavérica. Dona Iolanda levou Mimosa ao veterinário que sentenciou que a gata estava velha demais, seu coração andava fraco e nada mais restava, a não ser, levar a amiga para casa e aguardar. Dona Iolanda ainda tentou lutar contra o inevitável mas refletiu que as coisas eram assim mesmo, ninguém se importa com os velhos, porém são capazes de tudo para salvar as pequeninas e promissoras crias.
E assim fez Dona Iolanda... Tentando tornar a partida da amiga menos dolorosa possível, comprou trezentos gramas de guisado de primeira, uma lata de leite condensado, serviu os pratos da gata que por sua vez mal tocou na comida. Dona Iolanda sentou-se em frente a tv, e voltou a mergulhar em diáfanas recordações. Desde que se fora, Dionísio seu esposo, deixou um imenso vazio na casa, no lado direito da cama de ipê, no saldo bancário que minguava a cada mês obrigando Dona Iolanda a desfazer-se dos móveis, do carro e da sua cara coleção de jóias. Hoje, pouca coisa restava de uma época de ouro. Nem mesmo os filhos permaneceram ao seu lado. João Vitor mudou-se para o Paraná e é pai de duas crianças que Iolanda jamais conheceu. Maria Candida mora na zona sul, e uma vez por semana, liga preocupada para a mãe.

Vislumbrou épocas, que não bastava criar os filhos para o mundo, mas era preciso criar um mundo para os filhos. Dos suntuosos jantares, da limpeza cotidiana, de repassar a lição de casa e de jogar banco imobiliário com as crianças durante horas a fio. Um dia, João Vitor já adolescente, veio para casa com um pequeno filhote de gato que havia arrecadado na rua. Os pais inicialmente negaram a permanência do animal em casa, mas depois de insistentes solicitações e promessas de cuidado que jamais seriam cumpridas por parte dos infantes, Mimosa foi admitida na família. Um ano depois, Dionísio morreria, vítima de câncer de próstata.

A gata passou então, a viver enroscada nos pés de Iolanda nos dias de frio não deixando que lhe congelassem os dedos. Corria e brincava com qualquer inseto que lhe passasse em frente, e algumas vezes fugia para namorar. Numa destas escapadas, Mimosa acabou emprenhando, e teve 4 filhotes todos muito brancos, que assim como os seus próprios filhos, Iolanda um dia distribuiu pela vizinhança. A gata procurou-os pela casa e a partir de então adquiriu o habito de deitar-se no tapete da porta de entrada. Aguardava por uma visita de seus filhotes, (que jamais voltariam) e terminava por adormecer. Naquele dia, Mimosa deitou-se no mesmo local de sempre, e dormiu para nunca mais acordar.

Iolanda juntou o pequeno corpo inerte da amiga, deu-lhe um banho com um pano molhado, e o depositou numa caixa de papelão forrado de cetim. Embrulhou a caixa com uma folha de papel celofane, cruzando a tampa com uma fita violeta. Pegou na bolsa o endereço que o veterinário lhe dera. Um cemitério de animais que ficava num bairro próximo dali. Saiu para pegar um ônibus e depositar finalmente o corpo de Mimosa.
Na parada de ônibus, Dona Iolanda embarcou pela porta da frente e saudou o motorista mostrando sua identidade que lhe isentava o pagamento da passagem. Procurou por um assento vago, já que no reservado para idosos, estava esparrinhada uma adolescente que mascava descaradamente um chicle de boca aberta, e ainda escutava seu walkman numa altura perfeitamente audível aos demais passageiros do ônibus.
- Aqui tem lugar!

Disse um rapaz apontando o assento vago ao seu lado na janela. Dona Iolanda agradeceu a gentileza, sento-se no local indicado. Colou a caixa sob o colo. O rapaz logo puxou conversa, falando sobre a falta de educação desta juventude de hoje. Emendou na conversa, um comentário sobre como o trânsito ficava caótico nesta época de final de ano e de como era preciso ter paciência. Dona Iolanda ratificou falando que havia sido uma dificuldade comprar um jogo de pratos pintados a mão para a filha. O ônibus parou para um passageiro desembarcar. Quando a porta se abriu, o rapaz num só movimento, agarrou a caixa que estava no colo de Dona Iolanda e pulou para fora do ônibus.

Ela olhava boquiaberta enquanto os demais passageiros insurgiam-se com gritos de: - Pega-ladrão! O motorista parou o ônibus, levantou-se de seu assento e dirigiu-se até Dona Iolanda para perguntar se ela estava bem e se queria que ele parasse em alguma delegacia. Dona Iolanda sorriu, e deste sorriso nasceu um riso. E do riso uma gostosa gargalhada. A gargalhada de uma vida inteira, pensando na bela surpresa que a mulher do rapaz iria ter.





















Fonte da imagem:
Biblioteca de Pessoas

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11.12.04

Pois muito bem, o natal tá chegando...
E com ele, é hora de se estapiar nas lojas de departamento por um descascador de azeitonas, demorar 4 horas para cruzar de carro uma única quadra ou ter que aguentar as demonstrações emocionadas e sentimentalóides de gente que o ano inteiro fica sacaneando os outros...
Para corroborar com este espírito, transcrevo a seguir, o divertido texto do escritor Mário Prata, que nos revela sua peculiar visão sobre esta data... Com vocês:




Jingle Bell prá vocês


por Mário Prata

Não gosto do Natal. Não chego a odiar mas não gosto. Nunca gostei. Desde pequeno, no interior. Papai Noel sempre me assustou. Gostava de preparar a árvore com dias de antecedência, apesar de não concordar em colocar algodão para "simbolizar" a neve. Gostava de imaginar os presentes. Aliás, não gosto nem de dar e nem de receber presentes em datas certas. O presente é bom quando você não espera. No aniversário, Natal, Dia da Criança, depois Dia dos Pais, acho um saco de Papai Noel. O presente, conforme a palavra em si se explica, é uma presença. Portanto, não pode ser datada. Não deve ser uma obrigatoriedade.

Além de não gostar do Natal, em alguns aspectos, ele chega a ser irritante: Em vários aspectos. Senão, vejamos:

- Quer coisa mais irritante durante o mês de dezembro do que ir a um barzinho ou restaurante, de noite, para tomar um chopinho e ter, ao seu lado, aos gritos, berros e urros, uma "festinha da firma", com risos histéricos, discursos profundos e etílicos do "chefe", gozações com a "gostosa" da firma e a indefectível troca de "amigos secretos?" Por que gritam tanto nas "festinhas da firma?" E quando você vai ao banheiro sempre tem um ou dois funcionários burocraticamente vomitando. Como se vomita no Natal! Principalmente os bancários.

- E o "amigo secreto" então? Já notaram que sempre sai para quem não é nem muito amigo e muito menos muito secreto? E você passa o mês inteiro tendo que imaginar o que vai dar praquele chato. Se o "amigo secreto" já é uma relação constrangedora na firma, em família então, nem se fala. Em primeiro lugar, porque dois ou três dias depois do "sorteio", todo mundo já sabe quem é o amigo de quem. Você já sabe pra quem vai dar e de quem vai receber. Essas informações sempre vazam no seio familiar. Sempre tem uma irmã que sabe de todos, ninguém sabe como. E você que torceu para não sair aquela prima fofoqueira, pois é justamente com ela que você vai se abraçar logo mais. E dizer todas aquelas frases. Todas, são insubstituíveis.

- E as propagandas de Natal? Existe coisa mais horrível que este bando de gordos com brancas barbas, puxados por veadinhos? A publicidade brasileira é uma das melhores do mundo, perdendo talvez apenas para a inglesa. Mas, chega o Natal, baixa o "espírito natalino" nos criadores das agências e dá no que dá. Eles não conseguem (há 1.994 anos) fazer um único anúncio sequer decente nessa época. São constrangedores, amadores, dignos de um Papai Noel de mentirinha. Tem uns, mais "criativos", que até neve têm, debaixo dos 40 graus de dezembro.

- E aqueles Papais Noéis que vão de casa em casa e os pais obrigam as criancinhas a dar beijo naquele sujeito imenso, barba descolada, sapatão de militar, já meio bêbado depois de passar em várias casas de amigos e parentes? As criancinhas esperneiam, não dormem semanas seguidas, sonhando com aquele monstro que o pai fez beijar. Meu Deus, é um outro pai que eu tenho?, devem pensar os pequenininhos da família. E o monstro ainda diz "coisas" para os indefesos, presos nos braços do pai ou da mãe, quiçá da avó: este ano, não vai fazer malcriação, vai comer toda a papinha, não vai mentir e nem fazer xixi na cama, viu, Rony? Coitados.

- Mas o pior mesmo é a ceia, propriamente dita. Com o passar dos anos, a família vai crescendo e de repente já são quatro gerações que estão ali, de olho no peru. Umas 50 pessoas. E ali dá de tudo. Cunhados que não se falam, a velhinha que não escuta os planos do asilo, o fulano que está falido, coitado, a prima que está dando para um sobrinho, aquele casal que está separado mas que, no Natal, baixa o "espírito" e eles comparecem juntos. Todo mundo sabe que se odeiam. Mas é Natal. Aquele tio que deve tanto para o seu irmão também está lá. Mas é Natal. E a irmã que não pagou a trombada que ela deu com o carro do tio-avô? Tudo é permitido. Afinal, é Natal. Nasceu quem mesmo? Jesus, não foi? E, por isso, à meia-noite, todos dão as mãos e rezam (des)unidos.

- E, para terminar: existe música mais chata que Jingle Bell?

Já o Reveillon, é o maior barato. É quando tomamos o porre para tirar e esquecer a ressaca do Natal. Mas não adianta. No ano que vem, tem outro Natal.

Texto do livro "100 Crônicas", Cartaz Editorial - São Paulo, 1997. pág. 148.









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3.12.04

PRELÚDIO NOTURNO














Hoje, num destes desvarios tão comuns da adolescência, me detive em frente ao espelho reparando em minha torpe e inútil imagem ali refletida. Eu, diante de mim mesmo... Comecei a me sentir angustiado com esta iconoclastia absurda, ponderei mais uns instantes, besuntei o cabelo de gel, peguei a carteira e parti. Sempre cumpro este ritual antes de sair. Devo confessar-lhes que a noite, nunca foi uma boa companhia, especialmente para alguém que esta deprimido. A noite é uma amiga amarga e cruel, cujas faces deslocadas de civilidade e loucura se expõem numa amostra bizarra pelas ruas, bares e inferninhos.
Esta noite em especial, uma gigantesca lua cheia, vêm ao auxílio da parca iluminação pública. E é assim, como um imenso holofote, que a noite expõe toda a canalhice do mundo pagão. Mendigos tiritando de frio, cheirando a cachaça, deitados em valas comuns de calçadas imundas. Meninas ricas, que almejam meninos ricos, que almejam meninas ricas, e a burguesia que se perpetua. Esquizóides envoltos num manto de cultura, escutam música, conversam em bares ou vão ao cinema. Crentes que rezam louvando ao Senhor, numa inconsciente sensação de culpa, hipnotizados pela possibilidade de redenção não notam assim, que o pastor acaba de bater sua carteira. Prostitutas em final de carreira, e reboleantes travestis expõem seus corpos no imenso açougue urbano.
E é aqui que me encontro, perdido em meio a estas vidas anárquicas. Perdido em meio a este caos delirante. Perdido em meio aos dias que passam. E a noite, é forjada deste caos. É fruto da profusão de extremos que os dias não têm. A noite as pessoas conversam mais, amam mais, se violentam mais. E é de noite que o silêncio impera. E lhe entregamos o cansaço de nossos corpos, para quando acordarmos, entregar ao dia o cansaço de nossos espíritos.
Continuo caminhando, e passo incólume em meio a uma gangue de crianças renegadas, cujo cheiro que emanam de benzina e cola me revoltam o estômago. Eles sabem que sou apenas um figurante. Assim como sabem que a noite é mais um ato desta peça insana. Transponho as distancias urbanas e chego finalmente ao meu destino. A boate está cheia, e uma fila imensa é a minha garantia que a noite esta apenas começando...
















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