28.11.04

O texto que segue é de autoria do Maluco Beleza, Raul Seixas e do Pseudo Mago e Imortal, Paulo Coelho.
Raulzito faleceu em 21 de agosto de 1989, de parada cardíaca ocasionada por pancreatite crônica.
Paulo Coelho segue escrevendo seus livros místicos com publicações em todo o mundo, e recentemente ganhou uma cadeira na academia brasileira de letras.

Rauuull

PC








Canto Para Minha Morte


de Raul Seixas e Paulo Coelho

Eu sei que determinada rua que eu ja' passei
Nao tornara' ouvir o som dos meus passos
Tem uma revista que eu guardo ha' muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir
Cada vez que eu me despeco de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela ultima vez

A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu nao sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela vira'?
Sera' que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou sera' que ela vai me pegar no meio do copo de uisque,
na musica que eu deixei para compor amanha?
Sera' que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Vira' antes de eu encontrar a mulher,
a mulher que me foi destinada,
e que esta' em algum lugar me esperando.
Embora eu ainda nao a conheca?
Vou te encontrar
Vestida de cetim
Pois em qualquer lugar
Esperas so' por mim
E no teu beijo
Provar o gosto estranho
Que eu quero e nao desejo
Mas tenho que encontrar

Vem
Mas demore a chegar
Eu te detesto e amo
Morte, morte, morte que talvez
Seja o segredo desta vida
Qual sera' a forma da minha morte
Uma das tantas coisas que eu nao escolhi na vida?
Existem tantas...
um acidente de carro
O coracao que se recusa a bater no proximo minuto
A anestesia mal aplicada
A vida mal vivida
A ferida malcurada
A dor ja' envelhecida
O cancer ja' espalhado e ainda escondido
Ou ate', quem sabe,
O escorregão idiota, num dia de sol
A cabeca no meio-fio

O' morte, tu que es tao forte
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado
E que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos
Na palavra rude que eu disse para alguem que nao gostava
E ate' no uisque que eu nao terminei de beber
Aquela noite...

Vou te encontrar
Vestida de cetim
Pois em qualquer lugar
Esperas so' por mim
E no teu beijo
Provar o gosto estranho
Que eu quero e nao desejo
Mas tenho que encontrar
Vem
Mas demore a chegar
Eu te detesto e amo
Morte, morte, morte que talvez
Seja o segredo desta vida.

Páginas dos autores:
HP do RAUUUUL!!!
HP do Paulo Mago Coelho

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20.11.04








QUANDO AMOR TECE



Amor...
Que palavrinha mais sem-vergonha.
Que sentimento mais em desuso.
Que destino cruel de um ser humano é ser amado.
Ver-se oprimido às expectativas alheias,
saber-se indigno do fel de um grande amor,
e por fim,
desconjurar esta falta de abnegação por ser adorado.

E talvez,
não menos aviltante que ser amado,
é amar...
Tolher-se aos pés desta ingratidão muda,
latente em gestos, risos, beijos, no roçar dos corpos, ou nas vicissitudes de paixão.
Cozer em si o que lhe queima a carne,
e extrapolar o senso da angustia, inerente a esta febre que lhe consome.

Ah o amor!
Quão cretino possa ser,
mesmo assim será sempre,
o mesmo e miserável amor de sempre.

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13.11.04















A lista que segue, é de autoria do músico e escritor gaúcho Frank Jorge (Graforréria Xilarmônica- Caubóis Espirituais- Cascavelettes e atualmente solo) que idealizou alguns nomes para bandas, com suas respectivas tendências musicais. A lista foi apresentada a algum tempo atrás no Sarau Elétrico e é realmente hilária:


BANDAS ATUAIS E SEUS ESTILOS


Clones do Albieri - banda de pós-rock
Seqüestradores de Cachorros de Madame - rap noise
Cadelas Pequenas - eletrônico bitter sweet
Os Bigs e os Brothers - rap televisivo
Anonymous TVComs - jazz pequeno-grande burguês
Discovery Nice - rock psicodélico
Filhos de Abravanel - folclore imaginário judaico
Filhas da Xuxa - folclore imaginário santarosense
Filhas de Shirley - folclore imaginário fashion
Filhas de Gisele - folclore simplesmente imaginário
Webdesigners do Carandiru - rap eletrônico com mini-moog
Banda Mármore do Inferno - trash-metal marroquino
Banda Página 10 - rock totalmente regressivo
Musical Somos Nós - banda de baile clover (clone+cover) totalmente sabonete
Pequeno Flávio e seus Alcaraz Gomes - serestas
Chaminé Humana - reggae universitário
Mesada Mirrada - reggae universitário
Reitores Chapados e suas Pró-Reitoras Devassas - rock'n'roll universitário
Éramos 100 - rock centenário
Os Corneteiros - banda grunge de São Sebastião do Caí
Banda Corpo Docente - rock com melodias doces
Vítimas do SOE - rock ginasial
Vítimas da Moral & Cívica e OSPB - rock ginasial
Os Mondongos Verdes Fritos - rock rural
Brasilzinho - grupo infantil de chorinho
Cinzas do Apagão - banda gótica de Brasília
Romário e os De Fora - pagode descornado carioca
Vampeta e os De Dentro - pagode inusitado paulista
Bichinho da Memória RAM - dance eletrônico
Dispersos e Aleatórios - rock indefinido
Açucareiro Silver - glitter rock
Dazabelhas - reggae catarinense
Flor do Pântano - pagode com P maiúsculo
Antônio Britto's Project - rock neoliberal
Cansada e com Dor de Cabeça - banda de baladas tristes
Disquetes Contaminados - música eletrônica industrial
Perdizes no Meio da Caça - rock ecológico
Charque Elétrico - nativismo eletrificado no Hospício São Pedro
Banda Carnê Quitado - rock meia-boca classe média
Guisadinho de Primeira - pagode gastronômico
Amoxil e seus Benzetassiz - rock hipocondríaco
As Pirinas - grupo vocal feminino
A Salamanca do Sarau - folclore rio-grandense urbano
Coissant e seus Pães Franceses - rock massa, muito massa
Manteiga e Margarina - dupla romântica muito sebosa
Dedos do Pé - rock pé no chão, uma coisa bem terra
Inimigos da Coolméia - rock fast-food
Órfãos do Getúlio - rock trabalhista
Faxina Completa - grupo funk carioca adepto do arrastão como forma de contato direto com o público
Cabeça, Tronco e Pênis - rock erótico






E para finalizar, dois pensamentos ( um deles de minha própria larva):


"Quando o português chegou, debaixo de uma bruta chuva, vestiu o índio. Que pena! Fosse uma manhã de sol, o índio tinha despido o português."
Oswald de Andrade


``Acho que parto ( um tanto farto) deste mundo falido....Mas garanto que parto, um pouquinho mais sabido.``
Indio Véio

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7.11.04

Amor, merda, amor



Por Moacyr Scliar


Ao entrar no banheiro Alfeu nada mais pretendia do que repetir o ritual que datava já de três anos, desde a época em que, pela primeira vez, encontrara Ofélia. Um ritual só possível graças ao fato de que, no modesto escritório em que trabalhavam, o banheiro era de uso comum- e, feliz coincidência, regularmente freqüentado pela bela, que ali realizava sua sagrada exoneração matinal. Eram minutos de intensa expectativa para Alfeu. Trêmulo, mal contendo a ansiedade, ele ficava à espera, o coração batendo forte. Finalmente, ouvia-se o ruído da descarga e uns instantes depois, Ofélia saia, ajeitando-se, e com ar evidentemente prazenteiro. Contendo-se, Alfeu aguardava um prudente quarto de hora - mas fazia-o rezando para que ninguém tivesse a idéia de usar a privada - e então entrava. Fechava a porta, ajoelhava-se no chão e, suspirando de gozo, encostava o rosto no plástico que guarnecia o vaso e no qual sentia, ou imaginava sentir, o calor da pele da amada. Sim, estava apaixonado; mas, tímido, jamais externaria seus sentimentos. O seu segredo ficaria para sempre encerrado entre as quatro paredes do W.C.
Naquela terça-feira, porém, uma desagradável surpresa lhe estava reservada. Surpresa que, contudo, ele poderia ter antecipado da reclamação que Ofélia, em tom azedo, fizera ao chefe: pô, seu Ernesto, o vaso está entupido, vê se dá um jeito. Mas entupido ou não, a Alfeu pouco importava: esperou o tempo de costume e então entrou no banheiro. E o que viu dentro do vaso mudou instantaneamente sua vida.
Fezes, naturalmente. O que mais poderia haver ali? Fezes. Mas é que, ao atento e apaixonado observador que era Alfeu, um detalhe não passou despercebido. Eram dois cagalhões. Melhor dito: um cagalhão - enorme, perfeitamente cilíndrico, marrom claro- e um ( à falta de denominação melhor) fragmento: bem menor, bem mais escuro, a extremidade irregular indicando uma obra não bem completada. Não provinham do mesmo intestino, aquelas fezes. Não bastassem as diferenças entre eles, havia ainda uma outra peculiaridade: no fragmento maior havia restos de feijão. Ora, a aversão de Ofélia ao feijão era bem conhecida, e até objeto de graçolas no escritório. Quem gostava de feijão, quem traçava imensas feijoadas, com paio, torresmo, farofa, quem era comedor de feijão era o Guilherme, o grandalhão Guilherme, o antipático Guilherme, o Guilherme que jamais perdia a oportunidade de dirigir uma piadinha a Ofélia: um dia vou comer você como sobremesa de uma feijoada. Ela protestava, mas o protesto era fingido, era uma farsa, como ele agora constatava. Guilherme estivera no banheiro antes de Ofélia ( isto era uma coisa que Alfeu não podia garantir- naquela manhã, infelizmente atrasara-se - mas podia, com toda a segurança, supor). E logo depois entrara Ofélia. Por quê? Urgente apelo das vísceras? Não. Entrara exatamente porque Guilherme saíra. Entrara para cumprir, ela também o ritual, para encostar o rosto no plástico e para gemer, amor, amor. Ofélia estava apaixonada pelo asqueroso Guilherme. Tão apaixonada que deixara aquele fragmento para fazer companhia à obra do grandalhão. Subitamente enfurecido, Alfeu deu a descarga. O vaso instantaneamente encheu-se de água, que subiu quase até a borda - momentos de apreensão, de terror, mesmo - depois, começou a descer lentamente : a canalização estava de fato entupida. O cagalhão e o fragmento continuavam ali, oscilando docemente na superfície; encontravam-se; repeliam-se, brejeiros, despudorados. E ele, o corno, ali, olhando. Traído pela merda, inerme. Nem afogar aquela imundice ele podia. A única vingança possível seria sepultar os traidores com a sua própria e monumental evacuação. Mas Alfeu sofria de prisão de ventre. Cagar era uma benção com a qual nem sempre podia contar. Silenciosamente, abriu a porta do banheiro, e sem olhar para ninguém, voltou à mesa de trabalho. Só não conseguiu conter a lágrima que, caindo sobre o livro-caixa, deixou uma mancha que jamais desapareceria.














Eu não ia proferir nenhuma opinião a respeito das tão exaustivamente comentadas eleições americanas, porém como não ouvi nenhuma abordagem parecida com o que penso, achei melhor me pronunciar.
Infelizmente o povo americano teve a chance de subir a bandeira branca da paz, contabilizar seus mortos e continuar com aquele papo furado de ``Terra da Liberdade`. Não quiseram... O Presidente Arbusto, com uma mãozinha de seu principal cabo eleitoral Bin Laden, garantiu mais quatro anos de uma administração tão perigosa quanto desastrada.
Certamente é uma incoerência absurda votar em Bush acreditando que ele esteja melhor preparado para lutar contra o terror. O cargo de xerife do mundo, vem com certas inconveniências assim como qualquer outro cargo de chefia, ou como canta o grupo Titã ``polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia``. E o mundo já esta grandinho o bastante, não precisa de polícia.
Façamos uma analogia. Se você pular a cerca do seu vizinho, comer sua mulher, pegar sua televisão e ainda fazer coco no meio da sala dele, certamente o cara não vai gostar muito. Mesmo que você seja professor de Jiu-jitsu, uma hora seu vizinho vai aprontar alguma com você.
Bush já provou ser um péssimo administrador. Como não consegue sustentar o império americano em declínio, resolveu saquear países, mercados estrangeiros e a natureza, com conivência da ONU e de seus covardes aliados. E foi isso que a maioria do povo americano e seus representantes escolheram. Um cowboy déspota que numa era em que todos tentam criar uma consciência mundial e evolutiva, só olha para o próprio umbigo.
Realmente, preferiram cuspir na cara do mundo e bradar um sonoro Fuck You !

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