28.9.04

Boteco... De onde viemos, e para onde vamos












Estava em um momento de solitário ócio contemplativo, quando comecei a pensar:
O que será que faz de um lugar para se beber, um BOTECO?
Nem todo lugar onde se bebe, é um boteco. Boteco que é boteco, tem lingüiça pendurada no teto, ovos verdes curtidos dentro de uma jarra de vidro, e um balcão tão gorduroso quanto cara de adolescente. Algumas moscas de estimação circulando pelo local, uma TV velha sempre ligada com a imagem chuvisquenta, e um banheiro onde o lugar menos mijado é com certeza a privada. Se o boteco for moderno, terá ainda, uma mesa de sinuca ou fla-flu bem no centro, atrapalhando a passagem.
O boteco é o habitat natural do bebum. É comprovado que os bebuns não se reproduzem em cativeiro, ou nos shoppings centers (mesmo porque a segurança insiste em joga-los pra fora). Pois é nos botecos que os bebuns se ocupam da árdua tarefa de destruir seus fígados e entorpecer suas mentes. Todo boteco que se preza têm clientes fiéis, também conhecidos e reconhecidos como pudins de canha. Com a fala arrastada e um andar incerto, os bebuns preferem o sincero convívio do boteco, às incomodações familiares ou um efêmero sucesso profissional.
Me pergunto, onde estão os grandes visionários do marketing, que nunca pensaram em padronizar um boteco, e lança-lo internacionalmente, concorrendo com as grandes redes de fast-food? Assim, poderíamos não só encontrar botecos do Oipoque ao Chuí ,mas também nos cantos mais recônditos de nosso imenso azul planeta. Já pensaram que reconfortante seria, estar passeando na Rodeo Drive em Berverly Hills, com seus amigos Arnold e George dar uma paradinha no Bar do Zé para tomar uma dose de purinha e comer um pastel de palmito? Sim!! O boteco é uma instituição nacional, assim como o samba, o futebol e a inflação. É coisa nossa, é sinônimo de nossa cultura e como tal, deve ser preservado, propagado e venerado. Que os botecos perdurem através dos tempos para que nossos filhos, e os filhos de nossos filhos saibam que neste conturbado mundo, existe um pequeno paraíso etílico, último refúgio de nossa incivilidade.

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Trópico de Câncer

Tropico

Como diria um verdadeiro imediatista, acabei de acabar de ler, o acima referido romance de Henry Miller que há tempos estava na espera na minha estante.
Para quem ainda não teve a oportunidade de ler, Trópico de Câncer trata sobre a estada do autor nos idos de 30, numa Paris repleta de prostíbulos, fome, amizades etéreas e doenças venéreas.
O livro as vezes cansa, devido ao palavrório desenfreado e poético do autor, que exemplifico:

``A terra em seus escuros corredores conhece meu passo, sente um pé em movimento, uma asa que se agita, um arquejo e um tremor. Ouço o saber ser alvo de caçoada e irrisão, as figuras subindo, sujeira de morcego gotejando do alto e movendo-se com asas douradas de papelão: ouço os trens colidindo, as correntes retinindo, as locomotivas resfolegando, roncando, fungando, fumegando e mijando.``

...Mijando? Mas também, o livro agracia o leitor com pérolas como a que transcrevo:

`` Uma das coisas que você precisa evitar quando trabalha à noite é fugir ao seu método; se não vai para a cama antes que os pássaros comecem a gritar, é absolutamente inútil ir para a cama. Esta manhã, nada tendo a fazer de melhor, visitei o Jardin des Plantes. Há ali maravilhoso pelicanos de Chapultepec e pavões de leques tachonados que fitam olhos estúpidos na gente. De repente começou a chover.
Voltando a Montparnasse no ônibus notei à minha frente uma mulherzinha francesa que se sentava muito rija e ereta, dando a impressão de estar se preparando para alisar suas plumas. Sentava-se na beirada do banco, como se tivesse medo de amassar seu deslumbrante rabo. Maravilhoso, pensei, se de repente ela se sacudisse e de seu derrière saltasse aberto um enorme leque tachonado com longas plumas.
No café de l´Avenue, onde me detenho para comer alguma coisa, uma mulher de barriga inchada procura interessar-me por seu estado. Gostaria que eu fosse a um quarto com ela e passasse uma ou duas horas. É a primeira vez que uma mulher grávida me faz uma proposta: estou quase tentado a experimentar. Logo que o bebê nascer e for entregue às autoridades, voltará a seu ofício, diz ela. Confecciona chapéus. Observando que meu interesse vai desaparecendo toma-me a mão e coloca-a sobre seu abdome. Sinto algo mexendo dentro. Isso me tira o apetite.``

O livro, um dos primeiros do autor, foi lançado nos EUA em 1934 sendo proibido e considerado um ``Romance Maldito``. As passagens eróticas ainda são capazes de chocar os pobres desajustados deste novo século. E retratam o início do desapego do autor à uma vida predecessora, em pról da posteridade literaria.

Agora de sobremesa, vou degustar um pocket book com contos do Nelson Rodrigues. É necessário reunir forças para encarar os 2 imensos exemplares das Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos, que há tempos estão me observando de forma opressora na estante do quarto de leitura.

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No começo, tudo era TREVAS

O post inicial é algo que jamais se esquece.
Ou seria a primeira vez?
Ah... Sei lá, não importa.
É tudo igualmente foda...
É tudo igualmente um ato que não se faz por mera vontade, mas por uma premente necessidade.
Necessidade de fazer-se ouvir, necessidade de fazer-se entender, necessidade de emocionar, e necessidade de eclodir.
Necessidades triviais, mas necessárias (eu sempre quis dizer isso).
E assim, sendo sucinto para não criar falsas expectativas (como toda introdução deveria ser), o post inicial termina por aqui. Espero que gostem:

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